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Jesus e as prostitutas

 

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Voltando à eterna questão «Cristão e gay, uma equação difícil de resolver» a que fiz brevemente alusão num post de Facebook a propósito do homossexual casado com um homem que foi impedido de ser padrinho de crisma por um padre que leva à letra a letra da doutrina cristã sobre a homossexualidade (Romanos 1:26-32; 1 Coríntios 6:10), gostaria de focar agora um aspecto curioso que, na minha qualidade de gay ex-católico, que toda a vida dialogou com entusiasmo (e dialoga ainda) com cristãos de todas as denominações, me chama a atenção há muitos anos.

 

Não falo agora de diálogos com cristãos como o padre literalista que recusou aceitar como padrinho de crisma alguém que, na opinião dele, não levava uma vida consentânea com a fé cristã. Falo, antes, dos muitos diálogos que tenho tido com cristãos progressistas, com padres católicos de espírito arejado e aberto (felizmente eles não faltam «no terreno»), com protestantes eclesiásticos e laicos.

Um tema que vem sempre à baila é, em primeiro lugar, a questão de a mensagem de Jesus ser «Deus é amor» (frase que nunca é atribuída no Novo Testamento a Jesus, mas que não é impossível que ele realmente tenha dito; cf. 1 João 4:8); outra questão é a pretensa amizade e solidariedade de Jesus com profissionais do sexo: com prostitutas.

Já ouvi muitas vezes as pessoas dizerem-me com a melhor das intenções, «se Jesus conviveu com prostitutas e as perdoou e disse que elas entravam à frente dos sumo-sacerdotes no reino de Deus, também teria a mesma atitude em relação aos gays».

Bom, não vou comentar a facilidade com que ocorre à mente de certos cristãos a equivalência «gay ~ puta», mas vou comentar a ideia fantasiosa do excelente relacionamento que as pessoas projectam na pessoa de Jesus face às prostitutas. É uma ilusão.

Se lermos todas as frases que são atribuídas a Jesus pelos evangelistas, vemos que ele pronuncia a palavra «prostituta» apenas três vezes, sendo que a terceira é em discurso indirecto, quando pela boca de Jesus ouvimos o irmão do Filho Pródigo a acusá-lo de ter torrado o dinheiro do pai com prostitutas (Lucas 15:30). De resto, Jesus só fala em prostitutas em duas frases consecutivas do Evangelho de Mateus: 21:31 e 21:32.

Em Mateus 21:31, o contexto é uma discussão de Jesus com os sumo-sacerdotes e anciãos sobre o homem que tinha dois filhos. A um deu uma ordem a que o filho obedeceu primeiramente, mas depois desistiu dela; ao outro, deu uma ordem a que o filho desobedeceu, mas à qual ele depois decidiu obedecer. Jesus pergunta aos sumo-sacerdotes: qual dos dois filhos fez a vontade do pai, o primeiro ou o segundo? A resposta deles é: «o primeiro». É face a esta resposta, que valoriza o comportamento de alguém que deu a aparência de obedecer ao pai mas cuja obediência não passou de fachada hipócrita, que Jesus exclama: «Amém vos digo que os cobradores de impostos e as prostitutas entram antes de vós no reino de Deus».

A frase parece maravilhosa, porque dá a entender que as prostitutas entrarão no reino de Deus. Mas não é essa a única interpretação possível da frase. O que Jesus está a dizer também se presta a ser interpretado como uma condição impossível, análoga à frase «no dia de São Nunca à tarde». O que ele parece estar a dizer aos sumo-sacerdotes é que, para eles entrarem no reino de Deus, teriam primeiro de entrar os cobradores de impostos (!!) e as prostitutas (!!!).

No versículo seguinte (Mateus 21:32), Jesus critica os mesmos sumo-sacerdotes por não terem acreditado em João Baptista, quando (diz Ele) até os cobradores de impostos e as prostitutas acreditaram. Mais uma vez, o uso do termo «prostitutas» parece funcionar mais para fustigar e humilhar os sumo-sacerdotes do que para dar uma imagem reabilitável das prostitutas. «Vocês são piores do que prostitutas!» é uma interpretação válida das duas únicas frases em que Jesus fala em profissionais do sexo. Porque, na realidade, Ele está é a falar dos sumo-sacerdotes.

Agora: onde é que se foi buscar a ideia de que Jesus convivia com prostitutas e as aceitava ao ponto de, por indução «lógica», se extrapolar para a probabilidade de ele poder ter tido a mesma atitude em relação aos gays (e volto a não comentar a equação, que salta à vista de tantos cristãos, «gay ~ puta»)?

Muitas pessoas parecem pensar que Maria Madalena era uma prostituta que Jesus acolheu como discípula; mas isso nunca é dito em nenhuma frase do Novo Testamento. Também a «mulher pecadora» («gunê hamartôlós») de Lucas 7:36-50, que lava os pés de Jesus e os seca com os seus cabelos, é muitas vezes vista como prostituta; mas isso, mais uma vez, não está no texto. O que Jesus diz de concreto sobre a vida passada desta mulher é que ela «amou muito» («êgápêsen polú»). Não me parece que isso seja um eufemismo para «prostituiu-se muito» (até porque, em linguagem bíblica, quando é isso que está a ser dito, é dito com todas as letras: basta ler as versões gregas de Oseias e de Ezequiel).

Talvez a mulher que seca os pés de Jesus com os seus cabelos tenha sido uma mulher que AMOU mais do que um homem – como a Samaritana, ou a Mulher Adúltera, do Evangelho de João. De nenhuma delas se diz no Novo Testamento que eram prostitutas. «Amaram muito». Talvez demais. Mas isso é outra coisa. Não é prostituição.

Na verdade, das quatro vezes que Jesus pronuncia a palavra «prostituição» (Mateus 5:32; 15:19; 19:9; Marcos 7:21), a conotação é fortemente negativa. Em dois casos constitui motivo de divórcio: é a única justificação para o divórcio, aliás, coisa em relação à qual Jesus é tão taxativamente reprovador nos Evangelhos de Mateus, Marcos e Lucas (mas não no de João, evangelho em que o tema do divórcio está ausente).

Em jeito de conclusão: a tod@s @s amig@s homossexuais, aconselho que, da próxima vez que vos disserem que Jesus vos aceita porque «aceitava as prostitutas», por favor recomendem aos vossos interlocutores que leiam o Novo Testamento.

 

Artigo de Frederico Lourenço, escritor, tradutor e professor universitário. Texto publicado originalmente no Facebook