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Um beijo lésbico (ainda) choca assim tanto?

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Um beijo lésbico continua a chocar e enquanto isso acontecer significa que há trabalho por fazer. Esta semana houve dois acontecimentos a este respeito: a notícia de que o canal Panda Biggs censurou um beijo entre duas personagens femininas da série "Sailor Moon" e as reacções adversas ao beijo lésbico entre Ellie e outra mulher, após a apresentação do jogo "The Last of Us Part II", que diziam ser desnecessário. Seria assim tanto? Não.

 

No caso do Panda Bigs e "Sailor Moon"

No caso da "Sailor Moon", a directora do serviço de programas Panda Biggs refere, na deliberação publicada pela ERC, que a censura do beijo lésbico deve-se ao facto de “que as cenas em causa, pelo seu teor, poderiam não ter o melhor acolhimento”. Faltou compreender, tanto por parte da ERC como do Panda Biggs, que quanto mais se esconderem estas questões, mais estão a dificultar a sua aceitação e esse mesmo “acolhimento”.

Deste modo, assiste-se a uma censura por “terem sido consideradas desadequadas ao público jovem (…) dado que se está perante um assunto fracturante na sociedade portuguesa (…) É forçoso reconhecer que as temáticas da homossexualidade e do transgénero ainda não são, no contexto social actual, inteiramente aceites por toda a sociedade portuguesa, originando controvérsia. Pode admitir-se, até, que sejam de uma apreensão mais complexa para as crianças.”

Pegando neste argumento, não será algo verdadeiramente complexo de apreender quando um rapaz beija e se envolve romanticamente com um robô? Ou será que o robô por ter uma aparência feminina, já não traz qualquer tipo de problema para a direcção de programas? É o que acontece na série "Eu Sou Franky" também transmitida pelo Panda Biggs. Franky, a personagem central, é “um robot que deve ocultar a sua verdadeira identidade dos humanos”. Porém, isso não a impede de se envolver com um rapaz como se pode ver neste vídeo. E se as crianças vêem esta série e aceitam com naturalidade este romance, talvez façam o mesmo com um beijo lésbico. Mas nunca saberemos se beijos e trocas de afectos entre duas personagens femininas continuarem a ser censuradas e omitidas das séries.

Para terminar este ponto, podemos encontrar, no Panda Biggs, vários beijos entre rapazes e raparigas. Não só na série "Eu Sou Franky", como nos "Morangos com Açúcar" ou "Maggie & Bianca Fashion Friends". Portanto quando se afirma que as crianças podem ter uma “apreensão mais complexa”, devemos perguntar-nos se na realidade essa apreensão não é antes exclusiva da direcção de programas.

 

"The Last of Us 2" e o (segundo) beijo lésbico

Esta semana foi apresentada na E3 a sequela do multi-premiado videojogo "The Last of Us", jogo que já havia introduzido Bill, uma personagem homossexual cujo namorado se enforca e, no DLC, um beijo entre Ellie e Riley — portanto, nada de novo neste universo pós-apocalíptico. No entanto, no novo vídeo de apresentação da sequela, uma nova personagem feminina beija Ellie. Este momento dá-se antes de os fãs poderem ver, pela primeira vez, imagens do jogo em si. O Twitter explodiu com reacções. Se por um lado os fãs adoraram o gameplay, por outro diziam que o beijo lésbico era completamente desnecessário, que não era preciso mostrar, que não trouxe nada de novo e por aí fora.

Na verdade, passa-se exactamente o oposto. O facto de haver quem ache que este beijo é desnecessário, torna-o ainda mais necessário e pertinente. Se este beijo fosse entre um homem e uma mulher, ninguém vacilava ou comentava por ser o normal e o expectável. Mas como envolveu duas mulheres a beijarem-se, a exprimir afecto uma pela outra, já há quem ache que é necessário parar e rever a importância e pertinência deste beijo.

O caso da "Naughty Dog", a produtora de The Last of Us, é exemplar. Há bastante diversidade nas suas personagens, há todo uma multiplicidade bastante rica nomeadamente na forma como são escritas, não há maniqueísmos e não há medo de espelhar a realidade. Esta preocupação da produtora é fundamental para a identificação de quem joga com as personagens.

Enquanto não for natural, é preciso normalizar.

As séries, filmes, livros e jogos devem espelhar a diversidade existente na sociedade. Omiti-la é ignorar e censurar essa mesma diversidade; é forçar um travão quando falamos do desenvolvimento de uma sociedade equitativa, onde essa mesma diversidade deve ser não só reconhecida como valorizada.

Portanto normalizemos estas questões em vez de as invisibilizar, e introduzam-se personagens LGBTI e todas as outras que fujam do “standard” hetero caucasiano. Ninguém está a pedir para se abolir as pessoas brancas e heterossexuais das séries, livros e jogos. Estamos a lutar, sim, para que as outras pessoas, iguais em direitos e dignidade, também sejam representadas e reconhecidas. Custa assim tanto?

 

Ângelo Fernandes, fundador da associação Quebrar o Silêncio. Artigo de opinião publicado também em angelofernandes.com

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