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Ana David: "Há agora uma envolvência da realidade social" no cinema queer

Ana David Queer Lisboa entrevista.jpg

A poucos dias do início da 19.ª edição do Queer Lisboa, o dezanove.pt conversou com Ana David, programadora do festival, sobre as escolhas para 2015 da equipa que selecciona o que mais interessante se faz pelo mundo no cinema queer.

Uma das tendências detectadas pela programadora é o vigor de uma cinematografia proveniente de novas geografias para além da Europa e dos Estados Unidos, como a América do Sul e a Ásia, e que está a atingir um grau de maturidade que se reflecte na escolha de temas prementes nos dias de hoje, como a questão das migrações e das minorias étnicas.

Há ainda espaço para falar sobre a estratégia de programação do Queer Porto 1 a menos de um mês do seu arranque, e levanta-se um pouco o véu sobre a data redonda que se aproxima: comemoram-se em 2016 20 anos do festival de cinema que ajudou a abrir a cidade de Lisboa ao mundo.

 

dezanove: Quantos filmes foram apresentados este ano a concurso?

Ana David: Foram submetidos cerca de 100 filmes, sendo que depois o festival faz depois um processo de visionamento de filmes bastante mais extenso. A programação no final é resultado muito mais da procura que existe da nossa parte do catálogo de distribuidoras, de world sales e de outros festivais internacionais do que desse processo de escolha desses filmes que recebemos.

 

Quantos filmes foram visionados?

Foram perto de 740. É um festival bastante conhecido no circuito quer europeu quer mundial do cinema queer e é normal que os realizadores, quando fazem o mapa de festivais onde vão submeter os seus filmes, incluam o Queer Lisboa.

 

O processo de selecção prolongou-se por quanto tempo?

O processo de selecção começa quase imediatamente a seguir ao fim do festival. Por volta de Novembro começamos a ficar atentos àquilo que sai nos outros festivais internacionais e depois começa com mais vigor em Janeiro, no festival de cinema de Roterdão e de Sundance, que é uma segunda reentrée de festivais de cinema, prolongando-se até Junho, altura em que fechamos o programa. É quase um ano inteiro.

Queer Lisboa Cinema São Jorge.jpg

 

Que dificuldades há nesse processo de selecção?

Quando estamos a fazer a programação há um cuidado nosso em ter filmes que venham de diferentes nacionalidades. Nem sempre acontece conseguir representar filmes que venham de diferentes partes do globo como gostávamos de poder fazer, para mostrar a pluralidade daquilo que está a ser feito neste momento dentro do cinema queer. Temos sempre uma presença muito forte do cinema europeu e do cinema norte-americano que recebemos, mas depois acabamos para nos inclinar bastante mais a encontrar cinematografias que venham de outros territórios menos comuns, menos vistos em Portugal. Vamos procurar filmes à América do Sul, à Ásia…

 

A cinematografia queer está a ganhar força fora da Europa e dos Estados Unidos?

Há um cinema queer muito forte no Brasil, do Chile… Este ano temos quatro longas metragens do Brasil e uma do Chile. É um cinema que já deu cartas no festival, como com longas do México, como é o caso do cinema do Julián Hernández, do Roberto Fiesco, que tem uma curta-metragem este ano em competição. É um cinema que está muito atento ao contexto social dos seus respectivos países. Tens o Nova Dubai, do Gustavo Vinagre, que está presente na secção Queer Art, e que vai procurar reflectir sobre um espaço de edifícios gentrificado. Tens aí essa atenção do cinema queer a uma realidade envolvente.

 

Que balanço fazes da selecção deste ano?

Nesse seguimento, acho que é um ano em que estamos a olhar para várias realidades envolventes. Não que isso seja exclusivo deste ano, mas há agora uma envolvência da realidade social neste cinema. Olhamos para as crises de emigração, para a gentrificação, para a realidade da Rússia actual. Há outros filmes, não apresentados este ano no entanto, mas em termos de cinema queer no geral, que olham para a realidade africana. Há essa abertura dos realizadores à envolvente, deixam de ser problemas específicos da comunidade queer. Pegam-se nessas personagens e pomo-las em confronto com a realidade delas.

