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“Valentim de Barros é também a cara da resiliência”

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Valentim de Barros foi homenageado na 25ª Gala da Abraço. Em cima do palco o actor José Raposo e a escritora Inês Marto deram a conhecer a muitos dos presentes quem foi o bailarino português que passou quase quatro décadas encarcerado no Hospital Miguel Bombarda, em Lisboa, por ser homossexual.

Vítima do regime. Da PVDE. Da homofobia. O dezanove.pt recupera agora o discurso feito por José Raposo no final do número e de autoria da Inês Marto. Fica a saber mais sobre o herói esquecido da História LGBT portuguesa:

 

"Como falar sobre Valentim de Barros? Para mim, escrevendo. Só faz sentido emprestar-lhe a minha melhor voz: a palavra escrita. Não lhe faria justiça se falasse de improviso, não porque não houvesse demasiado a dizer, antes pelo contrário. Não lhe faria justiça se falasse com a minha garganta, porque ele merece um discurso com a força que lhe é justa. Então dou-lhe o melhor que tenho: a palavra escrita e a voz de um actor. A voz de quem é do mesmo mundo que ele. Só é justo assim, através de quem respira tábuas.

Nada disto é um acaso, faz precisamente um ano que começou tudo o que nos faz estar aqui hoje. Foi aqui, na última Gala, que se juntaram os acasos felizes de termos lido o mesmo artigo, do Bruno Horta, e de sabermos que não podíamos deixar de tentar tudo para que a história de Valentim chegasse mais longe. Em boa hora.

Não o conheci. São vagos os registos que existem dele. Ainda assim, foi das pessoas mais inspiradoras que tive a sorte de descobrir. Não, não devia haver “Valentins”. Foi um tremendo crime o que lhe fizeram.

Mas sim, devia haver “Valentins”. Valentim de Barros fica marcado como símbolo de opressão homofóbica, política, normativa. Mas ele foi, é, será, no que depender de quem se bater como nós por o fazer lembrar, muito mais que isso.

Valentim de Barros fica marcado como símbolo de opressão homofóbica, política, normativa.

Valentim de Barros é também a cara da resiliência. Aquele que pintou cenários em lençóis do hospício que o mantinha cativeiro por ser quem era. Aquele que, livre ou não, se manteve fiel a si. Aquele a quem furaram o crânio, e fez da prisão um quarto-camarim.

Valentim de Barros é aquele que dançou na cara do preconceito. Valentim de Barros é aquele que, acima de todas as opressões, continuou a dizer que voltaria ao palco, que voltaria à vida. Valentim de Barros, mais que tudo, é aquele que contra tudo, fez restar sonhos, habitou-se deles, e não deixou de se chamar Bailarino. Valentim de Barros é aquele que, contra um mundo que não o quis, se fez o próprio mundo, ele mesmo.

Valentim de Barros é aquele que dançou na cara do preconceito. Valentim de Barros é aquele que, acima de todas as opressões, continuou a dizer que voltaria ao palco, que voltaria à vida.

E é da maior pertinência continuar a lembrá-lo por isso. Pela gigante injustiça, mas também pelo não abandono de quem era. Enquanto a história dele se ouvir, espero que seja exemplo do que jamais devia acontecer, nesta raça que se apelida de humana. Mas também que, contra isso, dançaremos sem baixar os braços."

 

Inês Marto, escritora