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"Prefiro ter um filho morto que um filho 'larilas'" (com vídeo)

Quantas vezes é que esta frase já não foi proferida por alguma mãe ou algum pai? Também se ouve no filme "J. Edgar" (2011), de Clint Eastwood. Anna Marie (Judi Dench) di-la ao filho Edgar (Leonardo DiCaprio) na cena em que ele, a tentar travar a sua gaguez, tenta fazer o seu coming out à mãe, dizendo-lhe que não gosta de mulheres, que não gosta de dançar, sobretudo com mulheres. Este diálogo entre mãe e filho dá-se nos anos 1930, em plena Depressão, uma época que não parece ser muito diferente da de hoje.

Anna Marie (apenas) queria que o filho fosse bom em tudo, que fosse o homem mais poderoso dos EUA, que ficasse para a História, um vencedor e não tivesse defeitos, não fosse gago, nem fosse 'larilas'. Já nesta altura Edgar tinha nomeado como vice-presidente do FBI (Federal Bureau of Investigation), organização e organismo criado por si, Clyde Tolson (Armie Hammer), com quem alegadamente manteve uma relação amorosa até à sua morte. Contudo a relação dos dois é contida no filme. Há um único beijo nos lábios e uns quantos afectos. Mas o amor entre os dois é evidente, sobretudo graças à química existente entre DiCaprio e Hammer, cujos olhos brilham de cada vez que fala de e com Edgar. Não é necessário mais para dar a entender o amor que uniu estes dois homens.

Clint Eastwood teve o bom gosto de retratar esta relação de forma sublime, mas intensa.

Falar do FBI é falar de John Edgar Hoover, falar deste é falar do organismo que revolucionou a investigação criminal no mundo e é falar também da relação que teve com a sua mãe, o seu vice-presidente e a sua leal secretária, Helen Gandy (Naomi Watts). A tarefa a que Eastwood se propôs não foi nada fácil, pois J. Edgar é daqueles ícones americanos que tem tanto de misterioso como de controverso. A ciência forense teve a sua origem na criação e concepção do FBI e isto deve-se a J. Edgar, impondo a sua visão futurista a uma sociedade pouco dada a mudanças. O que hoje em dia são coisas corriqueiras nas investigações criminais, como as impressões digitais, a análise da caligrafia, a preservação da cena do crime para se determinar o que aconteceu devem-se também a J. Edgar. Mas este workaholic inveterado, que governou o seu FBI por quase meio século, não tinha vida pessoal nem social, viveu com a sua mãe até à morte desta, tinha ele cerca de 40 anos, passou por oito presidentes norte-americanos e três guerras, era racista e xenófobo, perseguiu gangsters e radicais políticos, acreditava no poder da chantagem e da persuasão para chegar aos seus intentos, possuía mais inimigos que amigos. É esta vida que vemos no filme de Eastwood.

"J. Edgar" transpira Clint Eastwood por todos os poros, desde a música, que é da responsabilidade do realizador, até ao classicismo a que já nos habituou, com jogos de sombras e de luzes de grande mestria. Contudo esta película é um filme sem artifícios, quase na linha de "Hereafter - Outra Vida" (2010), o classicismo empregue neste "J. Edgar" está como que vazio, não possui o mesmo poder de filmes como "Mystic River" (2003), "Million Dollar Baby" (2004) ou "Cartas de Iwo Jima" (2006). O vazio é preenchido pelas maravilhosas interpretações dos quatro protagonistas, DiCaprio num dos melhores papéis da sua carreira, a sempre eficiente Dench, um Hammer a desabrochar a cada papel que faz e uma Watts maravilhosa. Mas o classicismo de Eastwood não deu espaço para que, por exemplo, Naomi Watts crescesse, a sua Helen Gandy passa de personagem de grande relevância para mera figurante quando o Clyde Tolson de Armie Hammer surge.

"J. Edgar" é um filme injusto. Injusto para com a figura histórica e controversa que é Edgar Hoover, esperava-se mais conflito, mais jogos de bastidores. Injusto para com Leonardo DiCaprio que encabeça um bom elenco com muita química, o que é raro no mundo do cinema nos dias que correm. Injusto para com o próprio Eastwood que já foi aclamado e que se vê em queda desde "Invictus" (2009).

 

Classificação: 3 estrelas em 5

 

Luís Veríssimo

 

 


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