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Como é viver na freguesia mais gayfriendly do país

 

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A freguesia da Misericórdia, que compreende o Príncipe Real e o Bairro Alto, é considerada a freguesia mais gayfriendly do país. Além de acolher os principais bares e discotecas de Lisboa dirigidas ao público LGBTI, a Junta de Freguesia tem promovido várias iniciativas em prol dos direitos LGBTI. Mas será que há margem para melhorar?

 

Foi este o ponto de partida para um debate proposto pelo Bloco de Esquerda e organizado pela Junta de Freguesia, onde vários intervenientes da zona deixaram pistas. “Há muitos anos que a freguesia tem uma grande comunidade de pessoas LGBTI, não só de moradores mas também várias casas LGBTI”, comentou a presidente da Junta, Carla Madeira, eleita pelo PS. A responsável referiu que é preciso sensibilizar outras freguesias do país para estas matérias. “O combate às discriminações faz parte do nosso plano de actividades. Desenvolvemos muitas parcerias, como é o caso da ILGA. Todos os anos tentamos inovar. Pelo menos, no ano passado fomos a única freguesia do país a hastear a bandeira da igualdade [no 17 de Maio]. É um momento simbólico mas estes momentos são muito importantes. Alguém tem de dar o primeiro passo”, prosseguiu a responsável.

É na freguesia que está instalado o monumento que recorda as vítimas da LGBTfobia, é no Jardim do Príncipe Real que começa a Marcha do Orgulho, onde decorre o Arco-Íris no Jardim e foi aí, durante os primeiros anos, que decorreu o Arraial Pride. “Temos o sonho de ter o Centro LGBTI na freguesia. É um esforço que a Câmara está a fazer e que seria um marco importante, mas é algo que não depende da Junta”, revelou Carla Madeira, durante o debate.

 

Questões na saúde e educação

Pelas intervenções, percebeu-se que é na área da saúde e educação públicas que há um trabalho que ainda precisa de ser feito. A coordenadora do Centro de Saúde da Ribeira Nova (Cais do Sodré). Natacha Meira, admitou que “na saúde não há formação específica para lidar com as questões específicas da população LGBTI”. A unidade de saúde está a trabalhar com a ILGA “para perceber quais as barreiras que a população sente para melhorar os cuidados à população”. Já o coordenador dos Agrupamentos de Escolas Baixa Chiado, João Paulo Leonardo, contou que, em contexto escolar, “há situações em que ficamos aflitos. Sentimos uma grande dificuldade e isolamento para conseguir ajuda”, disse, dando como exemplo as “situações de bullying, onde vamos tendo a nossa intervenção mas nos falta apoio de retaguarda” para resolver as “questões do preconceito e discriminação que nos chegam”. “Surgem-nos miúdos aflitos que não sabem como se assumir ou como sentem a questão da identidade. Eu também não tenho grande capacidade de ajudar. Ouço. Há situações em que as próprias famílias não ajudam. Se conseguirmos ajudar os nossos jovens serão adultos mais felizes”, declarou.

O psicopedagogo da Santa Casa da Misericórdia de Lisboa Vitor Silva desafiou as entidades presentes a promoverem protocolos com a Santa Casa, uma vez que a organização tem seis mil pessoa a trabalhar na área da saúde, educação e acção social. “A Santa Casa está aberta a estar presente nas iniciativas”, assegurou, não escondendo que “falta na Santa Casa conhecimento e formação sobre a área. Todos os dias nos chegam pessoas com problemas e muitas vezes os técnicos não sabem como agir”.

 

O centro da noite LGBTI

A questão dos negócios dirigidos ao público LGBTI também foi analisada. Diogo Vieira da Silva, em representação da associação de empresários LGBTI Variações, considerou que “estes negócios não são guetos, são congregações, são espaços de reunião e historicamente, a nível internacional, são espaços de revolta e de resposta à discriminação”. Diogo Vieira da Silva também frisou que a associação pretende trazer para Portugal o evento Europride, para ser realizado em Lisboa e no Porto. “Se não fosse possível nas duas cidades, Lisboa surge no topo”, indicou.

João Brito, vice-presidente do GAT - Grupo de Activistas em Tratamento, que gere o CheckpointLX, também destacou a importância deste território como espaço de liberdade. “Foi neste bairro que há 30 anos fiz o meu coming out. Só foi possível porque havia um conjunto de características que nos davam segurança. O CheckpointLX instalou-se aqui porque era o bairro histórico e porque os nossos parceiros também estavam cá.” O presidente da Associação de Comerciantes do Bairro Alto, Hilário Castro, também considerou que “no Bairro Alto quase todos os sítios são gayfriendly. Só nos podemos orgulhar dessa liberdade”.

Por sua vez, João Valério, membro da direcção da ILGA Portugal, destacou, como activista, que “existe um trabalho que temos de fazer na sociedade civil. Mesmo nesta freguesia existem pessoas que vão ver uma casa para arrendar mas que escondem que vão viver com o seu companheiro”, sublinhando que o “espaço público tem de ser ocupado por todos nós”. João Valério apontou para várias questões que precisam de ser trabalhadas: visibilidade dos próprios políticos LGBTI, casas de banho neutras na freguesia e formação de profissionais da segurança, serviços públicos e do comércio sobre como lidar com as pessoas e as questões LGBTI.

 

Texto: Rui Oliveira Marques. Na foto: Diogo Vieira da Silva (Variações), João Valério (ILGA), Natacha Meira (Centro de Saúde da Ribeira Nova), Carla Madeira (Junta de Freguesia da Misericórdia), André Soares (moderador/Bloco de Esquerda), Hilário Castro (Associação de Comerciantes do Bairro Alto), Vítor Silva (Santa Casa da Misericórdia de Lisboa), João Brito (GAT) e João Paulo Leonardo (Agrupamentos de Escolas Baixa Chiado)

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