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António Serzedelo: “Se pudessem, já me tinham eliminado de todas as maneiras”

Em ano de conquista de direitos sem precedentes para os cidadãos LGBT em Portugal, o dezanove entrevista António Serzedelo, figura histórica do activismo LGBT, presidente da Opus Gay e autor do programa de rádio Vidas Alternativas:

 

dezanove: Muitos consideram António Serzedelo uma figura incontornável do activismo português. Que balanço político faz da sociedade portuguesa entre 1974, quando foi publicado na imprensa o primeiro manifesto sobre a "Liberdade para as Minorias Sexuais" 17 dias após a revolução, e 2010, quando foi convidado para almoçar com o primeiro-ministro no dia da publicação da lei que permite o casamento entre pessoas do mesmo sexo?

 

António Serzedelo: De facto nestes 36 anos a sociedade mudou muito. A partir de 1980 começaram a dar-se mudanças legais na abordagem da temática LGBT, na mentalidade, e isso veio encorajar outras mudanças. Os mais jovens por influência da globalização, através da net, passaram também a ter outros comportamentos sociais e sexuais. A imprensa também ajudou muito. O aparecimento de um movimento associativo ligado a esta causa, também foi muito importante, apesar de dividido incompreensivelmente, mas é coisa habitual na sociedade portuguesa. O inesperado convite para o almoço com o eng.º Sócrates, veio prestigiar ainda mais esta luta, porque é muito invulgar isso acontecer, e creio que até hoje foi o único país do mundo em que um primeiro-ministro tomou essa iniciativa tão corajosa. Não esperava esse convite, tanto assim, que quando o assessor do gabinete me telefonou a convidar pensava que era uma brincadeira. Perguntei a rir: o traje é de tanga?

Quando afirmam "muitos consideram-no uma figura incontornável…”  Se pudessem, já me tinham eliminado de todas as maneiras. Lutei em muitas frentes, e tenho sido regularmente apelidado de muitas coisas nesta área GLBT, desde homofóbico, transfóbico, xenófobo, comprado, vendido, da Opus Dei, pago pelo Le Pen para destruir o movimento LGBT, traidor de classe, vivendo da exploração da prostituição, e há dias de desonesto, tudo tenho sido chamado, para me deitarem abaixo, por ódios de estimação . Quando fui presidente do Comité da Palestina, era chamado de "perigoso terrorista" e traficante de armas. Isso deu-me traquejo para aguentar estes novos epítetos.

 

Quais são as questões de resolução mais premente no que respeita aos direitos dos cidadãos LGBT portugueses?

A luta mais importante é pela mudança das mentalidades, ou seja, a luta contra a homofobia, que não se muda por decreto. Tem centenas de anos na nossa cultura, e é assimilada com o leite que se bebe da mama, pelos meninos. Hoje há mudanças, mas são vagarosas. Neste campo o Poder Central e Local, os órgãos institucionais, a Escola e as personalidades têm uma enorme responsabilidade para acelerar este processo. Devia haver leis que punissem a expressão da homofobia, como punem o racismo. Depois há questões como homoparentalidade, inseminação artificial, que têm de ser legalmente abordadas. Enfim, a sociedade tem de perceber que, quanto menos excludente for, e mais praticar a inclusão, só tem a ganhar em todos os aspectos.

 

Actualmente está à frente da associação Opus Gay. O que pretende ser o Centro de Acolhimento Temporário para Vítimas de Homofobia e Violência Doméstica?

Esse projecto vai desenvolver se por ordem do QREN, Quadro de Referência Estratégico Nacional, que o financia (muito mal) no Alentejo, em Évora. Basta dizer que para ordenados mensais temos 1.500 euros, e temos de ter uma assistente social, um psicólogo, um administrativo, um gestor e um sociólogo, pelo menos. E para pagar o aluguer da sede teremos cerca de 250 euros, para a casa, água, luz e net. As deslocações e refeições quando lá vou, tenho de as pagar do meu bolso. Vamos tentar fazer uma rede de ligações com varias instituições do Alentejo. [Os parceiros desta iniciativa são a Cooperativa "Pelo Sonho é que Vamos" e a Câmara Municipal de Évora].

 

Que novos projectos se avizinham para a Opus Gay?

Tenho outro projecto proposto à Câmara Municipal de Lisboa sobre tema idêntico. Reprovaram-no e renovei o pedido agora. Vou continuar a trabalhar com a rede social do Seixal que funciona muito bem, na área da homofobia e do HIV. Entretanto, pelo meio devem aparecer outros fogos a que temos de lançar a mão. A Opus Gay é activista na rede social Positivo PT, uma rede de seropositivos da lusofonia, muito interessante. A associação precisa de voluntariado, mulheres e jovens, e de organizar uma rede de apoio aos seniores activos homens ou mulheres.

O programa de rádio Vidas Alternativas trouxe aos ouvintes do país 11 anos de histórias de vida. Quer destacar alguns dos entrevistados?

Ao longo destes anos entrevistei tanta gente, deputados, secretários de Estado, directores gerais, escritores, poetas, professores universitários, líderes da maçonaria, figuras da cultura portuguesa, activistas sociais, personalidades estrangeiras, brasileiras em especial, à mistura com travestis, transexuais, gays, donas de casa, líderes ciganos, trabalhadores, jornalistas, etc. Damos muita importância ao Brasil e à lusofonia. Estamos muito abertos a parcerias, mas que funcionem, e não seja só colocar o logo, nas respectivas páginas.

 

Quem gostaria de entrevistar no programa e ainda não conseguiu?

O Sócrates e o Costa, por exemplo, é uma grande figura da cultura portuguesa. Também seria interessante falar com o Passos [Coelho] ou com o Louçã.

 

Como vê agora a nova geração de portugueses LGBT?

Vejo-a muito bem, com muito bons olhos. Menos umbiguista, mais destemida, menos politicamente correcta, mais alegre, menos sofrida, despartidarizada , imaginativa, com humor, e sobretudo, com menos homofobia interiorizada. E por isso vejo com muita satisfação o aparecimento de novos projectos. É bom e é útil acabar com discursos únicos, apresentar discursos diversificados e acabar com os monopólios fácticos que reinam há muito entre nós, para "caçarmos " aliados noutras áreas e levar a luta mais longe sabendo-a globalizar.

 

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