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Nem na mata se encontram histórias assim

Por que devemos conhecer o escritor brasileiro Rafael Farias Teixeira

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Aos 28 anos Rafael Farias Teixeira é um estimulante escritor da nova geração no Brasil. Já publicou os romances “Entre Irmãos” e “Sopros”. Recentemente aventurou-se num novo formato a websérie literária, uma espécie de folhetim dos tempos modernos, e durante várias semanas relatou as aventuras e desventuras de “Vinícius no Mundo dos Toalhas Brancas”. Rafael consegue mergulhar na essência do ser humano e é difícil ficar indiferente à qualidade do seu trabalho. Aqui fica o convite para a entrada neste universo de relações complexas e profundas onde é possível rir, chorar e também ficar excitado. Antes vamos conhecer um pouco melhor o autor.

 

dezanove: Quando li a websérie literária “Vinícius no Mundo dos Toalhas Brancas” notei que o Rafael tem facilidade em escrever sobre afectos, comportamento e relações humanas. Essa questão de alguma forma influenciou a sua escolha profissional? Um jornalista é alguém que está sempre atento ao mundo à sua volta. 

Rafael Farias Teixeira: Sempre fui muito observador e questionador, o que me ajudou a analisar o ser humano, a entender emoções e atitudes. O trabalho de um escritor e jornalista acaba sendo sempre isso: estudar o ser humano e contar suas histórias.

 

Em que altura da sua vida descobriu a paixão pela escrita?

Desde muito pequeno eu sempre fui motivado pela minha mãe a ler e a escrever sobre tudo. Devo ter escrito meu primeiro poema quando consegui finalmente formar frases coesas e obviamente esses primeiros trabalhos não eram sinal de que eu por acaso seguiria esse caminho. A decisão de virar escritor chegou na adolescência, quando eu senti uma necessidade inescapável de contar as histórias que surgiam à minha volta e dentro de mim. É uma sensação inexplicável poder escrever e se espalhar um pouco em cada palavra.

 

Já publicou dois romances no Brasil “Entre Irmãos” e “Sopros”. O primeiro também aborda a temática gay. Como foi a recepção a esses trabalhos? 

“Entre Irmãos” teve uma receptividade mais ampla e acolhedora do que Sopro, pois tive mais tempo para me dedicar à sua divulgação. A editora que os lançou é bastante pequena e senti que faltou um pouco de distribuição e marketing para que os dois chegassem aos seus verdadeiros potenciais. Mas com certeza foram os dois que me colocaram no mapa e que me motivaram a procurar uma nova casa editorial para "adoptar" os meus trabalhos.

 

Gostaria de publicar o seu trabalho em Portugal? Neste momento só temos acesso à websérie literária “Vinícius no Mundo dos Toalhas Brancas” que disponibilizou gratuitamente na internet.

Você conhece alguma editora que toparia? Porque eu ficaria mais que feliz em poder publicar meu trabalho para o público português, que por sinal tem me surpreendido com a recepção do Vinícius. Se você é um editor de Portugal e quer me publicar? Pode falar comigo.

 

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Dois dos seus trabalhos estão ligados ao universo gay. Não gosta de rotular o seu trabalho como autor LGBT porque outros autores que escrevem sobre o universo heterossexual não são rotulados. Afirmou que “há muitas outras discussões e há um valor nessa obra que ultrapassa rótulos.” Como analisa esta questão? 

Quando eu falei sobre isso estava falando no sentido de que às vezes esse rótulo é prejudicial ao limitar as oportunidades editoriais desses escritores. Amadureci muito e acho que não há problema de ser rotulado como um escritor LGBT, e que isso deve ser aceito com muito orgulho. Mas esse rótulo esconde um problema maior de falta de representatividade dessa comunidade em produções culturais, incluindo na literatura. Rótulos são ruins quando limitam, não quando são símbolos de coragem e luta.

 

Conheci o seu trabalho através de um amigo que o definiu da seguinte forma: “O Rafael é um escritor como alma. As emoções estão sempre à flor da pele. Ri e chorei pela intensidade e beleza da sua obra. Tocou-me profundamente.” Partilho da mesma opinião. O que sente ao receber este feedback?

