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James Lee Hard: "Todos gostam de uma história em que ao protagonista é dada uma segunda oportunidade"

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É português, mas escreve exclusivamente em inglês. James Lee Hard é o pseudónimo escolhido para publicar romances gay de um português que olha a língua inglesa como forma de chegar a mais leitores. Com um novo conto acabado de estrear, “David Undone - Mending a Broken Heart”, James vira-se para o seu país de origem como cenário para uma história sobre redenção e autodescoberta.

James Lee Hard fala com o dezanove sobre o seu percurso literário, dos temas que gosta de abordar e desvenda ainda um pouco do porquê de um pseudónimo. Tudo em português.

 

 

dezanove: Acabas de lançar um novo conto “David Undone - Mending a Broken Heart”. Fala-nos um pouco sobre a história.

James Lee Hard : David Undone conta a história de um homem, David, que não consegue lidar com a vida sozinho. David tem por hábito apoiar-se no amante/namorado/companheiro do momento para o ajudar a navegar a vida, e quando o seu mais recente companheiro o trai e abandona, David decide fugir de tudo, atravessar o Atlântico e refugiar-se em Portugal, de onde tem boas memórias de infância. É aqui que conhece Manuel, um português robusto que o encanta desde o primeiro momento, e que o ajuda, no fundo, a conhecer-se melhor. É uma pequena história sobre a importância de nos amarmos primeiro, antes de podermos amar o outro.

 

É a tua primeira história passada em Portugal e nos anos 80. Isto acontece no teu nono livro, houve alguma razão em especial?

Nenhuma outra que não uma certa nostalgia que se abateu sobre mim na altura em que estava à procura de inspiração. E como Setúbal e a Arrábida fazem parte da minha infância (além de ser uma zona belíssima), decidi usá-la como cenário para a minha história.

 

Sabemos que optaste por gerir todos os passos da edição e que te focas mais no mercado do e-book. Podes explicar aos nossos leitores a tua relação e posição face às editoras "tradicionais" e a tua escolha para os e-books?

Já conhecia a plataforma da Amazon que permite a qualquer um editar um livro. Na altura em que decidi fazê-lo finalmente, pensei que seria uma boa alternativa ao percurso tradicional das editoras, que envolve normalmente longas semanas ou meses de espera para saber se a nossa história é ou não boa o suficiente aos olhos da editora. Por outro lado, escrevo romance gay, um assunto que julguei não ser propriamente o tópico mais interessante para uma editora tradicional. Assim, gerir todos os passos da edição do meu livro pareceu-me o passo mais acertado na altura. Foquei-me também mais no e-book por ser um meio de grande crescimento e porque, na altura, não conhecia o serviço CreateSpace (também da Amazon), que nos permite editar o nosso próprio livro em papel.

 

Analisando os teus livros, nota-se uma sensibilidade para o tema "segunda oportunidade" na vida e no amor mas também para as causas sociais (especialmente na castração por vezes sentida da religião para com a homossexualidade). É algo que tentas passar propositadamente ou essas preocupações saem-te naturalmente?

Todos gostam de uma história em que ao protagonista é dada uma segunda oportunidade, não é? Pelo menos eu gosto e talvez seja por isso que a temática é recorrente nas minhas histórias. A ideia de que, por muito que possas sofrer, no final há sempre um aspecto redentor que torna tudo suportável é algo de atraente e que na vida real muitas vezes não acontece.

Todos gostam de uma história em que ao protagonista é dada uma segunda oportunidade, não é?

Quanto à questão da castração religiosa, é algo que tenho abordado propositadamente a propósito de assuntos específicos. Sempre que incomodou muito a ideia de que a “minha” religião é mais importante que a liberdade do outro. Enoja-me a hipocrisia de certas franjas cristãs que apregoam supostamente a palavra do senhor mas depois agem da forma mais execrável possível, não tendo o mínimo de compaixão para com o próximo.

Um dos meus mais recentes livros, “Breaking With His Past”, foi escrito na mesma altura da polémica nos EUA sobre o casamento homossexual e a Kim Davis que se recusava a casar pessoas do mesmo sexo. Enojou-me particularmente o espectáculo deprimente montado em redor de alguém tão vil, que usava a religião como desculpa para a própria intolerância e fanatismo. Escrever sobre isso foi a forma que encontrei de lidar com os meus sentimentos sobre o assunto. É por isso que em “Breaking With His Past” há uma personagem que tenta recolher assinaturas para impedir que o funcionário civil seja obrigado a oficiar casamentos entre homossexuais.

Enoja-me a hipocrisia de certas franjas cristãs que apregoam supostamente a palavra do senhor mas depois agem da forma mais execrável possível, não tendo o mínimo de compaixão para com o próximo.

