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Manuel Teixeira Gomes, a história do Presidente da República que cultivava o hedonismo e a sensualidade sem constrangimentos

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A estreia recente do filme “Zeus”, de Paulo Filipe Monteiro, veio dar a conhecer, a um público mais vasto, algumas imagens e interpretações de um dos mais breves chefes de estado portugueses: Manuel Teixeira Gomes (1860-1941).

Nascido em Portimão, era filho de um produtor de frutos secos, proprietário abastado e viajado. Teve duas filhas de uma modesta filha de pescadores, Belmira das Neves, com quem casa contra a vontade da família. Algumas dúvidas sobre a sua orientação e afectos poderão vir do facto de o casamento nunca se ter traduzido numa vida comum, tendo Teixeira Gomes viajado e residido sozinho durante quase toda a sua vida adulta. Os negócios da família obrigam-no desde cedo a viagens longas, sobretudo em torno do mediterrâneo e médio oriente. Nascem talvez assim hábitos que marcam a sua vida: o cosmopolitismo e o gosto pelo exótico.

Sendo algarvio, as influências árabes na cultura e hábitos dos povos mediterrânicos são um tema que lhe será sempre caro. Criado primeiro num colégio, na idade adulta inicia o curso de Medicina, primeiro em Lisboa e depois Coimbra, que abandona antes de concluir. Faz contactos e amizades, entre a vida boémia e estudantil, com José Relvas, João de Deus, Fialho de Almeida, Sampaio Bruno ou Soares dos Reis. O interesse pela literatura é notório desde cedo, publicando contos e colaborando com os jornais O Primeiro de Janeiro e Folha Nova. Regressando a Portimão pela idade avançada de seu pai, o tempo livre permite-lhe continuar a escrever.

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Publica, entre 1904 e 1908, “Cartas sem Moral Nenhuma”, “Agosto Azul”, “Sabrina Freire”, “Desenhos e Anedotas de João de Deus” e “Gente Singular”. A sua escrita transpõe uma visão do mundo em torno do hedonismo e despreocupação com convenções morais. Os seus ideais republicanos e progressistas manifestam-se desde os anos estudantis, substituindo sendo o primeiro embaixador em Londres da recém-criada República. Sendo um cargo sensível, pelas relações próximas entre a família real inglesa e D. Manuel II, exilado em Inglaterra, o talento, sofisticação e cultura de Manuel Teixeira Gomes foram um contributo para a afirmação do novo regime. Remodela a embaixada a seus custos, com mobília pessoal e criadagem paga por si. Torna-se um convidado regular na corte, desenvolvendo inclusive laços de proximidade com a rainha-mãe Alexandra (que o convida a dar sugestões para redecorar os seus apartamentos). Em 1923 é eleito pelo congresso para a Presidência da República.

O seu capital diplomático, cultural ou ético não evitam contudo o descrédito do regime. Em 1925, pressentindo a ditadura militar que se conspira decide alegar motivos de saúde para se demitir (dado não existir enquadramento constitucional para a renúncia de um presidente em funções) e deixar o país, sem destino, no primeiro navio que saia de Lisboa. O cargueiro Zeus leva-o para Argel, não tornando a Portugal em vida.

É, em toda a História de Portugal, o único chefe de Estado que renuncia voluntariamente às suas funções. Primeiro em Argel e mais tarde em Bougie, que considera uma Sintra argelina, vai retomar a sua actividade literária. Contam-se no seu retiro argelino “Cartas a Columbano”, “Novelas Eróticas”, “Miscelânea” e, por último, “Mana Adelaide” e “Carnaval Literário”, que espelham a sua ânsia de justiça e noutra vertente, o seu gosto pela sensualidade e o reconhecimento do direito à vida plena de cada ser humano. A sua vida errante, o seu gosto sofisticado e cosmopolita e o seu apreço pela liberdade individual, que não admite ver criticada ou cerceada pelos seus opositores, fazem de Teixeira Gomes uma personagem diferente no seu tempo. A sua vida celibatária, o culto do hedonismo e da sensualidade sem constrangimentos levantaram dúvidas sobre a sua orientação sexual, que foram também exploradas por opositores políticos. Não existindo provas além de insinuações, a sua escrita, ideias e sentido crítico deixam na sombra classificações concretas. Apenas se sabe que viveu como escreveu: livre, descomprometido e fiel apenas à sua crença na beleza, na tolerância e na liberdade individual.

 

Manuel Rodrigues

 

 

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