 

Achas que, nos últimos anos, os realizadores e os argumentistas estão a mudar de temas que dizem respeito ao que é pessoal para temas relacionados com o colectivo? Achas que a tendência é virarem-se para fora, para as realidades económicas, sociais…?

As duas esferas estiveram sempre bastante presentes. Tens os temas do casamento, da homofobia, do coming-out à tua família, aos teus amigos, a adopção… São temas que tocam o indivíduo mas que estão sempre presentes num contexto político, sempre presente no cinema que vi neste festival. O pessoal não é impossível de ser dissociado do colectivo.

 

Por que é que há tão poucos filmes realizados por mulheres?

Million dollar question… Há aqui uma mistura de vários factores. Na Escola Superior de Teatro e Cinema, aquilo que vejo é as raparigas inclinarem-se bastante mais para áreas de edição e de produção. Depois não deixas obviamente de ter realizadoras, isto no panorama mundial, que têm dificuldades em encontrar financiamento para os filmes delas. Isto penso que vem do medo por parte de produtores mais sénior, do sexo masculino, de financiarem trabalhos feitos por mulheres. Tens aqui latente um certo machismo, uma relutância, falando de certos estúdios, como em Hollywood, em filmar, produzir, financiar projectos que julgam não vir a ser produtivos por serem contados por mulheres, por nomes menos conhecidos.

 

Mas mesmo no cinema independente, e até no cinema queer, nota-se que há muito mais filmes realizados por homens do que por mulheres…

Eu acredito que as mulheres estão todas muito por trás das câmaras, nas equipas. Provavelmente também virá de, quando entram numa escola de cinema, se verem bastante mais atraídas por essas outras áreas que não a realização. Não tenho uma resposta definitiva ou factual sobre por que é que faz existir uma discrepância tão grande na realização. Só que não compro também muito bem toda a questão de vitimização que às vezes existe em relação à inexistência de acesso, de financiamento ao cinema independente… Acho que quando estas histórias querem ser filmadas por mulheres e quando as mulheres as querem fazer, fazem-se rodear pelas equipas certas e as coisas acontecem e avançam. Isto sem deixar obviamente de constatar que existe esta discrepância.

 

Ana David durante Queer Lisboa 2012.jpg

Que filmes gostarias que estivessem na selecção deste ano e que não conseguiram chegar à programação final?

O Dior and I, sobre a chegada à casa Dior do Raf Simons, um documentário maravilhoso sobre a primeira colecção que ele fez quando chegou à casa. Não está presente no festival porque já foi apresentado pela Alambique, em circuito comercial. O Carol, do Todd Haynes, que estreou este ano em Cannes, a história de amor entre uma rapariga mais jovem e uma mulher casada que, por questões de agendamento relacionadas com a corrida aos Óscares, vai estrear em Portugal bastante mais tarde, em princípio só em 2016.

 

O que se pode esperar do Queer Porto?

Há um cuidado muito grande em programar filmes que sejam relevantes para cada público. O que nos pareceu interessante fazer no Porto foi avançar com uma maior quantidade de filmes que reflictam sobre outras disciplinas artísticas. Temos um documentário sobre a vida da Susan Sontag, um documentário de estrutura clássica, simples, cronológica, e que vai buscar imagens e material de arquivo para contar a história de uma das maiores pensadoras do século XX que tanto pensou sobre arte e sobre fotografia. Uma das coisas que acho mais interessantes no Queer Porto é o facto de unir em competição quer documentários quer longas-metragens de ficção e que vai pôr ao mesmo nível duas linguagens diferentes de cinema perante a avaliação do júri. Estão dois géneros em pé de igualdade quando na maioria das vezes o que se vê é o documentário a ser o underdog, a ser menos visto, menos procurado pelo público. Aqui pomo-los em igualdade e estamos de certa forma a dizer ao público que estes documentários são tão importantes e tão apelativos como os de ficção.

 

O que podes antecipar sobre a celebração da 20.ª edição do Queer Lisboa?

Temos uma segurança financeira graças aos apoios do ICA e da Câmara Municipal de Lisboa que se têm repetido, dando-nos segurança para anos futuros. Sabemos que vamos ter uma estrutura forte para poder apresentar algo forte. De certeza que passará por apresentar uma retrospectiva ou de um realizador importante para o cinema queer, ou de uma temática que também foque este cinema.

 

Entrevista de Pedro Garcia

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