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Alice Cunha: "Opá, acho que fica mal..."

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Todos os anos a mesma coisa, no mesmo sítio, e um calor imenso ainda por cima! Refiro-me à concentração para a Marcha do OrgulhoLGBT de Lisboa, no Jardim do Príncipe Real. Se fosse um convívio no parque, com música baixinha para não incomodar ninguém, vá que não vá… Porque se queremos respeito, não podemos fazer muito barulho. Temos de estar de cabeça baixa, e caladinhas, para que não incomodemos. Às vezes nem é preciso pedir tanto, afinal de contas “respeito” é algo já forte… No mínimo, queremos ser toleradas, vá. Certo? Mesmo que não nos possamos expressar como somos, mesmo que só nos tolerem se nos reprimirmos e existirmos nos moldes deles, nunca nos nossos.

Marcha do “Orgulho”? Orgulho em quê? Em ser diferente? Em contribuir para uma sociedade plural e diversa? Não, somos (e temos que ser) é todas iguais.
Com calma, com sorrisos, vamos pedindo espacinho ao mundo cishetero com jeitinho… Agora andar por aí aos gritos… Opá, acho que fica mal.

 

Agora, antes que me venham correr para os comentários, aos gritos, a tentar argumentar em defesa desta passeata, deixem-me já contradizer-vos com uma lista (porque estão na moda):

1- “Ah e tal, nas séries quase não há personagens LGBT, nos media pouco se fala, e na sociedade em geral somos ostracizadas. Estes espaços específicos, como a marcha, são importante para conhecermos pessoas como nós, para sabermos que não estamos sozinhas, etc.”
Para quê? Eu cresci sem representação positiva de pessoas Trans, por exemplo. Toda a informação que alguma vez tive era que no pior caso não existiam, no melhor eram um nojo, e cresci bem! Essa ausência de exemplos que me ajudassem a perceber quem era, essa profunda sensação de solidão, de ser nojenta… Sentir uma pressão enorme para cumprir papéis que me doíam cumprir, ser maltratada e excluída pelas diferenças que não conseguia deixar de manifestar por muito que as tentasse esconder… Não ter direito a existir, ou ser, no máximo, uma piada de mau gosto, porque as pessoas à minha volta aprenderam a odiar pessoas como eu, tal como aprendi a odiar-me também… Tudo isso, faz-nos mais rijas! Acho que está tudo bem com isto. Crescer e viver feliz, sem precisar de lutar todos os dias connosco e com o mundo, era fofo, não era? Mas pronto, “é o que é”.

2- “Ah e tal, direito à rua, reivindicar o espaço público, etc”

Mas reivindicar o quê? Alguém nos impede de andar na rua? Só porque a nossa presença no espaço público é frequentemente acompanhada de insultos, humilhações, pancadaria ou o ocasional assassinato, não quer dizer que deixemos de estar na rua. Acham que alguma destas violências diárias que sofremos e esperamos nos cria medo ou ansiedade? Acham que nos destrói psicologicamente, e nos impede de sair de casa às vezes? Acham que milhares de pessoas a marchar na rua é um acto minimamente relevante, nem que seja a nível simbólico, para resistir a este medo que nos é incutido? Claro que não! Óbvio.

 

3- “Ainda há tanto para fazer, tantos direitos para garantir, tantas violências para exterminar!”

Como assim? A PMA está garantida para mulheres cis, solteiras ou emparelhadas com outra mulher cis. A adopção para casais de pessoas registadas com o mesmo género foi aprovada. Casam-se! Tenho até ouvido de vozes respeitáveis que já não há leis discriminatórias em portugal! E acho que se repetirmos vezes suficientes, se torna verdade!

O que é que querem mais? Que as pessoas Trans não sejam forçadas a ter o reconhecimento legal do seu género dependente de um escrutínio alheio? Que este escrutínio pare de servir também de barrar as pessoas Trans do direito ao seu corpo, e a alterá-lo, se o quiserem? É isto que querem? Que muitas destas pessoas parem de ser barradas desse reconhecimento, ou dessas alterações, por não corresponderem àquilo que médicos e psicólogos acham que elas deviam ser? Que este bloqueios parem de ser legitimados, até de dentro da própria comunidade, por expressões transfóbicas como “transexuais a sério”?

E noutros campos? Querem, por exemplo, que as pessoas Trans parem de ser assassinadas às centenas por ano? Parem de ser espancadas, barradas de meios de subsistência, forçadas ao isolamento?

Pois, vocês querem tudo!

 

Tudo vai melhorar!

 

Não vos maço com mais do que três dos possíveis pontos com os quais podem tentar refutar que marchas são tontas! Até porque tudo já melhorou! E acham que marchas do orgulho tiveram alguma coisa a ver com isso? Acham que trabalho político de confronto de qualquer tipo ajudou? Acham que é percebendo, criticando e combatendo as estruturas de opressão da nossa sociedade que algo se resolve?

Claro que não! É uma questão de nunca fazermos frente a quem nos oprime, fingirmos que a opressão vem do ar (e não de sítios específicos), e bradar aos céus que “Tudo vai melhorar!”. É assim, e não com gritos, nem bateres de pés, nem nada disso, que se faz uma luta. Quietas e baixinhas. Assim nos querem.

Nota pós-satírica

 

Assim nos querem, por isso marchemos. Contra a norma e contra a regra que nos oprime, marchemos. Contra quem nos mata, marchemos. Façamos o luto e marchemos.

E reconheçamos que, por vários motivos, há quem não possa vir marchar. E marchemos por essas pessoas também, e marchemos, e reflictamos nos nossos erros, e continuemos a marchar, até que a marcha seja de todas as pessoas de quem devia ser.

 

Artigo de opinião de Alice Cunha, activista (Lóbula, Panteras Rosa)

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