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Romeu Monteiro: “Tudo começa por dar a cara”

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Desde 2008 coordenei muitas dezenas de reuniões de apoio a jovens LGBT. Reuniões de jovens cujas famílias não sabiam onde eles estavam ou o que estavam a fazer. Em que a resposta a "quando é que pensas contar à tua família" era quase sempre "quando terminar o curso", porque temiam ficar sem casa, sem sustento, sem possibilidade de continuar a estudar.

 

 

Jovens que relatavam como os pais lhes descobriram a password do computador, devassaram a sua privacidade e expulsaram-nos de casa. Pais que disseram que apoiariam as filhas se elas lhes contassem a verdade e perante a verdade tiraram-lhes o tecto. Jovens agredidos e hospitalizados por violência homofóbica nunca visitados no hospital. Famílias que passaram a ignorar ou rejeitar completamente qualquer contacto com a vida pessoal dos filhos.
Jovens atirados para relacionamentos e comportamentos de risco sem qualquer tipo de supervisão ou aconselhamento porque a mentira e a ocultação eram a única forma segura de sobrevivência.
Reuniões que fazíamos em locais discretos com sinalização discreta, para evitar problemas caso algum jovem se cruzasse nessa zona com alguém conhecido. Reuniões que tínhamos plena noção estarem divulgadas em fóruns online neo-nazis.
Jovens que nos informavam que nas suas aulas no seu curso superior, o professor ensinava que a homossexualidade era um desvio a par com a criminalidade e a toxicodependência. Jovens com expressões de terror e a tremer porque os pais podiam estar prestes a descobrir.
O medo e o trauma, a invisibilidade e o insulto. O crescer a ouvir que os paneleiros são doentes mentais e cheios de IST's, que assediam os adultos e violam as crianças, que são fracos e infelizes, que só pensam em sexo e promiscuidade. Que as nossas relações não são relações a sério, que as nossas famílias são más famílias.
Crescer como monstros, sozinhos no mundo, porque num mar de insultos e difamação é preciso ser suicida para dar a cara.
Mas alguém deu. Alguns foram dando.
E é preciso continuar a dar.
Eu tenho apenas 28 anos e não me pude assumir na escola, nem tive nenhum colega assumido, no ensino básico ou secundário. Não pude viver um desenvolvimento emocional e social semelhante ao dos outros jovens. Essa parte da minha juventude foi amputada.

Não pude viver um desenvolvimento emocional e social semelhante ao dos outros jovens. Essa parte da minha juventude foi amputada.

Na universidade nunca me senti confortável para demonstrar carinho em público. E nunca vi tal por outros casais do mesmo sexo. Essa parte da minha vida também foi amputada.
Tive vários relacionamentos e nunca - nunca - tive um em que fosse acolhido e reconhecido pela família desse namorado. É a coisa mais estranha e das mais desumanizadoras estar num lugar e não ser visto, como um fantasma, porque é mais fácil não nos verem.
E isto são as nossas vidas a serem amputadas, dia após dia.
É tempo de dizer basta. Que se não podemos recuperar o passado, podemos construir um futuro. Se as nossas infâncias e juventudes ficaram mutiladas, que não fiquem as dos que vêm a seguir. Que possa ser melhor para eles.
E isso está nas nossas mãos. Não permitir que o medo nos esconda, não permitir que nos difamem.
E tudo começa por dar a cara, porque nós estamos em todas as famílias, em todas as empresas, em todas as comunidades. E temos direito a crescer e a viver sem ter medo, sem ser preciso ser corajoso ou herói ou suicida para podermos viver de forma honesta e transparente, de forma saudável e completa.
E tudo começa por dar a cara.
Tudo começa por dar a cara.
Quem não percebe isso, não percebe nada.

 

Romeu Monteiro, programador informático