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Ângelo Fernandes: Gay e homofóbico

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Tinha 17 anos quando ouvi pela primeira vez o termo “homofobia internalizada”. Nessa altura fiquei surpreendido porque não me fazia sentido um gay ser homofóbico, no entanto fiquei ainda mais surpreendido por ver isso presente em mim e sentir que não estava isento de preconceitos.

Hoje reconheço que era algo natural de acontecer. Cresci num ambiente onde era vulgar gozar com os maricas, aqueles seres inferiores. Porque eles eram diferentes e isso era mau. E eu não era diferente dos meus amigos de infância.
Nessa altura o meu raciocínio passou a ser “são aqueles os culpados porque os gays são mal vistos por toda a gente” e daí até à conclusão de que eram “eles” que davam má fama à comunidade foi um pequeno passo. Eram eles que estavam a complicar a minha vida e por causa deles os meus amigos de bairro e de infância jamais me aceitariam. E na adolescência, em que a identificação social e pertença a um grupo é a base de tudo, eu, tal como qualquer da mesma idade, não queria fazer parte do grupo dos excluídos.

Eram eles que estavam a complicar a minha vida e por causa deles os meus amigos de bairro e de infância jamais me aceitariam

Isto continuou como a norma, até me aperceber de que problema não era dos que eram apontados como maricas, mas de quem apontava. E compreendi que o assunto era bem mais profundo e que sem ter consciência disso estava a usar esse preconceito como bode expiatório para não lidar com os meus próprios problemas.
Passaram-se outros 17 anos desde então. Muita coisa mudou, o tema da homossexualidade está mais banal, as pessoas parecem estar mais à vontade, a lei adaptou-se, no fundo a sociedade mudou muito. Mas será que com isso podemos acreditar de que a homofobia internalizada é algo do passado?
O que constato ainda é uma certa facilidade em cair em cima das bichas, dos efeminados (como podemos ver neste documentário). São eles o alvo fácil. Se a maioria os vê como fracos, por fugirem ao papel do homem másculo e viril, os gays não-efeminados ao gozarem com eles estão a distanciarem-se e a criar ruptura, a mostrar à sociedade “vêem? não somos nada como eles”. E com isto ficam num meio termo entre um grupo e o outro; rejeita-se o próprio mas não há também aceitação pelo outro. Isto numa óptica afunilada e binária dos grupos existentes na sociedade.
E às vezes o discurso homofóbico entre a comunidade LGBT surge sem intenção. Acredito que há gente que não tem presente uma mensagem de ódio consciente, mas isso não significa que o mensagem não passe na mesma. Se já não bastasse a “guerra” pela inclusão e identificação num grupo, como ainda recentemente RuPaul apontou face aos negros e aos gays, é frequente ver gays a atacarem as bichas, as bichas  as camionas, as camionas os travecas, os travecas os transgéneros, e por aí fora. E para mim é aqui que reside um dos pontos de reflexão. Se defendemos a comunidade da maioria, tentando evidenciar que no fundo somos todos iguais e que somos tão ou mais aborrecidos como qualquer outra pessoa, porque não fazemos o mesmo dentro do próprio grupo? Qual será o motivo que provoca resistência em defender o próximo mesmo que ele não seja como nós? Custa assim tanto aceitar alguém que se apresenta por exemplo como “cis-genderqueer non conforming”?

Qual será o motivo que provoca resistência em defender o próximo mesmo que ele não seja como nós? Custa assim tanto aceitar alguém que se apresenta por exemplo como “cis-genderqueer non conforming”?

O discurso não pode ser só em de defesa dos direitos LGBTI para com a sociedade, esse discurso tem também de ser interiorizado. O grupo LGBTI não é uma hierarquia onde os gays e lésbicas estão no topo, depois os bissexuais, a seguir os transgéneros, etc. Estamos todos no mesmo patamar, juntos, numa luta, mais ou menos palpável, pelos direitos de todo o grupo, por um lugar de aceitação na sociedade. Para mim um gay que ataque outro é o mesmo do que ver uma mulher com comportamentos misóginos, não faz sentido.

 

Ângelo Fernandes, artista 3D, faz voluntariado num grupo LGBT em Manchester, Reino Unido.