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A história de Celso Júnior: “Sou um coleccionador de botas, uniformes e bonecas”

Falar do Festival de Cinema Gay e Lésbico de Lisboa (FCGLL), é falar de Celso Júnior, o programador fundador do festival. Esta quinta-feira às 23h30 passa no Queer Lisboa o que pode ser o seu filme biográfico, "The Life and Death of Celso Júnior". Uma ocasião para recuperar uma entrevista que o dezanove efectuou ao multifacetado artista no final da última edição, onde conta os problema que teve na criação do festival e apresenta o ponto alto da sua ligação do festival.

 

dezanove: Quando criou o festival alguma vez imaginou que o mesmo ia chegar ao Cinema São Jorge em plena Avenida da Liberdade em Lisboa?

Celso Júnior: Era inevitável! Pode parecer pretensioso, mas ai de Lisboa que não nos desse esta chance! Há uma evolução que se pode ver no próprio catálogo. Por exemplo, os nossos catálogos estão hoje à venda no festival de Berlim. Estou orgulhosíssimo! Eu podia não imaginar como seria, mas não duvidava. Seja em 97 ou hoje o festival ainda é necessário, tal como a marcha, porque é chamando a atenção sobre nós é uma maneira de nos misturarmos no padrão, se nos excluirmos é pior. Todos temos de estar representados: da bicha louca à trans, sem excepção. O festival está no coração da cidade e está muito bem visto internacionalmente. O nosso consegue ser um dos mais antigos e a qualidade é de assinalar. O Queer é uma referência. Este é um festival que está assumido institucionalmente através da Câmara Municipal de Lisboa, ICAM, Institutos de Línguas Estrangeiras, etc.

 

Foi o fundador do festival em 1997. Qual foi a principal dificuldade a ultrapassar nessa altura?

Nenhuma. Nunca aconteceu. Os riscos vieram apenas de dentro da comunidade,
porque o risco vem sempre de dentro. O apoio institucional foi incondicional. As primeiras ameaças só apareceram com gays e lésbicas e por jornalistas da imprensa escrita que me questionaram muito pela existência de um FCGLL.  Quando o inimigo está fora nós podemos
unir-nos e lutar juntos, mas quando está na própria comunidade é mais difícil.

 

Consegue destacar alguma situação relacionada com os bastidores do festival digna de um argumento para uma comédia?

Tenho uma piada privada com o João Ferreira [actual director artístico] sobre a Madamme La Marquise, que fica a saber que o palheiro "pegou fogo", e quando descobre admira-se, mas descobre que o marido se suicidou, mas toda a gente continua a dizer que está tudo bem. No fundo é uma sátira às nossas histórias aqui, porque está tudo bem, tirando o filme que não foi entregue, a realizadora que não chega ou quando nos pedem mais dinheiro por um filme... Ou seja, a maior comédia é o nosso desespero (risos).

 

Fale-nos desta sua relação Brasil-Suíça-Portugal. Como veio cá parar para fundar o  primeiro festival deste género no nosso país?

O Gonçalo Dinis [presidente fundador da ILGA Portugal] convenceu-me pelo meu amor à diferença. Não é com a criação de um contra sistema que vamos lá. Sempre fiz questão de criar uma noite straight dentro deste festival. O que me assusta é aquilo que somos parecidos.  Na Suíça  é muito difícil esquecer que sou estrangeiro. Aqui esqueço-me disso, há muito generosidade, é algo mais do que a proximidade linguística. O português tem inteligência de coração. A Suíça [onde resido] é um país com uma diversidade fascinante. E é justamente com o riso, com a auto-crítica que o realizador consegue cimentar uma identidade.

 

Consegue destacar um filme que marcasse a história do festival?

O Fantasma [de João Pedro Rodrigues]. Foi o dia com maior público do festival até hoje. Lotação completamente esgotada na estreia. O João Pedro Rodrigues é um talento e falou de um universo que não é o dele. Até hoje nada se compara. E foi uma boa aposta esta estreia, porque a produtora [Rosa Filmes] assumiu mostrar o filme no Queer. Há muitas produtoras que não querem os seus filmes conotados a festivais gays. O filme esteve em cerca de 160 festivais e na noite de encerramento havia umas 1500 pessoas a assistir de pé. Um perigo! E nós já tínhamos mostrado filmes portugueses antes, Adão e Eva, por exemplo. Mais uma vez um tema straight porque é o amor sobre a diferença do que estamos a falar. Sempre fui calculista a programar, isto é, sempre programei com intuição. Sou uma drag queen invertida.

 

Como vê a produção do cinema queer em Portugal? Será João Pedro Rodrigues o expoente máximo desta corrente?

Eu sou a última pessoa a rotular o João Pedro. Ele é um realizador português e ponto. O Queer é a palavra mais abrangente que existe, o que realmente importa é a nossa humanidade que nos diferencia. Mas voltando à questão, eu não vou rotular nenhum realizador de queer, mas ele existem (risos).

 

O Celso Júnior é mais que um amante de cinema, um director de festival, de um programador, pintor e artista... É também um coleccionador. Como nasceu esta relação fetiche com filmes, botas e as bonecas?

Sou um coleccionador de botas, uniformes e bonecas. Nasci rodeado de livros de fábulas, sou um fascinado pela morte, na acepção de fim de um ciclo e o que virá depois.  Hoje aos 49 anos a vida torna-se mais fácil. É muito mais difícil lidar com a felicidade chega a ser insuportável porque não sabemos o que nos espera. Quanto mais felizes somos o nível de curiosidade baixa. Tenho um prazer imenso em usar as minhas botas. O Queer é isso mesmo, sobre as diferenças. Os melhores filmes que vi até hoje foram aqui. O melhor filme filme que vi sobre medos foi o Beau Travail. O filme Django também é muito bom. E o que fica na memória é a verdade. E um artista só é bom se falar daquilo que sabe. Uma coisa é certa: não vou deixar de ser eu para contentar o povo. E deixo-vos uma reflexão de Sartre: "O inferno são os outros", porque é que o outro diferente me incomoda tanto?

 

Paulo Monteiro

 

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