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As Duas Mulheres de João Mário Grilo

O filme Duas Mulheres (2009) de João Mário Grilo estreou timidamente em quatro salas de Lisboa na quinta-feira passada. Este filme marca o regresso do cineasta à realização de longas-metragens de ficção depois de um longo período no documentário. Exibido em antestreia em Novembro passado no Estoril Film Festival, o realizador inicia com este filme uma trilogia sobre a condição humana.


Joana (Beatriz Batarda) e Paulo (Virgílio Castelo) são um casal aparentemente feliz, com estabilidade financeira e sem problemas de maior. Ela é psiquiatra, ele tem um cargo de topo numa multinacional. Num dia que parecia igual a todos os outros, Joana conhece Mónica (Débora Monteiro) que, com a sua beleza e juventude, vem representar tudo o que foi no passado e o que poderia ter sido caso tivesse tido a coragem necessária. Entre elas nasce uma atracção física incontrolável que ultrapassa os limites e que as conduzirá, inevitavelmente, à tragédia.


O que pode acontecer a duas mulheres que estão presas ao seu pequeno universo? Esta é uma das perguntas que o argumento e a realização tentam responder. Joana, a médica, a sensata, está submersa na aparência mordaz e atroz da sua vida perfeita de esposa de empresário rico. Mónica, a modelo, a tresloucada, é call girl porque gosta, vivendo como uma zombie que deambula nas ruas ou na passerelle, à procura do risco. São estas duas mulheres que um dia se encontram nas urgências dum hospital, a primeira assiste a segunda, que supostamente necessita de ajuda. A atracção física, sexual, é imediata. A médica é atraída pelo fascínio da juventude. A modelo é atraída pelo fascínio do poder. Afinal, o que as aproxima é a fragilidade que partilham, em comum, de um passado talvez em tudo semelhante. A este joguete junta-se o marido de Joana, Paulo, o empresário, o imperador que tudo quer, pode e manda. As aparências têm que se manter a todo o custo, apesar do distanciamento que existe entre si e a sua esposa, que não é mais do que uma call girl exclusiva.


O filme é assim frio e cru. Apercebemo-nos disso logo no fabuloso início, com as imagens de videovigilância a preto e branco de uma auto-estrada e da música a fazer lembrar um thriller psicótico. Mas o realizador não quis que o filme fosse esse thriller. Com uma crueza e um realismo soberbo, João Mário Grilo quis apenas dar-nos a sua visão da condição humana através da perspectiva da ruptura emocional de duas mulheres. Por isso o filme nunca chega a ser belo, nem mesmo o romance homo-erótico. Tudo é mostrado através da câmara sem filtro. Aliás esta dureza nesta realização é, em si, o filtro nas imagens que chegam aos nossos olhos. O romance entre as duas mulheres é retratado, sem moralismos, sem preconceitos. O que importa aqui, é conhecermos a vida vazia destas personagens. E que, afinal de contas, nada muda. Nem mesmo alguns anos depois, o casal continua aparentemente feliz na sua moradia e na sua condição social aceitável. Sendo este o melhor final que o filme poderia ter.


O filme encontra-se actualmente em exibição em Lisboa, no Porto e em Coimbra.


Veredicto: 3 estrelas em 5


Luís Veríssimo



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