Saltar para: Post [1], Comentários [2], Pesquisa e Arquivos [3]

Dezanove
A Saber

As notícias de Portugal e do Mundo

A Fazer

Boas ideias para dentro e fora de casa

A Cuidar

As melhores dicas para uma vida ‘cool’ e saudável

A Ver

As imagens e os vídeos do momento

Praia 19

Nem na mata se encontram histórias assim

Publicidade

Tenho fissuras anais há mais de dois anos

gay backs.jpg

Domingo é dia de perguntas e respostas sobre Saúde e da Sexualidade com o Enfermeiro do dezanove.pt

 

Questão:

 

Caríssimos,
Recentemente li um artigo vosso sobre “É seguro ter relações sexuais quando se tem/teve algum problema com feridas/fissura anal?” que me despertou a atenção para o facto de vos poder questionar e pedir ajuda neste sentido.
Li o vosso artigo na íntegra, bem como o artigo datado de 21 de Março de 2012 e o que me leva a escrever-vos é o facto de eu ter um destes problemas de saúde, diagnosticado já há mais de dois anos e a situação presentemente mantém-se.
Não me alongando muito, pois todo o episódio é doloroso, frustrante e tem-me causado graves problemas emocionais, posso adiantar que tenho tido quase todos os cuidados para que o problema se resolva e não passa do mesmo. Foi-me diagnosticado pela médica de família três fissuras. Fez-se o despiste a uma possível doença “candidíase” e na primeira observação a médica detectou as fissuras. Feitas as contas já fui três vezes à médica de família por este motivo e uma às urgências. Foi-me receitado o hemofissural que nunca me fez nada, foi-me receitado o [nome do medicamento ocultado] que está indicado para tratamento de hemorroidas e nunca me fez nada, onde este foi sugerido pela médica para tentar estancar o sangue das fissuras, mas também sem sucesso. Foi-me receitado agora recentemente umas saquetas que apesar de serem para administração oral, a médica sugeriu-me que eu experimentasse pois é um medicamento que reage como “penso químico” e está indicado para tratamento de úlceras no estômago. Este terceiro, também não me tem feito nada.
Um dia, mais ou menos há 1 ano, tinha tanta comichão e de me coçar deitava tanto sangue que decidi perder a vergonha e fui às urgências. Fui visto por uma médica que me indicou que aparentemente só via as três fissuras. Falei do meu historial clínico. Prescreveu-me duas consultas externas da especialidade em Proctologia e em Doenças Venéreas.
Na consulta de Proctologia fiz uma anuscopia para aferir a possibilidade de existirem hemorróidas e deu negativo. Na consulta de Venereologia fiz os exames todos às doenças sexualmente transmissíveis e deu tudo negativo.
O problema mantem-se, é quase diário. Deixei de ter relações sexuais onde eu fosse penetrado, pois doí-me. Tentei algumas vezes mesmo com este problema, mas torna-se insuportável a dor e daí a minha frustração e carga emocional que me tem abalado bastante.
Já tentei por experiência água de malvas, comprei o chá na ervanária e durante umas duas semanas usava a água de malvas para lavar os órgãos genitais, conforme sugestão que me deram. Não resultou em nada.
Tentei usar mel e até tive algumas melhorias. Estou e pensar usar novamente, pois sinceramente já não sei o que fazer mais.
Cheguei a estar duas semanas a comer sopa apenas pensando ou tentando que as necessidades sendo menos duras me ajudassem a cicatrizar as fissuras e nada.
Na minha última ida à médica de família falei-lhe sobre a operação de fissuras anais. A médica desaconselhou-me, disse que o meu caso não era grave a ponto de eu ter de ser sujeito a uma operação.
Neste momento, decidi perder a vergonha e expor-vos o meu problema com o intuito de poder obter alguma ajuda.
Questionava eu se existe alguma especialidade médica onde eu possa ir uma vez mais tentar resolver o meu problema. Se existe algum médico da comunidade LGBT que esteja habituado a estes casos, estas patologias em homossexuais. Pedia ajuda neste sentido.
Não me querendo alongar na descrição. Tenho uma relação há 14 anos estável e dita “fechada” onde está excluído pormenores como a troca de parceiro ou doenças transmitidas sexualmente e sim, pode parecer estranho ou não, mas existe 100% confiança entre mim e o meu parceiro, não fosse eu ter uma grande apoio dele neste sentido, bem como ele tem tido o meu noutras complicações de saúde que tem, mas que em nada tem a ver com estas das quais eu sofro.
Obrigado desde já,

