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Carta a ti, que abusaste sexualmente de mim

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Escrevo-te hoje esta carta porque chegou o momento de encerrar definitivamente este assunto e de seres confrontado com a realidade: tu abusaste sexualmente de mim quando tinha 11 anos. Abusaste de uma criança que, como todas crianças, dependia dos adultos para a sua segurança. Aproximaste-te com as tuas mentiras e afectos, vieste como um amigo e deste-me atenção para criar uma relação comigo, uma relação que trouxe uma factura destruidora para a vida. Ao convidares-me para entrar na tua casa e te aproveitares sexualmente de mim, de uma criança de 11 anos, destruíste também parte dessa criança, parte de mim.

 

Cresci a acreditar que quando os adultos dão atenção vão cobrar por isso. Ensinaste-me que quando um homem dá afecto a um rapaz, a seguir vai abusar sexualmente dele. E fizeste-me acreditar que isso era natural, que era normal e aceitável que todos os homens tenham contacto sexual com crianças. Como podia considerar noutra coisa se o meu primeiro contacto sexual foi contigo, um adulto que se aproveitou da inocência de um rapaz de 11 anos e que dizia que era perfeitamente natural?

Como podia considerar noutra coisa se o meu primeiro contacto sexual foi contigo, um adulto que se aproveitou da inocência de um rapaz de 11 anos e que dizia que era perfeitamente natural?

Para que não tenhas dúvidas das consequências dos teus actos, vou explicar-te algumas das tuas marcas que me cicatrizaram internamente. Por tua causa e do que me fizeste, cresci a achar que não tinha qualquer valor. Que não era merecedor do afecto de ninguém. Cresci a achar que mereci teres abusado de mim, de que eu era o culpado. Com as tuas mentiras e palavras engenhosas, semeaste em mim um sentido de culpa sem fim. Cresci com nojo de mim, sentia-me sujo como se fosse eu o culpado das tuas acções, como se fosse eu, uma simples criança, que tivesse abusado sexualmente de ti, um pobre e inocente homem que caiu na trama de um demónio sexual com 11 anos. Era assim que me sentia. Durante décadas fui eu o criminoso.

Tu abusaste sexualmente de mim mas caminhas livre. Sempre caminhaste livre e isento de qualquer peso na consciência, porque se o tivesses não terias coragem sequer de me abordar na rua, na presença da minha mãe, e de me convidares para ir à tua casa, de tacteares por que nunca mais aparecera na tua rua sequer. Jamais me esquecerei quando me levaste para a tua cama pela última vez e alguém bateu à porta, da tua expressão de pânico e terror; o meteres a tua mão na minha boca para não se ouvir a minha respiração sequer. Se tudo aquilo era natural, como sempre cuidadosamente reiteraste, porque tiveste aquela reacção? Foi nesse momento que compreendi que havia algo de errado. O teu pavor, naquele momento, não coincidia com as tuas palavras ilusórias sabiamente usadas desde o início. Aproveitei o teu susto e fugi para nunca mais voltar. Mas o mal, repetido vezes sem conta, estava feito e foi comigo que veio.

O mais contraditório disto é que, sendo tu um monstro que abusou de uma criança, a vergonha, o pejo, culpa, mal-estar, a vontade de morrer, o poço sem fim, os pesadelos, a asfixia, o sufoco, isso tudo ficou para mim. Fui eu quem carregou esse peso terrível durante toda a vida.

E ainda assim continuas a ser visto como um cidadão exemplar, uma pessoa amiga, de confiança. Mas isso acaba hoje, pois eu sei quem tu és. Eu conheço o teu verdadeiro eu e hoje é o dia de te veres ao espelho, de seres confrontado.
Hoje pego no espelho e mostro-te quem tu és. A ti e ao mundo.

Continuas a ser visto como um cidadão exemplar, uma pessoa amiga, de confiança. Mas isso acaba hoje, pois eu sei quem tu és.

 

Durante décadas fui eu que mantive segredo e isso protegeu-te. Tinha medo de que as pessoas que me amam me dissessem que tinha sido eu o abusador. A culpa, o nojo e a vergonha eram de tal modo paralisantes que me mantive calado, carregando tudo isto em silêncio. Mas isso acaba hoje. Recuso-me a ser vítima de um passado que não pude escapar.

Hoje devolvo-te tudo o que me deste, que nunca mereci e que nunca pedi. Hoje devolvo-te a tua vergonha, a tua indecência, a tua culpa. Nada disso me pertence.
Hoje devolvo-te o crime horrível e desumano que cometeste. O crime destruidor que cometeste a uma criança de 11 anos para que sintas o peso das tuas acções para o resto da tua vida. A vergonha é finalmente tua.

Hoje quebro o silêncio e declaro-te culpado!

Nota: Durante algum tempo acreditei que não deveria publicar esta carta por não corresponder ao que actualmente sinto. No entanto, estas palavras não deixam de espelhar como eu me senti durante anos e décadas, e como muitos homens sofrem em silêncio hoje. Nesse sentido, partilho publicamente esta carta como forma de sensibilizar o público em geral para o abuso sexual masculino e trazer visibilidade a esta causa. Partilhem por favor! 

 

Ângelo Fernandes é fundador da Quebrar o Silêncio - associação sem fins lucrativos que dá apoio a homens vítimas de abuso sexual

 

Apoio a homens vítimas de abuso sexual: Linha de apoio: 910 846 589; 

E-mail de apoio: ajuda@quebrarosilencio.ptFacebook: https://www.facebook.com/quebrarosilencio

Website: www.quebrarosilencio.pt #quebrarosilencio

 

 

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