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“Unides” como os dedos das mãos – Marchamos, cantando e rindo

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Qualquer sinal de confusão ideológica no título deste artigo não é pura coincidência. Afinal, quando a piada não é engraçada, há que saber rir para não chorar.

Percebo a subversão que é um evento LGBT utilizar uma frase do fascismo para anunciar a sua festa. Até consigo perceber que o orgulho de sermos nós, de podermos ser nós, tenha um certo vislumbre de empoderamento, de libertação.

Ora, o que não consigo perceber – nem rir – é da clara divisão que “nós” versus os “outros” tentamos demonstrar. Quem são “os outros”?

Há, por isso, que pensar o contexto da frase que queremos subverter e “apropriar”. “Orgulhosamente Sós” é uma frase cunhada por Salazar quando, em plena Guerra do Ultramar, apagando o papel de afirmação e oposição do “Outro”, afirma: “Vamos em quatro anos de lutas e ganhou-se alguma coisa com o dinheiro do povo, o sangue dos soldados, as lágrimas das mães? Pois atrevo-me a responder que sim. No plano internacional, começou por condenar-se (…), e acabaram muitos dos homens mais responsáveis por vir a reconhecer que Portugal se bate afinal não só para afirmar um direito seu, mas para defender princípios e interesses comuns a todo o Ocidente. (…) Assim bastantes povos africanos nos parecem mais compreensivos das realidades e mais moderados de atitudes. Eis o ganho positivo desta batalha em que - os portugueses europeus e africanos - combatemos sem espectáculo e sem alianças, orgulhosamente sós.” - Discurso de 18 de Fevereiro de 1965, in Discursos, Vol. VI

A história pode ser desqualificada sempre que quisermos, mas não a esquecermos é das coisas mais importantes para não a repetirmos. 

No contexto actual, apropriamo-nos de uma frase que afirma “os princípios e interesses comuns a todo o Ocidente”, enquanto fechamos as portas da Europa-fortaleza a milhares de refugiados que dão à costa no Mediterrâneo, fugindo da perseguição e da guerra, alimentada por esse mesmo Ocidente, nos seus países. No contexto actual, com o assassinato em Orlando  em que a natureza homofóbica, lesbofóbica, transfóbica de um crime de ódio se viu totalmente apagada pela narrativa fácil de “apenas mais umas vítimas” do terror fundamentalista islâmico. “Orgulhosamente Nós”? Orlando ocorre num contexto mundial sem precedentes de perseguição aos movimentos e direitos LGBT. Em Orlando, nós somos “O Outro”, que não é digno de viver. Assim como é mais fácil culpar o “Outro”, o islâmico que afinal é americano, nascido e criado, fruto do seu imperialismo, misoginia e les-bi-gay-transfobia.

No contexto actual, em que o discurso do "outro" está a ser amplamente difundido pelos meios de comunicação social e poderes governamentais pelos piores motivos. Dos refugiados à discriminação dentro da própria comunidade LGBT, neste momento fortemente marcado por discursos de movimentos de classe que contribuem para o discurso da normalidade versus anormalidade. Sempre, e também entre nós, a produção do "Outro".

Salazar referiu-se aos portugueses fechadinhos, isolados uns dos outros "...combatemos sem espectáculo, sem alianças, orgulhosamente sós". Poderia perfeitamente ter dito "orgulhosamente nós" porque fecharia da mesma forma o cerco, tinha o mesmo sentido. Continuava a construir “o Outro”.

O slogan, que se pretendia inclusivo, acabou por ser altamente divisório, como normalmente acontece sempre que as políticas de identidade se fazem ouvir em detrimento de tudo o resto. Quando oprimidos acusam outros oprimidos de exclusão ao mesmo tempo que aplicam um discurso exclusivo... “combatemos sem espectáculo e sem alianças, orgulhosamente sós”, esquecemos a interseccionalidade das lutas!

O que leva a uma reflexão importante sobre a forma como transmitimos a mensagem. Ter um slogan humorístico e "catchy" é bom. Mas melhor ainda é ter um slogan que transmita a mensagem sem azo a desconstruções e que não fomente ideias contrárias ao princípio de inclusão que é parte da nossa filosofia política. Porque uma boa comunicação, expressa com clareza, é sempre mais importante que um trocadilho.

Não poderia haver pior altura para a ILGA decidir fechar o Arraial Pride sobre si própria: Orgulhosamente Elxs! “Pelo sangue e honra, LGBTQI!”

 

Paula Gil, Precária, Mulher, Feminista, Esquerdista, Pantera Rosa, Doutoranda em Ciência Política