[Leitor prefere não ser identificado]

 

P.S.: Em termos de alimentação, cheguei a ter muito cuidado em não usar pimentas, comer azeitonas, etc. por causa do ardor. Mas, uma vez mais, não deu em nada. Tornei-me vegano há um ano e também não mudou nada neste problema. É desgastante e já não sei mesmo o que fazer. Se me puderem recomendar um médico especialista nestes problemas já me ajudavam imenso.
P.P.S.: Não me vou identificar por vergonha, espero que compreendam. Este tema não é fácil dar a cara. Com os médicos foi mais fácil, mas não deixou de ser constrangedor pois existe o preconceito de quem olha para pessoas com este tipo de problemas e ache que todas fazem o mesmo tipo de vida de quem tem vários parceiros, que não é o meu caso.

  

dezanove_carlosgustavomartins.jpg

Resposta:

Olá leitor,

 

Permita-me dizer-lhe, tentando de alguma forma aligeirar a situação, que você não tem um historial clínico... você tem um calvário... que parece não ter fim e que acredito, piamente, lhe tenha causado ao longo deste tempo todo feridas físicas e emocionais que são dolorosas.

Mas, vamos por partes e tentando esclarecer alguns dos pontos que me parecem ser onde devo insistir pois parece-me que não foram bem explorados.

- Foi apenas a um proctologista? Consulte outro. A experiência pessoal de cada médico pode influenciar a forma como olha para o problema e procurar soluções onde outro não o tenha feito, seja porque encontra não haver problema, seja por não se encontra particularmente desperto para isso.

- Dieta: consulte uma dietista. Pode eventualmente aconselhar-lhe determinados alimentos que possam interferir de forma a regularizar o seu PH da flora intestinal.

- Nos dias actuais, as recomendações para certos procedimentos não exclusivamente médicos... o bem-estar, o conforto, o sofrimento são factores que são tidos em conta cada vez mais nas decisões clínicas. E pelo que me descreve, esse tem sido bastante presente e importante.

- Por último e não menos importante: O tamanho do seu companheiro. Embora possa parecer estranho um tamanho mais generoso ou uma prática menos calma pode provocar reaparecimento das feridas em fase de cicatrização.

Quanto ao seu pedido de médico friendly para a comunidade LGBT, terei todo o gosto em procurar e pedirei lhe façam chegar o nome.

Até lá não desespere. Acredito existir uma solução e aproveite o companheiro que tem e o apoio que este lhe tem dado.

 

Enfº Carlos Gustavo Martins

Licenciado em Enfermagem exerce funções no Serviço de Urgência de um Hospital Central. É enfermeiro de viatura médica de emergência e reanimação e do helicóptero de emergência de Lisboa. Colabora com o dezanove.pt desde Março de 2011.

 

Durante algumas semanas estamos disponíveis para receber as tuas questões e dúvidas. A tua identidade será, se assim preferires, salvaguardada. Sempre que existirem, as perguntas seleccionadas serão respondidas no espaço de crónica do nosso Enfermeiro aos Domingos aqui no dezanove.pt.

Envia a tua pergunta, dúvida ou tema para dezanovept@gmail.com

Queremos ajudar a esclarecer sobre questões de saúde. Ajuda-nos também a ajudar!

6 comentários

Comentar