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Carlos Castro morreu há três anos e revelou o pior dos portugueses

Um príncipe e um belo conhecem-se, estabelecem uma relação e vivem felizes para sempre. Um enredo que não é novo. A versão moderna e portuguesa da história misturou ficção com realidade, foi escrita a sangue e teve Carlos Castro e Renato Seabra nos papéis principais. Aos portugueses coube decidir quem era o Belo e o Monstro.

No dia 8 de Janeiro de 2011 os portugueses acordaram com a notícia de que o cronista social Carlos Castro tinha sido encontrado morto no da anterior num quarto do Hotel Intercontinental, em Nova Iorque. O estado de choque foi geral e agravou-se quando se veio a saber que o seu companheiro, o modelo Renato Seabra, era o suspeito do crime. Mas o que tornou este caso ainda mais distinto, além dos factos, foi a sua mediatização o moralismo dos portugueses.

O caso Carlos Castro/ Renato Seabra fica para a história como um exemplo dos efeitos da utilização não controlada de sites como o Facebook ou o Twitter – onde chegou a ser o assunto (#hastag) mais comentado –, sendo que a maioria das mensagens eram de ódio e de homofobia, como disse no Twitter Paulo Querido, consultor de new media e jornalista. “A morte de Carlos Castro está a expor nas timelines das redes sociais o pior que há nos portugueses, em especial nos homens”. Uma avalanche de reacções sobre o caso que colocou em evidência que os portugueses não são um povo de palavras e pensamentos brandos.

 

Os comentários

“Vidas inteiras a trocar de parceiro como quem troca de camisa na busca incessante de sexo... de corpos exuberantes... de luxúria... Sem nenhuma construção de laços afectivos...”, afirmava um anónimo. Centenas de internautas questionaram também se Renato Seabra teria ou não razões para matar Carlos Castro: “Um crime é sempre condenável, mas eu pergunto: quem será mais responsável por este desfecho lamentável? O miúdo de 20 anos ou o confesso, experiente e manhoso pederasta que possivelmente o abordou para seduzir e desencaminhar, talvez com promessas de vida fácil e luxuosa a que a ingenuidade do rapaz não soube resistir?”, perguntava um indivíduo.

Em sites dirigidos a lésbicas, gays, bissexuais e transgéneros foi possível ler também comentários de igual moralidade: “Bom eu acho que Renato Seabra usou o Carlos Castro por ajuda financeira e não pela sua homossexualidade, porque ele não o é. Portanto, ele deveria ser castigado e bem punido pela lei norte-americana, com a prisão perpétua”. Exemplos de palavras que se multiplicaram nas redes sociais, em blogues e nos comentários a notícias que revelaram as fragilidades na estrutura de valores da sociedade portuguesa.

 

Graçolas sobre o caso

“Carlos... Castro?, disse Renato Seabra para o jornalista. Irónico não?” Para o criador desta piada, certamente. Aliás, para este e para os muitos outros comediantes, dos amadores aos profissionais, que aproveitaram os pormenores do caso para soltar umas valentes gargalhadas. Piadas de mau gosto, inoportunas e puras manifestações homofóbicas, consideraram uns; inofensivas e artísticas, acharam outros. Algumas piadas chegaram até a ter contornos mais elaborados: saca rolhas com feitios criativos, montagens de imagens e até um jogo criado por Fernando Alvim, com o nome “Carlos Castro Invaders”, cujo objectivo era “matar Carlos Castro”. Se a operação fosse falhada, o utilizador recebia a mensagem “morreste pá”; se concretizasse o exterminio do cronista social, o jogador lia a frase “És o maior pá”. Alguns decidiram também atribuir ao caso algumas músicas, como o “Used to love her”, dos Guns n’Roses, com o conhecido refrão “I used to love her, but i had to kill her”.

No Facebook os grupos em torno deste caso também nasceram como cogumelos. Uns meramente sobre o homicídio, como “O estranho caso de Renato Seabra e Carlos Castro”; outros que evidenciaram o ódio ao jornalista – “Carlos Castro já deveria ter sido morto há mais tempo” e outros contra Renato Seabra – “Contra aqueles que apoiam o assassino de Carlos Castro”. E porque para alguns criar um grupo não era suficiente, houve mesmo quem tivesse decidido criar um evento para celebrar a morte do cronista.

 

‘Antes assassino do que gay’

Outro dos principais aspectos que importa salientar neste caso é, sem dúvida, as contribuições dos vários intervenientes para o debate público. Desde famílias, amigos e conhecidos das duas partes, e também o trabalho dos média, especialistas e fazedores de opinião. Comecemos por relembrar que as três primeiras declarações da família de Renato Seabra – da irmã, da mãe e do cunhado: “Ele não é homossexual”. Já todos os LGBT tinham ouvido a expressão “antes drogado do que gay”, mas a afirmação “antes assassino do que gay” colocou a questão num novo patamar, transformou o caso numa batalha campal e foi alvo de duros comentários, extremados com o desenrolar dos acontecimentos.

Para fazer frente a esta mensagem, amigos e conhecidos de Carlos Castro começaram também a divulgar que Renato Seabra só se teria aproximado por “oportunismo”, como afirmou Cláudio Montez. “Sou amigo do Carlos há trinta anos, conheci-lhe várias relações e assisti a vários deslizes dele, mas esta relação era a menos suspeita. Sei que o Renato nunca se aproximou do Carlos por uma questão de dinheiro, por exemplo. Nunca lhe pediu nada, nem sequer uns ténis. O que havia era uma ambição de carreira muito grande, e acho que foi por isso que ele se aproximou do Carlos, para ganhar protagonismo”.

Mas mais do que por factos que nos permitem ganhar consciência da realidade importa também recordar que o caso Castro/Seabra nos mostrou que vivemos rodeados de belos, quer por vezes são belos e noutras são monstros; por aparentes monstros, interiormente belos; e por outros em que as aparências não enganam. E acima de tudo que os piores monstros são aqueles que guardamos a sete chaves dentro de nós, e que fingimos serem belos, e que, de quando em vez, saem cá para fora com o objectivo de promover o preconceito.

 

Hugo Fernandes Lourenç o