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“Temos sempre heterossexuais aqui à noite”

Deborah Kristall.JPG

A noite gay na capital de Portugal tem sofrido grandes alterações ao longo dos anos. Apesar da mudança, tanto na noite como na sociedade, ainda existe muito preconceito e muitos tabus em torno do que é realmente a noite gay.

Em conversa com três responsáveis por locais conhecidos na noite lisboeta, fomos descobrir realmente o que é a noite gay na capital e quem a costuma frequentar. Afinal os heterossexuais até são clientes mais frequentes do que se pensa nestes espaços nocturnos.

 

“Os heteros que frequentam os sítios gays são aqueles que estão muito bem resolvidos com a sua sexualidade”

São 22h e o Bairro Alto ainda se encontra calmo. Em plena Rua da Rosa, no número 159, abre-se uma porta para dar início à noite. Aqui podemos encontrar um espaço recente por estas ruas, ideal para beber um copo ou dois, mas com um nome bastante conhecido. O Pride tenta fugir um pouco àquilo que é associado à noite gay por grande parte das pessoas, tendo um conceito “mais abrangente, mais friendly. Não é um bar gay, hetero friendly, ou um bar hetero, gay friendly, ficamos aqui numa mistura”, explica Jorge Gomes, gerente do Grupo Pride.

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"Todas as pessoas que se respeitem e que respeitam os outros são bem-vindas, no entanto, os extremistas que não tenham respeito pelos outros, serão convidados a sair”. O local é acolhedor, com as luzes em meio tom, música não muito alta para que se possa conversar, sentar e descontrair um pouco, isto comparando com outros bares em redor. Já com alguns anos de trabalho na noite gay, Jorge admite que, na capital, a noite encontra-se demasiado segmentada e que isso pode acabar por contribuir para a criação de estereótipos por parte de quem nunca frequentou a noite gay. “Dentro do mundo gay existem ‘guetos’, ou seja, bares só para ‘bears’, só para lésbicas, só para ‘boys next door’ e nós não gostamos de segmentar. Se a sociedade fosse diferente, se calhar nem precisávamos de ter um bar gay, tínhamos apenas um bar onde todos eram bem-vindos.”

Jorge Gomes costuma receber muitos clientes heterossexuais, mas sabe que são uma minoria, uma vez que “Os heteros que frequentam os sítios gays são aqueles que estão muito bem resolvidos com a sua sexualidade e que gostam de sair para beber uns copos e divertir-se sem serem perturbados. Normalmente nos sítios gays conseguem-se divertir sem andarem à bulha, enquanto que nos sítios heteros, com o álcool e os ciúmes porque vão com a namorada, acabam por ter sempre confusões”, conta Jorge entre gargalhadas. O mal dos estereótipos criados em torno da noite gay é que “a realidade de uns não é a dos outros”.

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Jorge considera que “os bares gays, infelizmente, são um mal necessário. Se eu for a um restaurante, dito ‘normal’, e beijar o meu marido na boca toda a gente fica a olhar para mim, até já fui convidado a sair de uma discoteca por beijar o meu marido.” Quando confrontado com uma das visões existentes sobre a noite gay, que esta serve maioritariamente para a procura de um parceiro sexual, com base na sua experiência pessoal, Jorge não considera que “seja aquele ponto de engate de, ‘vamos àquele bar porque vou engatar lá alguém’. Não! Vamos àquele bar porque eu vou-me sentir à vontade, sem que olhem para mim de lado. Se for a um lugar considerado mais hetero, se começar a dançar com as mãos no ar e a mexer-me mais, se calhar vou ter metade da pista a olhar para mim e a dizer, ‘à boca pequena’, olha, aquela bichinha, pensa que está em casa, ou pensa que está no Trumps ou pensa que está onde?” conclui a rir da situação.

 

Depois de alguns copos e de uma troca de palavras com os amigos, chega a hora de procurar um sítio que fique aberto pela noite fora. A zona mais conhecida para encontrar um local destes, em Lisboa, é o Príncipe Real, zona onde se concentra em maior número a noite gay. Aqui, as opções são muitas. Optámos por uma das mais conhecidas discotecas gay, o Trumps, e por um espaço mais pequeno, mas de renome devido aos espetáculos de transformismo que oferece todas as noites, o Finalmente.

