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Nunca irei atirar uma pedra à Igreja que me formou. Mas não me submeterei acriticamente à sua autoridade

 

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Fui criado e formado numa família católica tradicional. A minha fé foi por isso herdada à partida, mas foi sendo sucessivamente confirmada por mim à medida do meu crescimento e do aprofundamento e da descoberta da mensagem de Jesus e da sua promessa de salvação. Fui, pois, crescendo espiritualmente desde o Baptismo que os meus pais e os meus padrinhos me legaram e recebi depois com alegria os sacramentos da Comunhão e da Confirmação enquanto fui crescendo.

 

Mas à medida que me fui tornando adulto também fui fazendo um caminho de descoberta e de auto-conhecimento pessoal.

E aquela fé que me podia amparar e ser fonte de força e confiança tornava-se afinal um castigo, uma prisão, um fardo. Fui sempre sendo leal e fiel à Igreja, dediquei-lhe boa parte dos meus anos mais inocentes e felizes de juventude. Defendi-a sempre com denodo e sustentei todos os seus mandamentos. Mas a Igreja retribuiu-me com um sentido punitivo de culpa, de castigo, de rebaixamento.

Obviamente não irei aqui testemunhar as indizíveis admoestações recebidas em confissão, nem aqui irei denunciar experiências directas e indirectas que tanto me chocaram sobre a hipocrisia que vi e de que tomei conhecimento: assédio sexual, vidas duplas, corrupção de almas e utilização criminosa de inocentes.

Naturalmente que teria um dia de tomar uma opção: ser fiel a mim mesmo e procurar ser feliz em obediência aos ensinamentos de Jesus ou submeter-me conformado, envergonhado, e sobretudo discreto, à imposição da Igreja, a nossa Mater et Magistra.

Ora eu recuso-me a ser tratado como uma espécie de enteado de uma madrasta cruel ou sequer ser uma espécie de coitadinho e imperfeito apenas digno de uma vaga misericórdia.

Não quer dizer que eu não seja um pecador, um homem imperfeito ou que tenha sequer a presunção ou a soberba de me considerar isento do pecado: eu sou de facto um pobre pecador. Mas sou isso mesmo: apenas mais um. Mas eu também sou igualmente um filho de Deus e sou tão digno do amor d’Ele como os fariseus que apenas me toleram ou que me apontam o dedo.

Por isso acabei por fazer o que milhões de fiéis católicos fizeram por esse mundo fora: leais à nossa Mãe apesar de ela nos renegar. Fiéis na fé mas empurrados para fora da comunhão.

Isto dói? Claro, mas admito que já doeu muito mais. Tenho 47 anos e já não tenho 21 ou 22 quando sofria brutalmente a contradição entre ser fiel ao que sou e ser fiel ao que diziam que eu deveria ser.

Mas há uma dose intolerável de crueldade que não deveria ser tolerável numa casa assente no amor evangélico. Ainda me dói não comungar porque me não confesso. Ainda me dói não me confessar porque simplesmente não tenho porque me arrepender de um pecado que Jesus nunca condenou ou mencionou.

 

Ainda me dói não comungar porque me não confesso. Ainda me dói não me confessar porque simplesmente não tenho porque me arrepender de um pecado que Jesus nunca condenou ou mencionou.

 

E depois há alguns momentos-limite na vida que são simplesmente desumanos para um cristão a precisar de amor e consolo naquelas horas. Quando o Luís morreu no ano passado uma das preocupações a que eu não fui poupado foi ter de encontrar um sacerdote amigo que lhe aceitasse celebrar a Extrema Unção e que celebrasse o seu funeral aceitando o meu papel e reconhecendo a minha dignidade, o amor da sua família, e a vida que nós tínhamos juntos, sem corrermos o risco de sermos moralmente desconsiderados. Por isso a minha maior gratidão, entre tantas que guardo daqueles dias tristes, é para com os meus irmãos de fé que me ajudaram a suportar aquele momento, que rezaram comigo, e que tudo fizeram para nos poupar a um sofrimento adicional intolerável.

Conheço amigos católicos homossexuais e lésbicas, alguns são sacerdotes e freiras, outros servem em coros, confrarias, movimentos, outros são leigos empenhados nas suas Paróquias e comunidades.

Não os critico por prosseguirem. De certa forma até os admiro por conseguirem viver um equilíbrio entre duas situações irreconciliáveis à luz do Catecismo Oficial e das posições oficiais da Igreja.

Mas eu não consigo.

Nunca irei atirar uma pedra à Igreja que me formou. Mas não me submeterei acriticamente à sua autoridade.

Estou, com natural desgosto, há mais de vinte anos fora da comunhão. Mas também estou em Paz.

 

Estou, com natural desgosto, há mais de vinte anos fora da comunhão. Mas também estou em Paz.

 

 

Nunca li nos Evangelhos uma palavra de Jesus sobre homossexualidade ou sobre a vida sexual das pessoas.

E isso conforta-me.

E por isso também eu ignoro completamente as palavras do senhor Cardeal-Patriarca de Lisboa.

Um dia finalmente ele terá o que resta dos seus seminários: vazios. Ou então serão cheios de dissimulados.

Boa sorte e que Deus lhe perdoe.

 

Carlos Reis, jurista

 

 

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