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Paulo Monteiro: “Enterramos as vítimas, mas não enterremos Orlando”

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Quando há uma semana nos deparámos com as primeiras e cruéis notícias de Orlando estávamos longe de imaginar a semana que se seguiria. Estivemos ao longo de dias agarrados às fontes de informação na esperança de saber algo mais. O que será que aprendemos? Que respostas vamos passar a dar?

 

Muitas vezes parece que é preciso uma tragédia acontecer para alterar o rumo da História. O que aconteceu em Orlando chocou uma grande parte das pessoas. Mas nem todos ficaram chocados. Estranhamente a indiferença perante as vítimas de Orlando, nos Estados Unidos  - um país cuja cultura nos influencia diariamente - faz lembrar episódios de ataques terroristas ocorridos em zonas remotas do planeta: Líbia, Nigéria, Quénia, Síria ou Somália e com pouca relação com a cultura portuguesa. Lamentável e aparentemente.

O caso de Orlando acontece num momento em que nos deparamos quase diariamente com o terror. As notícias são catapultadas de rápidas notas de rodapé para peças e primeiras capas consoante o número de mortos e proximidade cultural. Então como explicar a falta de visibilidade em Portugal do que aconteceu em Orlando?

Para além de uma incredulidade e falta de reacção imediatas não há explicação para a “lógica” de desconsiderar estas vítimas. Podemos apontar o fenómeno do Euro 2016, mas, na verdade e afinal de contas, o que temos mesmo de lidar o ano todo é com uma sociedade dita de brandos costumes, mas que afinal tem em si abundantes costumes homofóbicos. E é essa parte da sociedade que nos secundariza, nos censura com o olhar, nos critica baixinho, faz de nós piadas e nos ataca cobardemente atrás de um ecrã em caixas de comentários online, que estão a meio caminho entre as trevas e as cavernas.

É esta sociedade tão carecida de educação que não interpreta que o Primeiro-Ministro do seu país condena um ataque com motivação homofóbica, que os seus apresentadores de TV, políticos, familiares, amigos e conhecidos voltaram à carga porque vivem esta luta há vários anos. Esta luta pode parecer agora menor por se terem equilibrado os direitos civis, ou apenas esquecida e ser lembrada uma vez por ano por altura das marchas do Orgulho. Mas se pensam assim estão errados. Enquanto não percebermos que os tiros de Omar Matten nos matam a todos não podemos baixar os braços ao ódio, à indiferença e à ausência destas notícias.

Neste momento, é impossível não fazer uma comparação com Stonewall. Mas se quiseram, em erro, dar atenuantes a quem vos rodeia sobre o que aconteceu com Stonewall porque “foi há muito tempo” e “estão fora do contexto” então está concedido e cedido. Pese embora num  silêncio que asfixia.

Contudo, com Orlando ninguém tem desculpa. Vivemos na era da informação. Felizardos porque neste canto à beira-mar plantado somos bombardeados, apenas, com catadupas de informação nos nossos telemóveis. Mas também de LGBTIfobia. E é essa, o desconhecimento e a inércia que não podemos deixar passar. As 49 vítimas mortais e tantas outras feridas não o merecem. Não ignoremos, mais uma vez, um ataque de ódio, que de resto não é caso único focado contra as pessoas LGBTI, como bem relembrou o site New Now Next esta semana, e várias outras notícias sobre ataques de ódio LGBTIfóbico em todo o planeta:

1973: The Upstairs Lounge, Nova Orleães (EUA).  32 mortes devido a um incêndio. Fraca atenção da imprensa, ausência de comunicado por parte das autoridades oficiais, algumas pessoas viram o seu funeral impedido ou alvo de chacota: “enterrem-nos num frasco” ouviu-se num talk show.

1997: Other Side Lounge, Atlanta (EUA). Uma bomba explodiu numa discoteca frequentada por lésbicas onde estavam mais de 150 pessoas. Morreram 5 pessoas. Nas palavras do assassino a homossexualidade era um “comportamento aberrante e os homossexuais não deviam infectar o resto da sociedade com a sua doença”

1999: The Admiral Duncan Pub, Soho, Londres. Na rua londrina onde há uma semana se homenagearam as vítimas de Orlando, uma bomba colocada por um neonazi explodiu neste bar gay matando duas pessoas e ferindo mais de 80.

