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Como é ser LGBT no Quénia? O Tiago Dias está lá, entrevistou um activista gay e conta-te tudo

Depois dos jantares em casa e da tipirraca no Santo António de Lisboa que ajudaram o Tiago Dias a cumprir o sonho de ir para o Quénia e prestar apoio na área da Saúde, Educação, Enfermagem, HIV e outras temáticas, o jovem relata-nos a sua experiência em África na primeira pessoa:

 

Quase a finalizar a minha quarta semana de voluntariado em Nairobi no Quénia consegui, por fim, uma resposta positiva para uma entrevista com a maior e mais reconhecida associação LGBT queniana. Quis conhecer as dificuldades reais e diárias que as minorias enfrentam em alguns países mais fechados à diferença, e esta entrevista possibilitou-me uma experiência única num mundo desconhecido à população queniana e desvendar a realidade por detrás da legalidade e aproximar-me do ciclo restrito da vida gay em Nairobi.

 

Convém referenciar em primeiro lugar que a homossexualidade continua a ser punida por lei e a mostra de carinho ou comportamentos homossexuais em locais públicos pode dar direito a cadeia (em pleno século XXI, no Quénia que se afirma um dos países mais justos e menos conservador de África).

 

Na passada sexta-feira, depois de muitos contactos por via e-mail e telefone por parte de uma amiga queniana colaboradora no projecto Passo Positivo (projecto pessoal na área de HIV que realizo em Kibera, a maior favela do mundo) surge uma mensagem inesperada para um encontro com um activista gay queniano disposto a falar abertamente, e na primeira pessoa, sobre o que é viver com a diferença e com a discriminação diariamente em Nairobi. Inúmeras mensagens depois, apanhei um táxi para uma zona de Nairobi desconhecida para mim até então e para o taxista, ao ponto de que para obter as indicações correctas sobre o local de encontro fiquei sem saldo. Após 10 euros e 40 minutos dentro do táxi consegui chegar a uma zona industrializada e bastante deserta de Nairobi. Na realidade, pareceu-me mais perigoso e sinistro do que as favelas onde trabalho diariamente. Quando o táxi parou aproximou-se de mim o Bonnie, um queniano de 30 anos, com tamanho de impor respeito a muitos lutadores profissionais. Depois de uma breve apresentação, onde não faltou uma referência ao nome de Cristiano Ronaldo (é uma constante sempre que digo que sou de Portugal), finalmente chegamos às instalações da GALCK – Gay and Lesbian Coalition of Kenya, localizadas num 3º andar de um edifício industrial onde a luz do dia é pouca, mas se encontram muito bem organizadas e com condições que considero óptimas dada a realidade do país. O primeiro passo foi a apresentação das instalações, divididas em diferentes secções: uma sala para o apoio legal, apoio psicológico para transexuais, salas de reuniões, sala de convívio e, claro, a cozinha onde o chá e o café está sempre pronto e é grátis para todos os que aparecem para dar ou procurar ajuda. Foi ali que comecei por me hidratar com um chá frio (os 39 graus de Nairobi não perdoam) e fiz a primeira pergunta ao Bonnie:

 

Tiago Dias: O que é a GALCK e para que é que existe?

Bonnie: A GALK surge de uma coligação de várias associações minoritárias do mundo LGBT e de Direitos Humanos. Pretende criar um ambiente seguro de trabalho para todas as micro-organizacoes LGBT existentes e uma plataforma com mais força legal e social para lutar pelos direitos das pessoas LGBT. O objectivo é promover o reconhecimento, a aceitação e a defesa dos interesses e direitos das organizações LGBT e dos seus membros. Surgiu em 2006.

Existem outras organizações que defendem os direitos dos gays e cada ano surgem novas e em diferentes cidades, o que revela um sinal positivo no esforço para o maior reconhecimento da verdadeira realidade vivida no país. Temos por exemplo, o Gay Kenya (grupo de advocacia que defende os Direitos Humanos, comprometido em lutar por todas as opressões legais, sociais económicas e culturais sofridas pela comunidade LGBT queniana), a TEA- Transgender Education and Advocacy (trabalha para a defesa dos direitos dos transexuais e na defesa destes contra acções legais discriminatórias por parte do governo) e a AFRA-Kenya - Artists for Recognition and Acceptance (grupo de lésbicas, bisexuais e transexuais que quer o reconhecimento artístico).

 

És originalmente de Nairobi? Que funções desempenhas nesta organização?

Sou natural de Nairobi, tenho trinta anos recém cumpridos e neste momento sou voluntário, pois recentemente passei a pasta da presidência da GALCK a uma colega. Senti que tinha chegado o momento de uma geração mais nova assumir a responsabilidade e lidar com uma abordagem fresca os problemas passados e os novos que têm surgido. Acredito que é nas novas gerações que podemos encontrar novas soluções para os problemas, apesar de eu não ser muito velho (risos). No Quénia aos 40 é normal ser-se avô e pensar na reforma (risos)

 

Como foi a descoberta da tua sexualidade?

Sempre senti curiosidade pelo mesmo sexo, sempre tive uma vontade presente, mas foi muito mais tarde quando tive o meu primeiro contacto sexual com um homem. Aconteceu entre os meus 24/25 anos, com um desconhecido. Não foi romântico nem muito pensado, surgiu de forma inesperada e eu respondi por impulso. Fui abordado por um desconhecido numa paragem de autocarro. Um homem perguntou-me sem rodeios se eu queria “brincar um pouco em casa dele”. Com medo do risco, mas com vontade de poder ter a minha primeira aproximação sexual respondi que sim, sem medir o risco desta decisão. Infelizmente ocorrem muitos casos desta forma aqui, porque não temos locais de convívio público para estas situações acontecerem com normalidade.

 

Continua a ler a restante entrevista aqui