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Três casais, seis visões sobre a Marcha

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Na maior Marcha do Orgulho LGBT de Lisboa de sempre (até hoje) o dezanove.pt falou com três casais: o Rui e o Miguel, que se vão casar após dez anos de namoro, tendo já iniciado um processo de adopção; a Mafalda e a Cláudia, que namoram há dois anos e ainda não pensam em casar; o Filipe e o João - irmão da Cláudia -, que estão juntos há 21 anos.

 

 

Rui e Miguel estão juntos há nove anos, têm ambos 38 de idade, faziam-se acompanhar por uma amiga, envergavam a bandeira do arco-íris como capa, tal como os super-heróis de banda desenhada. Rui vem à Marcha há nove anos, Miguel desde que esta se realiza: “Todos os anos são especiais, ainda é necessário, infelizmente, em Portugal fazer parte da Marcha. Este ano em concreto com o massacre em Orlando ainda mais se justifica” explica Miguel.

'Porque é necessário?', questionamos. “Em Portugal, na realidade portuguesa, justifica-se sempre vir", diz Miguel. “Já temos o casamento, já temos a adopção, foram conquistas muito importantes, mas não é apenas isso que interessa. Ainda há preconceito, ainda há muita coisa a derrubar” conclui Rui.

Em 2017 vão casar-se: “Ao fim de dez anos de nos aturarmos, justifica casarmo-nos” (risos). 'Pensam vir a ter filhos?' “Sim!”, diz o Rui categoricamente. Iniciaram há pouco tempo um processo de adopção. “Não há previsões” de tempo de espera. Agora que estão no início são, pelo menos, “seis meses para dizerem que ‘sim’ ou que ‘não’ e depois ficamos em lista de espera se for aprovado”, explicam. Querem uma criança com menos de cinco anos e é-lhes indiferente que seja menino ou menina. Parabéns a ambos!

 

casais marcha orgulho 1.jpg

Mafalda tem 27 anos e Cláudia 34, namoram há dois anos e vieram juntas pela primeira vez à Marcha. Esta foi a primeira Marcha de Mafalda: “Senti a urgência em vir, a pessoa vai crescendo e vendo que se tem de fazer um bocado pela comunidade. As pessoas não podem estar apenas sozinhas, com o seu grupo, a fazer as suas coisas, têm que se ligar a outras pessoas para que tenham mais impacto”. Sobre Orlando, Mafalda conta que apesar “de ser longe de mim (…) foi um ataque a mim própria, às minhas crenças, à minha maneira de viver”. Cláudia fala-nos do facto dela e do irmão, João, serem ambos homossexuais e como a família reagiu. “Tenho uma família fantástica. Os meus pais são pessoas mais velhas e eu julguei que isso fosse um problema, mas não”, comenta. “Estavam preocupados com o facto de eu não poder ter filhos. Ao lhes explicar que agora [com o recurso à PMA] já os poderei ter, ficaram bastante felizes”. Estão a pensar casar, “num futuro, numa grande celebração”. Sobre filhos a Mafalda contou que “quero muito ter uma barriga grande e a Cláudia também, mas se não acontecer, adoptamos”. Felicidades a ambas!

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De seguida o dezanove.pt falou então com João e o seu namorado de há 20 anos, Filipe (45 anos). Relativamente à saída do armário dos irmãos “os processos foram diferentes" explica João. No meu caso as coisas foram acontecendo, o Filipe apareceu na minha vida, primeiro estranhou-se depois entranhou-se. No caso dela, a Cláudia verbalizou”.

'Como têm sido estes 20 anos juntos?' Filipe responde: “Conhecemo-nos muito jovens, crescemos juntos, fizemo-nos homens ao mesmo tempo. Metade da nossa vida tem sido em conjunto”. Não são casados, contudo “é um tema que vem à baila de vez em quando. Acho que é uma questão de tempo” conta João. Em tom de brincadeira Filipe diz que “para fazer o casamento que queremos é preciso muito dinheiro” e ri-se. Relativamente a terem filhos, João confessa que “já nos passou esse desejo”. "Abordámos essa questão por volta dos 30 depois essa vontade passou-nos. Pode ser que volte” prossegue Filipe. Não costumam vir todos os anos, ambos trabalham por turnos. Este ano foi especial. João faz anos no dia da Marcha e com os acontecimentos em Orlando o casal sublinhou a importância de marcar presença. O que aconteceu na discoteca Pulse foi “uma coisa incompreensível”, diz o Filipe, e continua “foi uma ofensa grave contra um grupo específico (…) eu trabalho na área da saúde e aquele homem tinha um problema muito grave de psicopatia, (…) à partida foi uma questão de homofobia extrema, para mim, qualquer tipo de fobia é uma questão psicopata. O não aceitar a diferença em si já é um problema mental”. O profissional de saúde conclui dizendo que “é bom que se marque uma posição dizendo que as pessoas estão unidas e que não aceitam esse tipo de coisas”.

 

A Marcha foi vivida com este espírito, um meio-termo entre a celebração pela conquista de mais direitos iguais e um pesar pelo que se viveu em Orlando. O que aconteceu na discoteca Pulse está para nós como o que aconteceu em Stonewall, em Nova Iorque, em 1969, para as pessoas que o viveram na época. É necessário mais, mais educação nas escolas, mais conquistas, é fundamental a despatologização das pessoas trans, acesso a cuidados de saúde mais céleres, para as pessoas mais novas e para as mais velhas, e acesso ao emprego, sem medo do despedimento motivado pelo preconceito.

 

Luís Veríssimo