2012: 7FreeDays, Moscovo. Dezenas de hooligans de extrema-direita atacaram um bar onde se estava a realizar uma festa para comemorar o Dia Internacional do Coming Out. Quatro pessoas foram hospitalizadas.  

Um ano depois a Central Station, a maior discoteca gay de Moscovo, foi alvo de um ataque com gás tóxico quando estavam 500 pessoas no seu interior. O ataque foi levado a cabo por um grupo de 100 homens e várias pessoas tiveram de receber cuidados médicos. A discoteca foi forçada a mudar de localização.

2014: Pomada, Kiev, Ucrânia. 20 jovens de ideologia neonazi decidiram lançar bombas de fumo e petardos para o interior. A segurança no local evitou uma catástrofe de piores dimensões

Recentemente os relatos vindos de zonas do globo tomadas pelo auto-proclamado Estado Islâmico deram a conhecer novas barbaridades contra pessoas identificadas como homossexuais e que são atiradas do topo de prédios. Por ser algo novo teve algum impacto mediático, a ONU accionou um alerta, uma estratégia. Pouco mais se sabe.

E no Brasil? Onde por dia é assassinada uma pessoa LGBT? Nesta mesma semana fatídica de Orlando dois professores homossexuais assumidos apareceram mortos dentro de um carro carbonizado na Bahia.

E esta não é, nem poderia ser uma lista exaustiva, mas serve apenas elencar alguns exemplos de ataques colectivos ou individuais. Porque aqui o ódio não é selectivo.

Em suma, verifica-se que os crimes de ódio com motivação homofóbica acontecem diariamente. Muitos deles nem chegam a aparecer na imprensa especializada, quanto mais na generalista. Entre as várias razões, por um lado, encontra-se a vergonha e o medo de denunciar, e por outro, a falta de atenção dos media mainstream para um tema considerado menor.

Constata-se que o ódio tem várias faces. Muitas para além das que numa primeira instância nos podemos lembrar. O da madrugada de Domingo passado persegue um grupo de pessoas específico e tem um nome: O ódio homofóbico, o ódio contra as pessoas LGBTI.

Este tipo de ataques comprova, mais uma vez, que uma das causas de tamanho alheamento e desumanidade é que, para quem manda nos media, e influencia a nossa forma de pensar e agir, as pessoas africanas valem menos do que as pessoas ocidentais, que os muçulmanos valem menos que os homossexuais e por aí fora num comboio de estereótipos. Isto sem que este mesmo quem nunca perceba que há um denominador comum a todos e que está a ficar perigosamente escondido: todas são vidas. Com efeito, este tipo de comportamento enviesado está a afectar de sobremaneira o acesso à realidade.

E quando chega a hora do protesto, o ódio também acontece quando se envereda por radicalismos de ataque, bloqueios e boicotes. Não consta que em sociedade alguém tenha evoluído na sua opinião a reboque destes métodos. Enquanto não se encetar uma conversa pela aprendizagem - acreditando, de raiz, que quem tiver opiniões contrárias tem espaço para melhorar - não é vãmente iniciando com novo ataque que o outro lado se vai pôr, por segundos que seja, no lugar das nossas dificuldades, dos nossos preconceitos e no lugar de um alvo de ódio.

 

Uma semana de trabalho depois a minha reflexão fica feita. Enterramos as vítimas, mas não enterremos Orlando. Porque há uma semana, por esta hora, chegavam relatos que as equipas de salvamento se depararam no local do massacre - para além de um cenário que (quase) todos adivinhamos - com o som ensurdecedor de dezenas de telemóveis das vítimas que não paravam de tocar. Eram os familiares e amigos em desespero à procura de falar com quem mais amavam. Se hoje o número de mortes, a origem e os preconceitos toldam a visão, bastava talvez a quem hoje vive agarrado ao telemóvel, e até está a ler este artigo, imaginar-se no lugar destes familiares e amigos desesperados. Será que este exercício funcionaria?

Terão os órgãos de comunicação social a noção do seu papel quando informaram a sociedade deste e de outros massacres?

Terá a maioria da sociedade portuguesa noção do que significou Orlando? 

Se as vossas respostas forem não, é sinal que temos bastante a fazer. E o melhor é começar já.

 

Paulo Monteiro, Director do dezanove.pt