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Guerra da Mata: “É preciso as coisas arderem para se recomeçar de novo”

João Rui Guerra da Mata, macaense de coração, director artístico, argumentista, designer, está em destaque nesta 16.ª edição do QueerLisboa. Para além de ser membro do júri na Competição para a Melhor Longa-Metragem, irá apresentar a sua primeira curta-metragem a solo, "O Que Arde Cura".

 

Guerra da Mata participou na primeira curta do companheiro João Pedro Rodrigues ("Parabéns", de 1997), que será também exibida esta quinta-feira. Agora é a vez de João Pedro Rodrigues entrar na primeira curta de Guerra da Mata. Mais coincidências, as personagens principais têm em comum o nome: Francisco. Aqui fica uma parte da longa conversa com o dezanove.

 

dezanove: Para começar, o que é isto de cena queer?

João Rui Guerra da Mata (JRGM): Tenho sentimentos contraditórios. Existe realmente um ponto de vista artístico queer. O outro lado da medalha é que, às vezes, qualquer merda cabe lá dentro. A cena queer é relativamente recente. E é mais um pensamento de obras artísticas que quando foram feitas não foram feitas com o intuito de serem gays ou lésbicas ou muito menos queer. Tiveram essa conotação a posteriori. Os festivais dão visibilidade a filmes que de outra maneira seriam muito difíceis de ver, por outro lado dão visibilidade a uma comunidade. Não somos nenhuns bichos papões. Somos uns gajos normais. Já existe uma série de pessoas que fazem coisas para serem queer. Quase uma coisa imposta, de agenda.

 

Como se encaixa aqui o teu filme, que passa no QueerLisboa?

Tive imenso cuidado para não se perceber se era um homem ou uma mulher com quem o protagonista "O Que Arde Cura" está a falar. Isto porque os sentimentos que queria expressar são universais. Acredito que o amor ou a ausência dele ou tristeza ou... são coisas transcendentes. O filme tem algum ponto de vista queer. A maneira como filmo o corpo do João Pedro, a maneira como o ilumino, aí há obviamente um olhar queer sobre um corpo masculino. Mas, no texto e no argumento, não há absolutamente nada que leve a pensar isso. Há pessoas que acham que é um homem e outras que acham que é uma mulher. Há pessoas na internet que dizem mesmo "está a falar com a namorada no dia do incêndio" e outras que dizem "está a falar com o namorado". Há blogues que dizem "obviamente que é um homem" e comentários que dizem "não, não, é uma mulher, ele nunca diz que é um homem".

 

O incêndio do Chiado é o ponto de partida para a história de Francisco? O que é que significa aqui o incêndio?

Não há muitos filmes portugueses que aconteçam em datas, são raros. Ou então são filmes sobre a própria da data. Naquele dia quando Francisco acorda vai à janela, olha para o prédio em frente, na altura ainda não sabe o que se está a passar, aí começa logo com a ideia do fogo, com ele a querer queimar a janela da pessoa em frente com o isqueiro. O despertador liga-se em modo rádio, na TSF, e aí é autobiográfico, porque eu acordei a ouvir a TSF, que tinha acabado de ser legalizada, e começa a falar do incêndio no Chiado, vira-se e liga a televisão e começa a ver em directo todas as notícias. Nessa altura recebe um telefonema da tal pessoa sobre o incêndio. "O que arde cura" é uma expressão que as nossas mães usavam quando punham álcool nas feridas e sopravam. Se calhar às vezes é preciso as coisas arderem para se recomeçar de novo. Às vezes é preciso um incêndio nas relações pessoais. Isto são tudo lugares comuns, gosto de lugares comuns no cinema, não tenho nenhum medo disso. A chama é paixão. Os clichés não são muito maus, desde que sejam bem aproveitados. O bom cinema está cheio de clichés e são óptimos. O fogo é paixão, mas também é ódio. A associação do incêndio com a relação parece-me óbvia.

 

Que reacções tens tido?

As pessoas dividem-se. O João Pedro colaborou na escrita do argumento, a ideia original é minha. Concorri a um subsídio e surpreendentemente ganhei-o, não pensei que tivesse currículo. A minha ideia inicial era vir a realizar o filme com o João Pedro. Só que ele achou que estava na altura de ser eu a fazê-lo. Eu sou director artístico, é essa a minha função. E se calhar algumas pessoas acham que o filme tem muita direcção de arte e se calhar não conseguem ver para além da minha função habitual no cinema. Se calhar acham que aquilo é muito espalhafatoso.

 

Como é que o João Pedro Rodrigues, realizador, se torna actor no filme? É por causa dessa complementaridade, dessa cumplicidade que vocês têm?

Fiz imensos castings para o Francisco. A personagem inicialmente era mais nova. Fiz castings a rapazes muito, muito bons, mas não me estavam a dar aquilo que eu queria. Queria que a personagem tivesse um registo muito low profile, eu precisava que fosse muito pouco histriónica. A parte visual já é tão forte que eu não podia ter uma personagem aos gritos. Tinha a justificação de ele ter uma educação inglesa. Não estava a conseguir encontrar ninguém. Pensei que a pessoa que melhor vai perceber aquilo que eu quero era o João Pedro, porque é a pessoa que sabe tirar de não actores aquilo que ele quer. E desafiei-o para isso. Quando começámos a ensaiar vi que era o ideal.

 

Luís Veríssimo

 

Horário:

"O que Arde Cura" e "Parabéns"

27 de Setembro: 19h30 (São Jorge)