Todos os meus trabalhos para o público gay são uma mistura de histórias de amigos e conhecidos e até coisas das quais ouvi falar. Saber que os leitores se identificam a ponto de partilhar as mesmas emoções que eu tentei transmitir é extremamente gratificante.

 

A história de Vinícius e as saunas são uma metáfora sobre o comodismo em que algumas pessoas vivem. Como começou a idealizar esse projecto e resolveu que ele seria uma websérie e não um romance convencional?

Eu sempre quis escrever algo para o público gay que fosse mais leve e divertido e que ao mesmo tempo abordasse assuntos sérios, reflexões importantes e contemporâneas. Nunca tive tempo para parar e pensar como daria vida a isso. Quando finalmente escolhi a sauna como a metáfora guia, achei que o modelo de websérie seria mais corrente e divertido e me daria tempo para moldar a história do jeito que eu queria.

 

Existe um preconceito com os frequentadores destes espaços.

Existe muito preconceito e faz parte dessa vontade que todo o ser humano tem de querer esconder as coisas que são mal vistas pela sociedade.

 

Uma das mensagens mais fortes que passa é que apesar das dificuldades existe sempre esperança no futuro.

O Vini começa como um céptico acomodado e passa a ser um esperançoso cauteloso, eu diria. O que é uma grande lição para se ter e levar. Você pode ser esperançoso sem ser ingénuo e descuidado.

 

Para divulgar o projecto criou perfis com as características do personagem no Hornet e Grindr, colocou o link para a série e esperou as pessoas interagirem. Como surgiu essa ideia e que feedback teve dos frequentadores dessas redes sociais?

Eu vi uma acção de marketing parecida feita no Tinder para a série The Mindy Project. Achei perfeito usar esses aplicativos, que tem absolutamente tudo a ver com o estilo de vida do Vini, para divulgar sua história. A recepção foi incrível! Obviamente havia alguns caras que ficavam irritados porque não estavam lá para se excitar com literatura.

 

O Rafael é um apaixonado por medias digitais e redes sociais e adora interagir com os seus seguidores. O que absorve dessas partilhas? 

Elas com certeza me ajudaram a moldar a websérie em algo mais contemporâneo (na primeira publicação dela no meu blogue, todos os textos vinham com GIFs animados para ilustrar certas situações). E o feedback dos leitores e seguidores sempre é um termómetro, um guia para dosar um pouco a mão em algumas percepções que eu tenho ou tinha do mundo gay.

 

Numa das suas entrevistas quando lhe perguntaram se era fácil ou difícil ser gay respondeu com uma frase que considero brilhante. “Ser gay não deveria ser nem fácil nem difícil. Deveria ser apenas isso: ser.” Como olha para o Brasil no respeito pelos direitos das diferentes orientações sexuais?
A batalha continua viva e dura para sermos reconhecidos, ganharmos nosso espaço e nossos direitos aqui no Brasil. Com certeza há momentos de celebração e vitória, mas os crimes homofóbicos que são relatados diariamente e até aqueles que são esquecidos mostram que estamos bem longe de uma situação ideal. Não podemos deixar de lembrar que outros assuntos da comunidade LGBT recebem pouca visibilidade, como, por exemplo, a transfobia. Sem falar que sofremos de uma inércia e preconceito do próprio preconceito de grupos dentro da própria comunidade LGBT.

 

Para finalizar a nossa conversa que mensagem gostaria de deixar aos leitores do dezanove? Gostaria de os desafiar a ler “Vinícius no Mundo dos Toalhas Brancas”?

Poderia ser um desafio, mas é muito simples baixar o aplicativo do Wattpad e ler gratuitamente o meu livro. Aposto que muitos dos leitores vão se identificar e, ultimamente, tenho recebido críticas muito positivas de leitores heterossexuais, portanto é possível indicar o livro para qualquer pessoa que não seja cheia de preconceitos. O mais importante, além de ler o livro, claro, seria comentar, dar sua opinião sobre tudo que vocês acharem necessário.

 

Para ler “Vinícius no Mundo dos Toalhas Brancas” entra no link: bit.ly/viniciuswattpad

 

Se desejares contactar ou acompanhar o trabalho do autor, consulta o blogue, o Facebook, o Twitter ou o Instagram

 

Entrevista realizada por Carlos Maia