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A SIDA marcou profundamente a percepção da homossexualidade nos anos 80 e 90, e ainda hoje é mais prevalente entre homens que fazem sexo com homens (HSH), disseminada sobretudo devido a comportamentos sexuais de risco [1]. No entanto, não é a única consequência do sexo desprotegido na população HSH. A sífilis, por exemplo, também é mais prevalente nesse grupo de pessoas e a sua incidência tem aumentado ao longo dos últimos anos [2], também devido ao sexo desprotegido [3].

 

A PrEP (profilaxia pré-exposição) é um medicamento muito eficaz, tal como refere o Dr. Bruno Maia [4], na prevenção da transmissão de VIH quando tomado por alguém VIH negativo. Na verdade, a sua eficácia chega aos 92% no caso de contágio por relações sexuais quanto tomado consistentemente [5]. Isso coloca-a acima do preservativo, que tem uma eficácia estimada num mínimo de 80% a 85% [6] [7], por isso não tenhamos ilusões: a PrEP é um grande passo contra o VIH e é neste momento o método mais eficaz de prevenir o contágio (apesar de ser obviamente ainda mais eficaz quando usada em simultâneo com o preservativo).


O que me preocupa não é o quão eficaz é a PrEP; isso é um facto. São antes as consequências dessa realidade. O Dr. Bruno Maia fala na PrEP como uma “revolução na vida sexual” e como lhe permite “viver a plenitude das [suas] relações com todo o prazer e felicidade”. Mesmo dizendo a certa altura que “nada [o] impede de a usar em conjunto com o preservativo”, todo o artigo do Dr. Bruno é uma ode ao sexo desprotegido e à liberdade que isso lhe traz. Ele fala dos desleixos que podem acontecer, dos medos e dos tabus que agora deixam de existir, tudo graças ao milagre que é a PrEP.


Pessoalmente, todo o artigo me soou a propaganda, quase publicidade; um apelo emocional ao uso de PrEP. Para um médico, é algo confuso que incentive o sexo desprotegido com PrEP só porque “as outras infecções têm cura!”. A verdade é que, mesmo com cura, podem ter consequências irreversíveis que aconteçam antes do tratamento [2]. Sexo com PrEP continua a ser sexo desprotegido, e não deve ser praticado levianamente.


Para além disso, todas as estatísticas da PrEP baseiam-se na sua toma consistente. Apesar de o Dr. Bruno dizer que, ao contrário do que acontece com o preservativo, não há “desleixos”, a verdade é que um pequeno desleixo na toma diminui drasticamente a eficácia da PrEP [5]. Esses “desleixos”, associados também à toma de PrEP por VIH positivos (caso o comecem a tomar antes de saberem que são positivos) podem na verdade levar a mutações do VIH que o tornam resistente à PrEP e outras drogas [8] [9]. Isto é um assunto muito sério, e é a função do Dr. Bruno, tal como a de todos os outros prestadores de cuidados de saúde do país, de informar a população. Afinal de contas, a responsabilidade de usar PrEP é superior ao preservativo; enquanto a profilaxia tem de ser usada regularmente sem lacunas, o preservativo é apenas necessário durante o acto sexual. Não é um mundo de despreocupação como o Dr. Bruno sugere, ou pelo menos não o deveria ser.


Se todos entrarmos no mundo de fantasia de que a PrEP é a salvação dos gays em forma de comprimido e justifica o sexo desprotegido com todos e quaisquer parceiros, então avizinha-se uma epidemia que poderá ter uma magnitude igual ou superior à dos anos 80, com a proliferação de ISTs entre HSH e mutações de VIH resistentes a drogas.


Nesse aspecto, a cultura popular confirma-se a mais sábia: “o seguro morreu de velho”. Sim, usem PrEP, e façam-no consistentemente: é a maneira mais segura de evitarem contrair VIH. Mas não a usem como desculpa para encontros sem protecção. Se os quiserem praticar, têm toda a liberdade para isso, seja com um companheiro de uma vida ou um parceiro fugaz. Simplesmente questionem-se, investiguem, informem-se e, acima de tudo, pensem por vocês próprios e responsabilizem-se pelos vossos actos. Não usem a PrEP como desculpa, porque não o é.

 

João Monteiro

 


Referências 

 

[1] Centers for Disease Control and Prevention, “HIV Among Gay and Bisexual Men,” 16 Dezembro 2015. [Online]. Disponível em: http://www.cdc.gov/hiv/group/msm/index.html.


[2] Centers for Disease Control and Prevention, “Syphilis & MSM (Men Who Have Sex With Men),” CDC - Centers for Disease Control and Prevention, [Online]. Disponível em: http://www.cdc.gov/std/Syphilis/STDFact-MSM-Syphilis.htm. [Acedido a 16 Dezembro 2015].


[3] M. Hourihan, H. Wheeler, R. Houghton e B. Goh, “Lessons from the syphilis outbreak in homosexual men in east London,” Sexually transmitted infections, vol. 80, nº 6, pp. 509- 511, 2004. 


[4] B. Maia, “Porque comecei a fazer PrEP,” dezanove, 14 Dezembro 2015. [Online]. Disponível em: http://dezanove.pt/porque-comecei-a-fazer-prep-875522. [Acedido a 16 Dezembro 2015].


[5] Centers for Disease Control, “PrEP,” CDC - Centers for Disease Control, 14 Dezembro 2015. [Online]. Disponível em: http://www.cdc.gov/hiv/basics/prep.html. [Acedido a 16 Dezembro 2015].


[6] World Health Organization, “Condoms for HIV prevention,” WHO - World Health Organization, [Online]. Disponível em: http://www.who.int/hiv/topics/condoms/en/. [Acedido a 16 Dezembro 2015].


[7] K. K. Holmes, R. Levine e M. Weaver, “Effectiveness of condoms in preventing sexually transmitted infections,” Bulletin of the World Health Organization, vol. 82, nº 6, pp. 454- 461, 2004. 


[8] Global Campaign for Microbicides, “Understanding HIV Drug Resistance in the context of microbicides and pre-exposure prophylaxis (PrEP),” 2010. [Online]. Disponível em: http://www.global-campaign.org/clientfiles/FS-DrugResistance%5BE%5D.pdf. [Acedido a 16 Dezembro 2015].


[9] D. A. Lehman, J. M. Baeten, C. O. McCoy, J. F. Weis, D. Peterson, G. Mbara, D. Donnell, K. K. Thomas, C. W. Hendrix e M. A. Marzinke, “Risk of drug resistance among persons acquiring HIV within a randomized clinical trial of single-or dual-agent preexposure prophylaxis,” Journal of Infectious Diseases, 2015. 

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