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“Ser gay 'fora do meio' ainda reúne um conjunto de factores positivos”

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André Filipe Gonçalves apresentou a tese “A Identidade Social nas Redes Sociais Online: A Construção de Autoapresentações Anónimas Mediadas pelo Grindr”, no âmbito do mestrado em Comunicação, Cultura e Tecnologias da Informação, do ISCTE (Lisboa). Em conversa com o dezanove.pt explica os motivações dos “discretos” do Grindr.

 

dezanove: Pode-se dizer que as pessoas homossexuais têm uma forma diferente de se descreverem ou de se apresentarem nos perfis nas redes sociais de relacionamentos face às pessoas heterossexuais?

André Filipe Gonçalves: Sim, uma das dimensões do trabalho foi pegar no conceito específico de "heteronormatividade" e confrontá-lo com estes depoimentos. Diria que é difícil desligar este tipo de comunicação para esta comunidade concreta de homens que tem sexo com homens dessa noção de heteronormatividade, isto é, de que devemos usar uma maior discrição porque ser gay "fora do meio" – e por sua vez, não efeminado, etc. – ainda reúne um conjunto de factores positivos. E nós tendemos a transpor essas normas para qualquer contexto – neste caso, para uma rede como o Grindr.

 

A tese teve como trabalho de campo conhecer as motivações dos “discretos”. Que conclusões tiraste deste de grupo que se apresenta desta forma no Grindr?

Diria que existe sempre um eixo central de privacidade. Esse termo surgiu quase sempre quando perguntei directamente qual era, de facto, a motivação principal para o anonimato. Por sua vez, esse termo funciona como um "chapéu de chuva" para outros conceitos, muitos deles já abordados por outros trabalhos em comunicação. Existe sempre um jogo de poder pela visibilidade. Houve pessoas que responderam afirmativamente no que toca ao receio de fraudes de identidade – quer termos a pessoa com quem se fale actualmente a roubar a imagem da própria, quer já autoapresentar-se com uma foto roubada. E depois há um tópico cada vez mais querido nesta área da comunicação que é o "colapso de contextos"/"audiências imaginadas".

 

O que quer isso dizer?

Basicamente, é nós perdermos, nas redes sociais online, qualquer noção da nossa audiência, ao invés de um contacto "ao vivo", face a face. Podemos ter N contextos, como professores, amigos, colegas da escola, colegas de trabalho, vizinhos. Com estes contextos todos, como gerimos a nossa comunicação? No Facebook, podemos já experimentar isso, por exemplo. Quantos de nós não teremos apagado, ou não seguido em frente, com uma publicação, por esta poder colidir com alguns contextos? No Grindr temos o acréscimo da comunidade homens que têm sexo com homens (HSH) versus heteronormatividade. E há ainda um último eixo, que é a erotização desta discrição –  encontrámos discursos que vão ao encontro da ideia que "discretos procuram discretos", seja por segurança extra, seja porque o ideal heterossexista, seja ainda algo bastante desejado. Quando lhes perguntei a sua opinião sobre "gays efeminados" surgiu algo curioso: houve aqui um potencial politicamente correcto, em dizer que "socialmente respeito", "tenho amigos que são", mas a maioria conseguiu dizer que sexualmente não eram compatíveis com as suas preferências.

 

Encontrámos discursos que vão ao encontro da ideia que "discretos procuram discretos", seja por segurança extra, seja porque o ideal heterossexista, seja ainda algo bastante desejado

 

Como obtiveste os depoimentos para a tese?

Os depoimentos foram obtidos através de entrevistas mediadas pela própria plataforma Grindr e foram iniciadas no centro da cidade de Lisboa. Escolhi 12 indivíduos, divididos por duas faixas etárias (18-35 e com mais de 35 anos).

 

Por que houve essa fronteira dos 35 anos?

Os 35 anos foram usados como barreira geracional, porque pensei que com 35 anos no presente, implicaria ter 18 anos em 2000, ano da primeira manifestação pública em massa de activismo LGBTQ (1ª Marcha do Orgulho em Lisboa). E quis perceber se, tendo vivido toda a adolescência sem expressões vísiveis – passo a palavra – de activismo, se implicava uma mudança de comportamento nestas autoapresentações. A conclusão a que se chegou é que não se detectou grande diferença geracional nestas descrições de perfil e nas respostas dadas. Mas também a amostra era pequena e não representativa.

 

Houve algum depoimento que, de alguma forma, te tivesse surpreendido ou destacado em relação dos restantes?

Houve um depoimento ou dois que conseguiram fugir à narrativa e até apresentar conceitos que fiz questão de ocultar nas perguntas. Por exemplo, nunca perguntei sobre "heteronormatividade", mas tive um dos 12 entrevistados a denunciar, em resposta à pergunta "Qual é a tua opinião sobre gays efeminados" com "Não gosto da expressão [gays efeminados]. É heteronormativa". Num outro ponto, houve outro entrevistado que fugiu à regra, por assim dizer, do "socialmente respeito [gays efeminados] mas sexualmente desejo", e deu a opinião exactamente oposta, e atribuindo um papel de género, sexual específico a esta figura.

 

O Grindr é uma espécie de realidade virtual alternativa à da comunidade gay real? Ou seja, os estereótipos ou forma como as pessoas se apresentam correspondem àquilo que assumem no mundo real?

Uma das conclusões deste estudo é, de facto, confirmar que os nossos contextos estão de tal modo colapsados, assim como noções de espaço e tempo, que já não se pode falar numa luta entre virtual versus realidade. O Grindr é tão real, e pode apresentar consequências reais, como qualquer rede social online. Nesse aspecto, sim, as normas sociais apreendidas numa interacção social face a face serão replicadas numa interacção mediada por uma aplicação.

 

Rui Oliveira Marques