 

“Todos os fins-de-semana temos muito público heterossexual”

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Com um grande nome na noite gay nacional e internacional, a discoteca Trumps encontra-se ao cimo da Rua da Imprensa Nacional. Com um grande T à porta, é fácil dar com o local, que conta, logo à entrada, com um pequeno bar à disposição dos clientes, e com duas salas no piso inferior, uma de música house e outra de música pop. A discoteca Trumps afirma-se como ‘hetero friendly’ portanto “quer dizer que está aberto a toda a gente, não olhando a género ou sexualidade”, explica Marco Mercier, director geral do Trumps, acrescentando que “todos os fins-de-semana temos muito público heterossexual no Trumps”.

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A seu ver o sempre sorridente Marco Mercier considera que a noite gay em Lisboa está a crescer cada vez mais. Neste estabelecimento, a boa disposição é frequente e o trabalho até acaba por ser mais fácil se for levado assim. Durante a entrevista, alguns risos e brincadeiras foram ouvidos, o que comprova que o trabalho na noite gay até pode ser divertido. Assemelhando-se ao que qualquer discoteca produz, o T (como é conhecida a discoteca por quem a frequenta) recebe semanalmente um DJ convidado que pode vir de qualquer parte da Europa para proporcionar novas vivências aos clientes. Através do que vivencia no estabelecimento, Marco não considera que esteja apenas na mentalidade das pessoas o facto de a noite gay ser um local mais virado para o engate, até porque “se disser que é só a mentalidade das pessoas então estaria a mentir, não é?” pergunta Marco.  O mesmo responsável prossegue: "Oferecemos diversão, não oferecemos nada que leve a que esse preconceito continue a viver e que esteja tão presente na cabeça das pessoas”. O também coreógrafo explica que em qualquer lugar de saída nocturna se podem conhecer pessoas. Apesar do mercado da noite estar dividido em duas partes (sexual e divertimento), Marco garante que “o Trumps se foca apenas na parte do divertimento”. Apesar de os locais nocturnos mais direccionados à comunidade LGBT serem bastante frequentados, não implica que sejam uma das causas que levam as pessoas a assumirem-se como homossexuais, “as discotecas LGBT funcionam um pouco como iniciação, para que a pessoa conheça pessoas como ela [com a mesma orientação sexual], mas também para reunir grupos de amigos que se encontram ao fim-de-semana”, afirma Marco Mercier. No entanto, Marco não considera que exista algum tipo de relação entre os espaços da noite gay e o ‘coming out’ [assumir publicamente a orientação sexual] que se tem verificado, em maior número, nos últimos anos.

Sendo a comunidade gay mais pequena, os clientes de qualquer estabelecimento acabam por se tornar frequentes, portanto é necessário diversificar e fazer novas apostas. O Trumps conta por isso com diversas noites temáticas: “Acabamos por ter uma quantidade de clientes que são regulares e a quem temos de oferecer coisas novas.” Marco está convicto que todas as noites o Trumps recebe clientes heterossexuais, aliás “é um bocadinho por moda. Lembro-me que há uns anos tínhamos uma sexta-feira com muito, muito, muito público heterossexual mesmo”.

 

“Desde início que o Finalmente esteve direcionado ao público gay”

Também situado no Príncipe Real, na esquina da Rua da Palmeira, deparamo-nos com o Finalmente Club, conhecido entre heterossexuais e homossexuais como a discoteca do show de transformismo. No entanto, nem sempre foi assim. Quem o diz é Fernando Santos. Apesar de não ser um nome muito conhecido, garante que o seu nome artístico será muito mais conhecido na noite gay. Fernando é a pessoa que interpreta a personagem Deborah Krystall, artista do Finalmente. Um nome que muitos conhecem no mundo do transformismo e mesmo fora dele. “O Finalmente começou como um pequeno espaço, um café com algumas mesas, o bar, e claro, com os shows para que fosse algo diferente do que havia na altura, uma vez que já estamos abertos há quase 40 anos.” Depois de começar a ganhar fama e a encher todas as noites, houve a necessidade de retirar mesas e afins para que coubesse o maior número de pessoas possível. O Finalmente nem sempre teve o mesmo aspecto, mas desde o início esteve direccionado para o público gay. No entanto, qualquer heterossexual é bem-vindo a este espaço muito procurado pelo entretenimento oferecido com o show de transformismo.