 

Com nove livros, dirias que as tuas personagens são um espelho multifacetado de ti ou fazes por criar personagens completamente distantes da tua personalidade?

Um pouco das duas coisas. Há personagens que são completamente distintas, outras que têm um pouco de mim ou de pessoas que fui conhecendo. De qualquer modo, nenhuma das personagens que criei até hoje é um fac-símile de alguém real.

 

Pegando no lançamento de David Undone, como descreves o teu percurso literário até agora?

Longo! Ou melhor, desde muito pequeno que queria ser escritor. Lembro-me de mostrar as minhas histórias à minha mãe. Claro que, na altura, as minhas histórias envolviam aventuras, heróis e heroínas, e não cenas de romance gay. Tal era a minha mania de escrever que os meus pais até me ofereceram uma máquina de escrever no início da minha adolescência — os computadores eram muito caros na altura e saía bem mais barato uma destas maquinetas. Claro que nunca achei ter qualidade suficiente para ser um escritor a sério, e durante muitos anos escrever foi apenas um pequeno hobby no meio de tantos outros. Entretanto, a escrita tornou-se na minha profissão quando comecei a trabalhar na área da escrita, pelo que o hobby foi posto de parte. Só muito mais recentemente, há cerca de dois anos, decidi dar o salto e perceber se, afinal, conseguia escrever uma história coerente do início ao fim.

Tal era a minha mania de escrever que os meus pais até me ofereceram uma máquina de escrever no início da minha adolescência

 

Como é que se chega à escrita de romance gay ou achas que isso acontece como outro género qualquer?

Acho que é um género como outro qualquer. Pessoalmente interesso-me por outros assuntos e um dia ainda quero escrever histórias de ficção científica, thrillers e fantasia. No meu caso em concreto, o romance gay aconteceu porque havia temas que queria abordar, mas também porque me pareceu mais fácil, na altura, iniciar a minha carreira escrevendo sobre algo mais “real”.

 

Uma questão obrigatória: porquê em inglês e não em português? 

Por um lado, pelo desafio de escrever numa língua que não a minha. Sempre gostei bastante de inglês e lembro-me de ser muito pequeno, talvez cinco ou seis anos, e estar colado à TV a ver o Follow Me, um programa que julgo ser da BBC e que ensinava inglês. Por outro lado, decidi escrever em inglês porque o mercado anglo-saxónico é muito maior que o português. E como comecei agora e não sou propriamente um escritor conhecido, escrevendo em inglês tenho mais hipóteses de fazer disto o meu trabalho de dia, o meu ganha-pão.

 

Porque criaste um pseudónimo para assinares os teus livros?

Na altura, achei que um nome em inglês seria mais fácil para os leitores ingleses assimilarem. Por outro lado, não sei se quero escrever romances gay para o resto da minha vida. Como disse antes, há outros assuntos que me apaixonam. O pseudónimo ajuda a organizar as coisas. Quem lê James Lee Hard sabe que vai ler histórias de romance gay. Não tem de se preocupar em separar a ficção científica, da fantasia, do romance... 

 

Pergunta da praxe: que conselhos dás aos nossos leitores que possam estar interessados em escrever romance gay?

Leiam muito. E este conselho é também válido para outros tipos de escrita. Ler muito ajuda-nos a melhorar o nosso vocabulário e serve de inspiração. Nunca se sabe onde vamos encontrar a nossa próxima ideia, o tema que nos apetece abordar. Por outro lado, não desanimem se a vossa história não for exactamente aquilo que esperavam à primeira. A primeira escrita é muitas vezes um rascunho que precisamos de trabalhar, de limar até ser boa o suficiente. E quando acabarem, leiam novamente e deem a um amigo de confiança para ler. Um par de olhos frescos é importantíssimo para reparar em todas as gralhas e problemas de continuidade que nós, por estarmos muito próximos da história, não notamos. Por fim, e esta é talvez a mais importante, contratem um revisor. É importantíssimo que o vosso livro tenha um ar profissional, porque os leitores não perdoam. Ter uma história com gralhas é meio caminho andado para ter uma baixa pontuação na Amazon — e ninguém compra livros com uma ou duas estrelas. Ponderem também contratar alguém para vos fazer a capa — mais uma vez, é importante ter uma capa com um ar minimamente profissional.

Não desanimem se a vossa história não for exactamente aquilo que esperavam à primeira.

 

Onde podemos encontrar os teus livros à venda?

Na Amazon. Neste momento, é o único local onde estão à venda, tanto os e-books como as versões em papel. Se acederem à minha página de autor têm acesso a todos os livros que escrevi até hoje.

 

Segue o trabalho do James Lee Hard aqui:

www.jamesleehard.com 

https://www.facebook.com/jamesl.hard