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Possidónio Cachapa: Uma visão da homossexualidade no Alentejo


 “O Nylon da Minha Aldeia” (2012), de Possidónio Cachapa, é exibido a 4 de Abril, no FESTin – Festival de Cinema Itinerante da Língua Portuguesa –, na sala 3 do Cinema S. Jorge. O realizador, que também é o argumentista do filme, adapta para cinema o seu primeiro romance. Cachapa concedeu ao dezanove.pt uma entrevista descontraída por e-mail, onde nos confessou que já está a preparar a transformação desta curta numa longa-metragem. O realizador e escritor marcará presença na sessão de visionamento do filme esta quinta-feira.

 

dezanove: Como surgiu a ideia para o romance "O Nylon da Minha Aldeia"? O isolamento alentejano, açoriano e suíço tiveram influência de alguma forma?

Possidónio Cachapa: "O Nylon..." apareceu-me uma noite, numa pequena vila alentejana, enquanto assistia a um espectáculo de "variedades" com sevilhanas e artistas da canção local. A figura de Marcelo veio ter comigo, à minha cabeça, como quase sempre me acontece, e estava ali tão deslocado, no conservadorismo da cena, que comecei de imediato a escrever na toalha de papel que cobria a mesa, a sua história. Os meus vários isolamentos geográficos contribuíram fortemente para a minha escrita. Nomeadamente, por me darem um tempo e um silêncio que Lisboa se esforça por nos negar. Mas, neste caso concreto, a história foi escrita na cidade.

 

Quem são "Marcelo", "Sérgio" e "Lurdes"? Apenas inadaptados? Ou este Alentejo é-lhes pequeno de mais?

As duas coisas. Marcelo e o seu amor por Sérgio, de quem ele quer afecto e de onde só poderia receber sexo escondido, estão a mais numa terra em que a aceitação dos sentimentos é negada. Faz muito calor e muito frio, no Alentejo, para que o seu povo possa aceitar trazer os sentimentos à superfície.

Lourdinhas por seu lado tem uma qualidade de invisibilidade que lhe advém da família violenta, prosseguida por um marido alcoólico que casou com ela por falta de opções. A voz que tem dentro de si e que solta de noite, como uma assombração junto às águas da ribeira, é estranha demais para os ouvidos da aldeia. Ambas as figuras estão deslocadas de um universo ligado à terra, que não quer ir a lado nenhum, nem deixar que nenhum dos seus levante os pés dessa mesma terra, desde que nasce até que a ela se entregue.

 

Os anos 1970 foram anos de ruptura em Portugal. Estão estas aldeias alentejanas nessa trajectória de abertura ou ainda vivem enclausuradas?

Nos anos 70, as aldeias portuguesas eram lugares de clausura. Tudo se passava entre as quatro paredes de uma casa. O bom, o mau, o amor e a violência. "Cala-te, que os vizinhos podem ouvir", tanto é dito na cama onde se fazia o sexo, como no canto da cozinha onde a mulher ou um filho, caídos com pancada soltavam gritos involuntários.

 

 

 

 Em meios tão pequenos, como na aldeia retratada, como é que a homossexualidade é vivida nos dias de hoje?

Não posso responder com justeza a essa pergunta. Presumo que se mantenha um certo secretismo, um não-dizer. E quando essa orientação se torna explícita, espera-se que a pessoa parta. Para o meio dos "seus" que nunca são aqueles entre os quais nasceu e cresceu.

 

O que representa para si, e sobretudo para o filme, o prémio de interpretação entregue ao actor Cristóvão Campos no festival Caminhos do Cinema Português?

Fiquei muito feliz com esse prémio. O Cristóvão, tal como os outros dois actores principais, Anabela Teixeira e Tomás Alves, foi de uma entrega grande ao papel. Merece inteiramente esse reconhecimento. Da minha parte, significa que o prazer que eu tive a imaginar e a dirigir estes actores funcionou. Foi um trabalho muito bonito que espero ainda se prolongue um pouco, já que estou a preparar o financiamento para transformar esta curta, numa longa, a estrear em 2014. Para isso vou contar com o interesse dos espectadores, numa campanha de crowdfunding e com a boa vontade de empresas e entidades que nos ajudem a ir um pouco mais longe.

 

Luís Veríssimo

 

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