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Nem na mata se encontram histórias assim

"Peter de Rome era um grande contador de histórias eróticas"

O Queer Lisboa apresentou o documentário "Peter de Rome: Grandfather of Gay Porn", de Ethan Reid e produzido por David McGillivray. O filme recorda o pioneiro do cinema queer, que costuma ser descrito como o "grandfather of gay porn", já que dedicou o seu tempo na década de 60 e início da década de 70 a fazer curtas-metragens eróticas, numa altura em que a pornografia gay era considerada ilegal. Peter de Rome morreu poucos dias depois da estreia deste filme que recorda a sua vida e obra. Segue-se a entrevista conduzida por Nuno Galopim ao produtor David McGillivray, aquando da sua passagem pelo Queer Lisboa.

Os filmes de Peter de Rome estão hoje classificados como parte do National Film Archive britânico, assim como tiveram edição em DVD através do British Film Institute. Estes factos foram fundamentais para a conquista de um reconhecimento "oficial" da obra de Peter de Rome?

Ao serem editados em DVD foi mesmo a primeira vez que muitas pessoas, no Reino Unido, puderam ver os filmes do Peter. Foi emocionante para mim. Tal como o foi para o próprio Peter. E foi bom que isto tivesse acontecido ainda com ele vivo. Ele estava virtualmente esquecido na América e era desconhecido no resto do mundo. Foi por tudo isto que aconteceu que hoje estamos aqui, em Lisboa.

 

Este filme surgiu na sequência desse reconhecimento do trabalho de Peter de Rome pelo NFA e o BFI... Como surgiu a ideia para o criar?

Eu tinha já feito um outro filme, uma featurette, com quarenta e tal minutos, sobre os seus filmes inacabados. O trabalho que vêem neste filme é um pouco a ponta do icebergue. Muito do seu trabalho estava na verdade inacabado. Depois desse filme que fiz, e que foi lançado com o DVD, havia muito material que tinha ficado de fora. E a própria vida do Peter era extraordinária, pelo que quis fazer um filme muito maior, para poder dizer mais às pessoas sobre Peter, o homem, e também a sua vida. Não acho que ele seja apenas parte da história da pornografia ou da história da cultura gay. Acredito que o Peter faz parte da História.

 

Como reagiram as pessoas quando os filmes tiveram a sua primeira exibição em Londres, no BFI?

Ele ficou muito comovido. E sobretudo pelo facto de pessoas mais jovens estarem a ver os seus filmes. E desde a estreia deste filme as plateias têm sido bem diversificadas, com 50% de homens e 50% de mulheres. O que foi mesmo uma grande surpresa para todos nós, que de facto não o esperávamos. Tivemos queixas, em Sheffield, de que não havia mulheres no filme... Mas foi um acaso do casting. Porque há muitas admiradoras dele e algumas surgiram no outro filme que tinha antes sido feito.

 

Como descobriu pessoalmente o cinema de Peter de Rome?

Eu estava nas projecções originais, em 2007 no National Film Theatre, em Londres. Eu tinha lido sobre o cinema dele na revista Films and Filming, e tal como tantas outras pessoas eu queria finalmente poder ver os seus filmes. E foram uma revelação para mim. Gostei particularmente do Underground, talvez o seu filme mais famoso. E quis entrevista-lo depois da sessão. Assim aconteceu e desde então mantivemo-nos em contacto durante estes últimos sete anos. E sinto muito a sua falta.

 

Fazia uma ideia do que ia ver quando foi a essas sessões em Londres?

Não estavam disponíveis em lado nenhum na Europa, por isso foram uma revelação. Não sabia mesmo o que esperar. Bom, o Peter não é o melhor realizador do mundo, mas era um grande contador de histórias eróticas. E não há muitos assim.

 

Acredita que ele tenha tido influência em cineastas como Wakefield Pool e outros que se lhe seguiram?

É impossível dizer quantas pessoas ele terá influenciado. Mas o que podemos saber é sobre aqueles que admitiram ter sido influenciados. E Wakefield Poole obviamente é um deles. Como resultado do sucesso do seu filme "Boys in the Sand" as coisas seguiram rumo àquilo que hoje conhecemos. Acredito que o Peter de Rome seja em parte responsável pelo tipo de pornografia gay que hoje podemos ver em casa com o premir de um botão.

 

É impressionante o conjunto de nomes que contactaram com o seu cinema. Figuras como William Burroughs, Andy Warhol ou Derek Jarman são mesmo referidas no filme.

O Peter conhecia toda a gente! Ele estava sempre na hora certa no local certo. E continuava a surpreender-nos mesmo até ao fim dos seus dias. Estava sempre a comentar que tinha conhecido esta ou aquela pessoa. A última vez que o vi foi uma semana antes da projecção em Sheffield [onde decorreu a estreia deste filme] para filmarmos um pedido de desculpas dele a explicar que não poderia estar presente, acrescentando que o espectáculo tinha de continuar... Em Sheffield havia então uma retrospectiva sobre o trabalho de Agnés Varda e ele comentou que lhe tinha mostrado os seus filmes em Paris. Não fazíamos ideia, mas ele fazia isso todas as semanas. Não havia ninguém que ele não conhecesse.

 

Ele teve a dada altura da sua vida um envolvimento próximo com a indústria do cinema norte-americano. Essa relação foi importante para a sua formação enquanto cineasta?

Sim, creio que o tipo de filmes que o Peter fazia eram muito influenciados pelo tipo de cinema de que ele gostava. Ele gostava de filmes clássicos de Hollywood. E creio que podemos ver isso no seu trabalho.

 

Se apenas uma ponta do icebergue está editada em DVD o que podemos esperar do que falta dar a conhecer? Chegarão ao público esses outros filmes?

Não faço ideia porque não sabemos onde irão parar os restantes filmes. É difícil saber porque os seus executores estão em Nova Iorque, onde está esse conjunto de filmes. Tenho estado em contacto, tentando persuadi-los que tudo o que ele fez é extremamente importante e espero que tudo possa vir a ser guardado.

 

Entrevista conduzida por Nuno Galopim e publicada originalmente no site do Queer Lisboa

 

Vê aqui as fotos da sessão de abertura do Queer Lisboa 2014