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Lembrar Leelah Alcorn (1997-2014)

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Leelah Alcorn, de 17 anos, suicidou-se ao atirar-se para a frente de um camião na madrugada do passado dia 28 de Dezembro. Leelah nasceu com o nome de Joshua Ryan Alcorn, mas identificava-se como uma rapariga. O caso continua a ser mediatizado.

Leelah deixou dois bilhetes de despedida culpando os pais por a não aceitarem, por a censurarem e pela sua depressão. Nas suas últimas palavras suplicava pela “correção da sociedade e não das pessoas transgéneras". "Fix society, not trans people" é, de resto, uma das frases de Leelah presente em muitas homenagens póstumas.

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“Quando eu tinha 14 anos, aprendi o que significava ser transgénero e chorei de felicidade. Após 10 anos de confusão finalmente percebi o que era” … “ A única maneira de descansar em paz é saber que um dia as pessoas transgéneras não serão tratadas como eu fui, mas sim como seres humanos, com sentimentos válidos e direitos humanos. As identidades de género têm de ser ensinadas nas escolas, quanto mais cedo melhor. A minha morte tem de ter algum significado. A minha morte tem de ser contada nos números de pessoas transgéneras que cometem suicídio este ano (2014). Quero que olhem para esse numero e digam ‘isto está f***do’ e consertem a sociedade. Por Favor” – escreveu na sua nota de despedida, programada também para ser publicada automaticamente no seu blogue após a sua morte. O post foi entretanto removido do site a pedido dos pais. Leelah dizia que se sentia como “uma rapariga presa num corpo de rapaz” desde os quatro anos de idade.

No Facebook, Carla Alcorn, mãe de Leelah escreveu: "O meu filho Joshua Ryan Alcorn foi para o céu esta manhã. Estava a dar um passeio e foi atropelado por um camião. Obrigada pelas mensagens e pela preocupação".

Encorajada pela igreja de Kings Mill Baptist Church, os pais levaram a jovem transgénera a um terapeuta cristão para uma terapia de conversão – não pela aparente depressão, mas para pôr fim à “confusão” de género.

Os pais foram severamente criticados nas redes sociais por terem rejeitado a condição transgénera de Leelah. A “negligência” dos pais tem sido apontada online como um dos principais factores do suicídio, assim como as comunidades cristãs que promovem campos de reeducação e terapias para estes jovens numa tentativa de expurgar toda a dúvida, onde já existe uma certeza, acentuando assim o difícil equilíbrio mental em que estas crianças se encontram nesta determinante e reveladora etapa das suas vidas.

No final de 2014 e início de 2015 a história de Leelah ecoou nas redes sociais e em muitas comunidades LGBT. O hashtag #RestinPower e # LeelahAlcorn continuam a estão a ser usados para apoiar Leelah. As homenagens a Leehlah sucedem-se em cerimónias com famosos e actos públicos.

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No famoso talk-show americano “The Talk” Sara Gilbert, que é actriz, lésbica e defensora da causa LGBT e co-apresentadora do programa, afirmou: “Só tenho a dizer às pessoas que têm crenças diferentes… pensem se não seria mais importante deixar para lá a ideia que têm um filho, do que vir a perdê-lo.”

Um estudo feito em 2010 pelo Centro Nacional pela Igualdade Transgénera (National Center for Transgender Equality - EUA) reportou que 41% das pessoas transgéneras ou não conformadas com o seu género têm uma tendência para o suicídio aproximadamente nove vezes superior do que a média nacional dos Estados Unidos. Nos mesmos dados pode ler-se que mais de 50% dos jovens transgéneros farão pelo menos uma tentativa de suicídio até ao seu vigésimo aniversário. 

A actriz Laverne Cox, uma das pessoas transgéneras com mais visibilidade mundial, convidada no programa da ABC “The View” falou sobre a morte de Leelah e da nota no Tumblr em que a jovem falava dos anos de bullying e assédio, da rejeição por parte dos pais e de ser sujeita a aconselhamento e terapia de conversão.
Cox recontou as suas dificuldades em crescer incluindo uma tentativa de suicídio aos 11 anos. “Foi melhor para mim quando aprendi a procurar e a obter apoio, quando fiz efetivamente o trabalho de me amar a mim mesmo, e para isso é preciso bastante empenho que não se pode fazer sozinho” …”Eu não quero tornar os pais de Leelah os fracos e os maus da fita nesta história, pois devem estar a passar pela pior coisa que qualquer progenitor pode suportar, mas penso que ao isolarem a Leelah e a não a apoiarem fez com que ela sentisse que não conseguiria pedir auxílio. Penso que foi a pior coisa que se pode fazer”, disse a actriz considerada recentemente pelo The Guardian a personalidade LGBT mais poderosa do mundo.  

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Centenas de pessoas reuniram-se em apoio a pessoas transgéneras após a morte de Leelah 

Apoiantes marcharam em Washington D.C. no passado dia 10 para honrar Leelah e pedir para que se dê atenção às questões sobre pessoas transgéneras, que se reconheçam os seus direitos, que se tome uma posição contra a transfobia e a terapia de conversão de jovens LGBT e aumente a consciência para as questões de saúde e políticas que afectam estas pessoas.

“A opressão manifesta-se em todos os aspectos das nossas vidas, mas a opressão estrutural leva-te a que acredites que tens de ser corrigido”. “Estou aqui para dizer a todos os transgéneros que não precisamos de ser corrigidos ou 'arranjados', não há nada de errado connosco. O que está errado é a depravada existência da sociedade, a ignorância deliberada, a união cobarde que recusa a pessoas transgéneras a humanidade e o direito à vida”, declarou Lourdes Ashley Hunter, directora nacional para Mulheres Transgéneras de Cor.

Desde a morte de Leelah mais de 300 mil pessoas assinaram uma petição para pôr fim às terapias reparadoras a pessoas transgéneras. Na internet multiplicam-se as páginas e eventos em memória de Leelah Alcorn. Mas na lei, unicamente dois estados dos EUA (Califórnia e Nova Jersey) e o distrito de Columbia (Washington D.C.) promulgaram leis que proíbem esta prática junto dos jovens trans.

 

Em Portugal: O que podes fazer se precisares de ajuda?

Há vários projectos de apoio, toma nota:

AMPLOS - Associação de Mães e Pais pela Liberdade de Orientação Sexual e identidade de Género

Casa Qui - Associação de solidariedade social pela inclusão e bem-estar da população LGBT

Happier Teens - apoio à população jovem vítima de violência doméstica homofóbica, bifóbica e/ou transfóbica, em situação de expulsão de casa - exclusão familiar,

ILGA Portugal - Intervenção Lésbica, Gay, Bissexual e Transgénero

Linha LGBT - Linha Telefónica de Apoio e Informação LGBT

rede ex aequo -  Associação de jovens LGBTI e apoiantes: geral@rea.pt

SOS Voz Amiga - um serviço de ajuda pontual em situações agudas de sofrimento causadas pela Solidão, Ansiedade, Depressão e Risco de Suicídio: 21 354 45 45, 91 280 26 69, 96 352 46 60.

 

Pedro Arrayano