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“Há ainda o moralismo de pensar que o VIH é a 'merecida punição' para quem foi 'puta'”

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Paolo Gorgoni subiu ao palco da Marcha do Orgulho LGBTI de Lisboa para ler um manifesto onde se apresentava, publicamente, como seropositivo.

“Hoje é o dia em que eu, pessoalmente, quero revelar à luz implacável de Lisboa, o estigma e a discriminação que as pessoas que vivem com VIH sofrem em Portugal. Uma discriminação palpável é demasiado abrangente. Uma discriminação que facilita a invisibilidade e a exclusão e alimenta o silêncio. Hoje é o dia em que queremos contribuir à quebra desse silêncio, pois quem vos fala vive com VIH e quer partilhar a sua voz com quem tenha menos”, declarou numa performance do colectivo Favela Lx, já após a fase dos discursos das associações e colectivos promotores da Marcha. Em entrevista, este italiano de 30 anos a viver em Lisboa explica porque faltam mais casos de pessoas a declararem-se como seropositivas no espaço público.

 

dezanove: Que reacções tiveste após a intervenção no final da Marcha?

Paolo Gorgoni: O meu coming out sobre o estatuto serológico foi em 2014. Após o congresso HIV Drug Therapy 2014 em Glasgow escrevi um relatório sobre o evento do ponto de vista de um representante da comunidade. A reacção, na altura, foi gigante e deu-me a coragem e a vontade para continuar. Aqui, na Marcha, tive um espaço pequeno, mas que foi bem aproveitado. Senti que podia expressar-me enquanto artista e pessoa. As reacções foram muito emocionais, mas discretas. Estavam lá colegas de trabalho que quiseram falar comigo para mostrar admiração pela decisão de ter uma voz, de uma forma tão explosiva. Isto aconteceu há poucos dias, acho que as verdadeiras reacções demoram mais tempo até chegarem.

 

Em 2014 estavas ligado a alguma associação?

Sim, em Itália, estava na direcção de Plus, uma rede LGBT de pessoas seropositivas. Foi no blogue da associação que o meu relatório foi publicado.

 

Em que situações é que existe estigma em relação às pessoas seropositivas em Portugal?

Institucionalmente, quase que não existe, apesar de termos sofrido uma redução drástica na isenção das taxas moderadoras no SNS. Antes as pessoas com VIH tinham uma isenção total, como em Itália, agora já não. Pagamos quase tudo, menos os controlos de rotina e a terapêutica anti-retroviral. O SNS não é mau, mas já foi melhor antes dos cortes. No entanto, no sistema português, uma baixa médica não é paga nos primeiros três dias e a seguir, pela Segurança Social, é paga em 60 por cento, penalizando todos os trabalhadores que tenham vulnerabilidades. Ir às minhas consultas em dias de trabalho quer dizer que terei de compensar em horas. A alternativa será utilizar as minhas férias ou as minhas folgas, que acabam por não ser nem férias, nem folgas, se passadas nos hospitais.

 

E em termos sociais?

Socialmente a situação é pior. Quem tem VIH não o pode dizer, por medo de ser estigmatizado. E chegamos à necessidade de ter de vir uma pessoa de fora com a lata de subir a um palco e dizer: “Hey, existimos!” Em Portugal, apesar das leis progressistas e modernas nas temáticas LGBTQ, há um grande preconceito. Portugal não é apenas Lisboa, mas também um conjunto de zonas rurais em que, provavelmente, desde o 25 de Abril até hoje, a mentalidade não deve ter avançado muito. As aplicações de engate são reveladores: masc4masc, discreto, masculino, sigilo, não-efeminados. É uma discriminação interna à própria comunidade, baseada em body-shaming e no culto patriarcal da masculinidade como se fosse um valor. É uma atitude que revela um pensamento de fundo machista e misógino.

 

Mas é no contexto de trabalho que é mais difícil lidar com a questão?

É uma dificuldade real, para combatê-la é preciso "sair do armário". Isto tem riscos que, razoavelmente, pouquíssimas pessoas estão dispostas a correr. A principal dificuldade é a solidão, o medo da rejeição e as consequências que a situação pode ter na saúde mental. A nossa comunidade LGBTQ devia começar realmente a ter um + a completar seu alfabeto.

 

Existem várias associações de apoio a pessoas VIH+. O que está então a faltar?

