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Identidade e opressão

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Graça Fonseca, Secretária de Estado da Modernização Administrativa, falou abertamente da sua homossexualidade numa entrevista. Se vivêssemos num mundo ideal, sem estigmas e violência, nada disso importaria. Mas ainda é necessário falar de homossexualidade, não numa lógica de quem faz o quê com quem (isso é da esfera íntima), mas na óptica da identidade (essa da esfera pública), tal como é necessário falar da identidade cultural, religiosa, étnica, ou outras que são alvo do preconceito da sociedade. E sempre com a consciência de que essas identidades são apenas uma dimensão do que se é na totalidade enquanto indivíduo. Como a própria Graça Fonseca afirma na entrevista ao DN, «na verdade não é uma questão da privacidade, é uma questão de identidade. Que é dizer “eu sou morena e tenho olhos verdes e sou isto”. Aquilo que se faz com ser morena e de olhos verdes é que é uma questão da tua vida privada.»

A afirmação da identidade sexual é um dado adquirido para um heterossexual. Para um homossexual que vive numa sociedade opressora, é uma conquista. Conquista essa que ainda é incompreendida, na maior parte das vezes por desconhecimento. Importa, por isso, comentar as reacções que tenho lido pelas redes sociais, especialmente as que insistem em dizer que não temos nada a ver com a sexualidade dos outros e que gestos como o de Graça Fonseca, em que se fala publicamente disso, são desnecessários. Uma das demandas do movimento LGBTI é, precisamente, colocar em pé de igualdade heterossexualidade e homossexualidade a nível de direitos humanos, e isso passa pela liberdade de se falar abertamente e sem medo de quem se é. Acredito que um heterossexual nunca se tenha colocado na pele de quem vive com medo de ser perseguido, violentado ou morto, porque, simplesmente, não tem de lidar com essa realidade. Certamente nunca pensou em suicídio quando era adolescente (um estudo da Universidade de Columbia, EUA, revela que adolescentes LGBTI são cinco vezes mais propensos a tentar suicídio do que os restantes, sendo que um ambiente social hostil é o que mais os influencia) nem temeu não conseguir alugar uma casa ou arranjar emprego pelo preconceito que ainda existe face à homossexualidade. Mas não é assim tão difícil colocarmo-nos na pele de outra pessoa. Enquanto sociedade, somos responsáveis uns pelos outros. Por essa razão, interessa-nos a todos que todos possamos ser quem somos. Com liberdade e sem medo.

Enquanto sociedade, somos responsáveis uns pelos outros. Por essa razão, interessa-nos a todos que todos possamos ser quem somos. Com liberdade e sem medo.

 

Em Portugal, durante a ditadura de Salazar, gays e lésbicas eram espancados e humilhados pela polícia, internados em manicómios prisionais (onde eram sujeitos a choques eléctricos e outros tipos de “práticas de cura”) e deportados para campos de trabalhos forçados. Não há consciência disto porque vivemos num país que esquece facilmente. Nos países europeus ocupados pelos nazis, gays e lésbicas foram tão perseguidos quanto os judeus. Acredito que ninguém quer que estes cenários se repitam, mas o facto é que, neste novo século em que vivemos, ainda persistem. Hoje, ainda há 13 países no mundo que condenam à morte pessoas LGBTI. Graças à acção de diversas ONG internacionais, descobrimos que, recentemente, construíram campos de concentração para homens gays na Tchetchénia. Na Rússia, somam-se as perseguições e os assassinatos à comunidade LGBTI (em Portugal acolhemos uma escritora refugiada russa que tem vindo a denunciar publicamente esta situação). Para não falar do que ainda acontece por cá, das agressões, dos insultos, do medo. E ainda há quem acredite que é desnecessário trazer para o espaço público esta questão? Todos somos parte da sociedade e se existe mais vulnerabilidade de uns grupos face a outros isso diz respeito a todos. Porque todos beneficiarão de uma sociedade mais justa e livre. E sem medo, volto a insistir.

Na entrevista que deu ao DN, Graça Fonseca faz uma afirmação que, para mim, é fundamental: «Se as pessoas começarem a olhar para políticos, pessoas do cinema, desportistas, sabendo-os homossexuais, como é o meu caso, isso pode fazer que a próxima vez que sai uma notícia sobre pessoas serem mortas por serem homossexuais pensem em alguém por quem até têm simpatia.». O “recato” que nos querem impor é só mais uma forma de opressão. Para este mundo de Trumps, Putins e Kim Jong-uns, para este mundo de apoiantes do Daesh, do Ku Klux Klan ou do revivalismo nazi, só haverá redenção se, de entre quem sonha com um mundo melhor, houver quem tenha a verticalidade de se colocar ao lado de quem é mais vulnerável numa comunidade. É mais do que empatia por uma causa. É compaixão pela condição humana.

 

Samuel F. Pimenta, escritor. Artigo de opinião publicado também na revista Caliban