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O Finalmente já recebeu diversos nomes internacionais, “já passou por aqui tudo, todos os grandes nomes no mundo dos shows travestis já actuaram aqui, assim como poetas, cantores, bailarinos e até a Katy Perry.” Katy Perry esteve no Finalmente em 2011 quando passou por Portugal na sua tour. Sendo Katy uma das artistas muito ouvidas na noite gay, o facto de esta ter aparecido no Finalmente para se divertir foi notícia por todo o lado. Aos olhos de Deborah, quem diz que a noite gay é para o engate “é por pura ignorância ou falta de conhecimento! Aliás, até recomendo que saiam e venham experimentar, porque estão muito enganados (risos)”. E, de facto, experimentar algo é a melhor maneira de conhecer verdadeiramente o conceito. Deborah acrescenta que muitos heterossexuais dos que passam por aqui como clientes “até se calhar pensam ’então mas se a minha amiga vai ali, o meu amigo vai ali, porque é que eu não devo ir também? O que é que me pode acontecer de tão mau?’ e pronto. Digo mais! Muitos deles até acabam por conseguir uma rapariga mais facilmente aqui, porque elas entram a pensar que são todos gays e ficam mais soltas e divertidas, do que aí pela rua”. Deborah garante que muitos clientes heterossexuais acabam por entrar simplesmente para verem o show de transformismo.

Para Deborah, locais dedicados à comunidade LGBT são importantes para a sociedade, porque além de ir criando alguns hábitos novos na vida das pessoas, servem também para que “as pessoas estejam à vontade, para que possam divertir-se e soltar-se, ser aquilo que realmente os deixa felizes. Até aqueles que ainda não sabem bem o que querem [em relação à sua orientação sexual], é importante terem estes locais para virem (risos).” Deborah Krystall considera que as pessoas, apesar de todas as mudanças já feitas referentes aos direitos da comunidade LGBT, “ainda estão muito fechadas ao assunto”, dando o exemplo das demonstrações de afecto em público “É impensável estar um grupo de amigos, com um ou mais casais lá, e dois estarem aos beijos porque vai incomodar todos os que estão em redor.” Muitas das vezes esses preconceitos estão apenas na cabeça das pessoas e, quem sabe, se ao experimentarem um pouco do que é oferecido na noite não passam a aceitar melhor. “

Deborah Krystall Finalmente.JPG

Deborah confidencia-nos um episódio “Um amigo meu de Santarém disse-me que tinha adorado o show e que queria imenso levar-nos a actuar lá, mas sem certezas quanto à reacção. Santarém, um sitio mais pacato, onde a maioria dos clientes eram daqueles que agarram os touros, agricultores de lá, pronto assim mais... não é?” diz-nos com uma certa graça na voz. E prossegue: “Eu disse-lhe, ‘então fazemos assim, nós vamos lá. Não tens de pagar, nós vamos. Se correr mal, saímos, se não correr mal logo se vê’. Conclusão, o difícil foi depois sair de lá, porque eles adoraram tudo, as mulheres que nós criámos, o glamour do show, as penas, tudo” relembra encantada.

Apesar de ser um club que abre portas a todos, inicialmente não foi assim. “Se não queremos que sejam preconceituosos connosco então também não podíamos ser preconceituosos com eles”. O anterior proprietário do Finalmente não permitia a entrada de raparigas no local, “vinham aqui bater à porta e ele dava-lhes com ela na cara, depois de lhes explicar, da maneira mais rude possível, o que este clube era para que elas e não sentissem qualquer vontade de querer cá entrar.” Claro que esta proibição teve de ser mudada, até porque não deixavam de ser clientes que a casa podia ganhar. Com a vantagem de estar aberto todos os dias, o Finalmente consegue atrair um grande número de pessoas com o show de transformismo que ocorre todos os dias. De destacar que, todas as segundas-feiras o palco do Finalmente dá lugar a novas pessoas que queiram actuar, desde travestis a raparigas comuns, todos podem ter a oportunidade.

A noite gay será sempre um tema controverso na sociedade. A diversidade é imensa, portanto convém saber lidar com diversos feitios e diversos géneros para que a noite corra da melhor maneira. A ideia que a sociedade, que nunca frequentou a noite gay, tem da mesma é errada, como nos garantem Jorge Gomes, Marco Mercier e Deborah Krystall. Se há algo que é garantido é que a noite gay é das noites mais animadas que Lisboa pode oferecer a qualquer pessoa que esteja disposta a conhecer.

 

Pride Bairro Alto

Rua da Rosa 159,

1200-383, Lisboa

Horário:

Quartas e Quintas – 22h às 02h

Sextas e Sábados – 22h às 03h

Domingos – 22h às 00h

 

Trumps

Rua da Imprensa Nacional 104,

1250- 127, Lisboa

Horário:

Sextas, Sábados e vésperas de Feriado – 23:45h às 06h

 

Finalmente Club

Rua da Palmeira 38,

1200-313, Lisboa

Horário:

Todos os dias – 00h às 6h

 

Reportagem: Miguel Rodrigues

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