Falta uma comunidade de pessoas com VIH que exista socialmente e pretenda mudar um pouco esta mentalidade através de um confronto aberto. Falta a frontalidade, mesmo dentro das associações onde se diz “amigo, passámos pelo mesmo”. Há trabalho a ser feito neste sentido, inclusive, candidatei-me para uma formação na Positivo, para providenciar apoio por pares. Não soube mais nada sobre o desenvolvimento do projecto. Falta falar mais sobre como se vive quando se tem VIH, porque muitos serviços estão, justamente, dirigidos à prevenção, mas a questão ligada ao VIH é muito mais que isto.

 

Falta uma comunidade de pessoas com VIH que exista socialmente e pretenda mudar um pouco esta mentalidade através de um confronto aberto.

 

Notas alguma diferença entre Itália e Portugal nesta matéria?

Há várias, mas fazer comparações, para além de complexo, pode não ser apropriado. Falar em Itália de forma geral é, em si, difícil, pois cada região e cada cidade tem características próprias. No geral, politicamente Portugal tem muita mais abertura perante as temáticas LGBTQ, na abordagem às práticas de redução de risco para quem usa drogas e no acesso às novas terapêuticas para a hepatite C. A mentalidade geral, porém, parece não reflectir a abertura da política. A sociedade portuguesa ainda é muito machista. A comunidade LGBT sofre, visivelmente, uma fortíssima homofobia internalizada.

 

Em que momentos sentes a discriminação por parte de pessoas LGBT em relação a pessoas HIV+?

Sempre que abro uma aplicação de engate em que não há mais ninguém a assumir o estatuto serológico, por exemplo. Ou cada vez que ouço dizer: "És a primeira pessoa seropositiva que conheço" e sei perfeitamente que não é verdade. Cada vez que falo com pessoas com VIH que entram em contacto comigo porque não sabem com quem falar e confortar-se. Ou seja, mesmo dentro da comunidade gay há muito desconhecimento e medo sobre o que é ser seropositivo. E há ainda o moralismo de pensar que o VIH é a "merecida punição" para quem foi "puta". Não se aceita que o nosso desejo tenha direito de existir em todas as suas variantes, sem ser alvo de julgamento.

 

Quais foram as reacções mais bizarras que já tiveste nas aplicações tipo Grindr?
Insultos, repentinas "perdas de interesse", conversas cortadas a meio. Isto acontecia todos os dias. Agora muito menos porque o meu estatuto serológico está escrito no perfil. Quem não estiver à vontade, evita o contacto, faz-se uma selecção natural à partida.

 

Nas aplicações costumas encontrar outros portugueses que se apresentem, no perfil, como seropositivos? Ou não há mais ninguém?

Só aconteceu uma vez. Fui beber um café com essa pessoa e foi muito agradável.

 

As pessoas seropositivas devem identificar-se nas redes sociais? Não será algo que deva ocorrer depois num cara-a-cara e quando haja confiança entre as pessoas?

Ninguém é obrigado a partilhar uma coisa tão pessoal, como é óbvio. Porém, o risco que corremos ao ficar invisíveis é tão grande que não consigo ignorá-lo. Ninguém deve declarar o próprio estatuto serológico, mas adorava viver numa sociedade em que fazê-lo não criasse problemas. Sem abertura sobre estes temas, ficaremos para sempre presos no passado. Todos nós merecemos um brilhante futuro.

 

Ninguém deve declarar o próprio estatuto serológico, mas adorava viver numa sociedade em que fazê-lo não criasse problemas

 

Ao mesmo tempo, surgem notícias que alimentam o estigma. Por exemplo, foi agora apresentado um estudo feito em Portugal que refere que um quarto das pessoas que têm VIH não usam preservativo em relações sexuais. "Contrariando discursos mais optimistas, ainda é expressivo o uso irregular de preservativo", disse uma das autoras desse estudo. Como comentas este resultado?

O preservativo não é a única nem a mais eficaz estratégia de prevenção da transmissão do VIH. Uma comissão científica, na Suíça, em 2008 declarou que as pessoas seropositiva que tomam corretamente a medicação não transmitem o vírus sexualmente. Mas lá está: preferimos culpar quem foi diagnosticado e protege os outros usando a terapêutica, do que atribuir a responsabilidade a quem faz sexo sem preservativo desconhecendo o estatuto serológico. É mais fácil fazer da pessoa seropositiva um monstro do que responsabilizarmo-nos todos individualmente. Artigos como esse são o estigma que nós sofremos todos os dias, e que fazem escondermo-nos.

 

Rui Oliveira Marques

 

 

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