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Estive no Pride de Kiev e este é o meu testemunho

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Num período em que estamos a ouvir tantas notícias relacionadas com a violação de inúmeros Direitos Humanos, gostaria de partilhar convosco a semana em que estive na Ucrânia. Foi uma experiência que me surpreendeu bastante.

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De 07 a 12 de Junho ocorreu o KyivPRIDE 2016. Trata-se de uma semana aberta ao público, dedicada a eventos relacionados com a temática LGBT - visionamento de filmes com discussão no final, palestras com activistas LGBT, debates e workshops sobre temas relacionados com a situação da comunidade LGBTQI+ na Ucrânia. Termina com a Marcha de Igualdade. Tive a sorte de poder participar neste evento como parte de um grupo de voluntários que tinha o intuito de ajudar na organização do Pride.

Apesar de ter sido o primeiro país da ex-União Soviética a legalizar a homossexualidade, a realidade para a comunidade LGBTQI+ está longe de ser a ideal na Ucrânia. Num país onde o casamento e a adopção de crianças por casais do mesmo sexo não são legais e onde a transexualidade é considerada uma desordem psiquiátrica, têm vindo a acontecer vários ataques e a ser difundida propaganda “anti-gay” por parte de extremistas de direita. Para complicar a situação, o país divide-se entre grupos pró-Rússia e grupos pró-Europa, existindo pressão em ideais opostos no seu interior. Com a guerra civil a acontecer no país e uma realidade económica menos estável, a sociedade luta para encontrar a sua identidade e segurança, descurando a sua atenção em questões LGBT.

 

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A semana do Pride

Ao contrário dos anos anteriores, este foi um evento aberto a todos os cidadãos de Kiev, sendo, assim, necessária segurança reforçada: à entrada da sala de eventos, estavam presentes, no mínimo três polícias, para nos revistar. No final, não podíamos prolongar a nossa permanência no edifício sem haver seguranças, com o medo iminente de podermos ter encontros inesperados com grupos extremistas.

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 Também a discussão entre os participantes foi maioritariamente focada nas questões de segurança, com receio do que poderia acontecer durante e após a Marcha da Igualdade. Aliás, o tema deste KyivPRIDE 2016 foi “Segurança Pessoal para o Desenvolvimento do País”, um tema com o qual todos os cidadãos se poderiam identificar, tendo em conta os recentes conflitos militares na parte Este do país.

Durante os eventos, mesmo ficando perdida em traduções (experimentem perceber ucraniano e russo!), foi possível perceber o ambiente de tensão vivenciado pelo grupo. Por um lado, com o peso de estarmos rodeados por seguranças em todas as saídas da sala, por outro, na reacção de diversos membros do grupo a questões mais inocentes de pessoas menos informadas. Relembro especificamente um momento em que uma pessoa iniciou a sua questão com “Eu não faço parte da comunidade LGBT”, foi possível ver a surpresa dos participantes quando perceberam que pessoas heterossexuais estavam presentes na sala, reagindo de maneira tensa e com diversos estereótipos e medos. Não consegui resistir ao que estava a acontecer e pedi para falar, juntamente com o meu colega, Carlo. Falámos então na importância de ter um espaço aberto a questões por parte de pessoas que não se identificam como LGBTQI+ e na facilidade de passar de oprimido a opressor. 

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Várias vezes, brinquei com a questão e comentei que era como se estivéssemos numa revolução, com todo o secretismo e os pedidos para não utilizar roupas que chamassem a atenção para nós: Tínhamos de ser o mais discretos possível. A brincar, muitas vezes, dizemos verdades. Toda esta luta pessoal para ter os mesmos direitos no que diz respeito à identidade sexual e de género, coloca em causa a segurança de muita gente na Ucrânia (e não só).

Não posso deixar de sentir uma grande admiração por todo o grupo LGBTQI+ na Ucrânia, quer nos seus activistas, que lutam todos os dias por um futuro melhor e que estão a fazer a diferença, quer pelas pessoas que têm de viver numa sociedade onde os valores tradicionais são soberanos, e que vivem com medo de possíveis ataques à sua integridade pessoal.

Mas se há algo que esta semana mostrou foi que esta é uma realidade que se está a transformar.

 

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Marcha pela Igualdade 

A Marcha foi o culminar desta semana e um dos motivos de tanto nervosismo. Todo o processo foi interessante: enquanto eu e o meu colega de Itália, Carlo, estávamos entusiasmados e prontos para participar na frente da marcha, os nossos colegas locais estavam nervosos, sem querer ter um papel que pudesse atrair atenção para eles. Diversas vezes, discutimos se seria segura a nossa participação, tendo em conta os acontecimentos dos anos anteriores.

 

A primeira Marcha PRIDE a ser organizada no país foi em 2012, acabando por ser cancelada. As autoridades informaram os organizadores do PRIDE que não poderiam proteger os participantes das centenas de membros da extrema-direita que marchavam em contra-protesto. No ano seguinte, 2013, cerca de 150 pessoas participaram na marcha, no entanto, todos os eventos no centro da cidade foram cancelados pelas autoridades como medida de segurança. Durante a marcha, ocorreram diversos ataques que foram neutralizados. Também em 2014, a marcha teve de ser cancelada, sendo que a organização não conseguiu a cooperação das autoridades. Em 2015, cerca de 300 pessoas participaram na marcha. A marcha teve de ser interrompida após vários ataques com bombas de gás por parte de elementos de extrema-direita. 

 

Várias vezes me perguntaram: “Estás com medo de participar na marcha?” - Devo dizer que nunca o senti... Apesar de todos os avisos e de todas as precauções que estavam a ser tomadas... Percebo agora que esta ausência de medo se deve à minha realidade em Portugal, um país onde nem tudo é perfeito, mas onde a minha segurança pessoal já não é o meu problema central.

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É com muita alegria que escrevo que neste Domingo, 12 de Junho, apesar de todas ameaças de grupos extremistas, Kiev teve a maior Marcha pela Igualdade do país, onde 1000 participantes caminharam, durante 30 minutos, no centro da cidade, protegidos por 6000 elementos das forças de segurança. Este foi um passo importante na história LGBT do país, sendo a primeira marcha sem registo de feridos.

 

O apoio da Polícia foi fundamental para o sucesso, tendo sido tomadas várias precauções. Foram disponibilizados três autocarros para apoiar na evacuação de parte dos participantes da marcha, sendo que os restantes participantes se dirigiram para a estação de metro mais próxima, estando esta protegida pela da polícia. Várias estações de metro foram fechadas, evitando assim possíveis ataques de extremistas.

Esta marcha ficou marcada por uma chama de esperança para os próximos anos, mostrando que o governo ucraniano e parte da sociedade está mais aberta à mudança.

 

Sara Inês Ferreira

 

Álbum de fotos do Pride de Kiev aqui.

 

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