Saltar para: Post [1], Pesquisa e Arquivos [2]

Dezanove
A Saber

As notícias de Portugal e do Mundo

A Fazer

Boas ideias para dentro e fora de casa

A Cuidar

As melhores dicas para uma vida ‘cool’ e saudável

A Ver

As imagens e os vídeos do momento

Praia 19

Nem na mata se encontram histórias assim

A Mulher Trans Negra e a luta que segue por fazer

banner opiniao_Eduardo Pedreiro.png

Tenho vindo a reunir vários pensamentos ao longo dos anos sobre as nossas lutas e movimentos por direitos. Nos últimos dias, dei por mim preso a um: se desconstruirmos as ‘fobias’ e o racismo à sua última variável, verificamos que há um valor em falta. Esse vazio define-as a todas de forma comum: a ausência do princípio que diz que tu tens de olhar para o outro com o mesmo valor com que te olhas a ti mesmo.

 

É lamentável que o All Lives Matter - “Todas As Vidas Importam”, em português - tenha surgido como um movimento que visa minimizar as necessárias viragens sociais e políticas relativamente aos direitos e representação de pessoas negras. ‘Todas as vidas importam’ é um pensamento simples, o mais genuíno e verdadeiro de todos que, infelizmente, foi tornado refém de um discurso fachadamente democrático. Para mim, isto é triste: todas as vidas importam de facto, mas não no sentido de desculpar o privilégio branco. Todas as vidas importam de uma perspetiva educativa, que visa transmitir que este é um valor ausente do nosso discurso comum: a outra vida tem a mesma importância do que a minha; o outro tem o mesmo valor humano do que o eu; somo todos parte da mesma natureza.

Todavia, este não é exclusivamente um delegar de responsabilidades na população cisgénero branca, e permitam-me que explique porquê. Antes disso, porém, farei um breve esclarecimento acerca do que estou prestes a abordar. Clarifico que me refiro a princípios e códigos de conduta válidos para qualquer ser humano. Importa, por isso, que este aspeto permaneça presente na mente do leitor antes de julgar que estou a validar ou desculpar qualquer comportamento discriminatório. Devo ainda esclarecer que emprego o termo ‘agressão’ com o significado de ‘ofensa deliberada a um outro eu’ e não como sinónimo de defesa, pois considero esta consequência da primeira, tal como a ideia de resistência. Finalmente, este texto é escrito por alguém dentro de uma minoria, e não o contrário. Posto isto, tudo a postos. Mergulhemos.

Este caso foi impactante e muito falado nos media em Portugal até ao ano passado. Aconteceu em Coimbra, em 2018. Um rapaz acompanhava o seu namorado ao trabalho, a um shopping no centro da cidade. Havia seguranças, pessoas a passar. Beijaram-se. Um beijo simples de ‘Bom trabalho, vemo-nos logo’. Eles não sabiam o que aí vinha. Aquele beijo foi o motivo para serem atacados por uma família que estava de passagem, de dois homens e uma mulher. Ninguém mexeu um dedo até ao momento em que o sangue manchou o chão. Foram brutalmente atacados, foram para o hospital e, felizmente, este caso foi correta e rapidamente resolvido na justiça para os habituais padrões portugueses. Agora, há um facto que o meu relato ainda não revelou acerca deste episódio. Para os pouco familiarizados com a realidade social do país, Portugal é a casa de inúmeras comunidades ciganas. E aquela era uma família cigana.

Fiquei absolutamente chocado ao perceber que muitas pessoas estavam a disseminar discursos de ódio contra ‘os ciganos’, a reprovar comportamento de agressor com…comportamento de agressor

Este acontecimento originou uma onda enorme de discursos positivos contra a violência por todos os noticiários e redes sociais, entre a sociedade civil e a comunidade LGBTQ+, eu incluído. Todavia, ao mesmo tempo que a violência física era condenada, outro discurso emergiu, quase emparelhado. Fiquei absolutamente chocado ao perceber que muitas pessoas estavam a disseminar discursos de ódio contra ‘os ciganos’, a reprovar comportamento de agressor com…comportamento de agressor. ‘Voltem para a vossa terra’, ‘São uns parasitas’…vozes não apenas da população em geral, mas também de um número considerável de pessoas que entram na sigla LGBTQ+.

O segundo exemplo que trago é também bastante sensível pois toca em vários aspetos sobre os quais tenho pensado bastante. Estamos, atualmente, a atravessar um momento histórico no movimento anti-racista. No meio deste cenário, uma mulher trans negra é brutalmente espancada por cerca de 30 pessoas. Comecei a pesquisar sobre o assunto e vi vários posts no Twitter de pessoas a expor, e bem, o caso. Vi também alguém dizer que sim, devemos dar visibilidade a esta situação, mas agora não porque as atenções do público devem estar centradas nos abusos de autoridade e no racismo. Vi ainda alguém dizer que a situação não merecia destaque porque estava a associar o facto de ser negro à prática de criminalidade, o que era danoso para os objetivos do movimento anti racista. Sim, há outro facto nesta história: os agressores eram homens e mulheres cisgénero negros (se bem me recordo vi uma mulher branca no final, a verificar o que se estava a passar). Enquanto lia o comentário desta pessoa, pensava: uma mulher negra espancada; o agressor é negro, mas a vítima também é. E aí perguntei-me a mim mesmo: então e agora? Este é um mau ‘timing’ para uma pessoa ser atacada, é isso? Podemos começar um movimento porque um cidadão foi morto às mãos de um polícia, mas não porque uma mulher foi absurdamente violentada por uma multidão? Algumas pessoas afirmam que a mulher instigou o conflito e estava alcoolizada. Porém, independentemente do que ela tenha feito ou não, esta mantém-se uma situação de 30 contra 1, não um caso de trinta pessoas a defenderem-se de uma. E agora, rebobino a cassete: uma mulher; uma pessoa que se identifica como mulher; uma pessoa negra. Três variáveis definem este como um caso de uma sensibilidade extrema. Uma mulher que vive num mundo de homens e de convenções de género que definem o macho como forte e a fêmea como inferior. Uma pessoa que escolheu não permanecer um homem, que é agora o considerado género menor. Uma pessoa que vive num sistema que favorece pessoas brancas. A seriedade extrema deste assunto centra-se nisto: esta mulher tem o direito à sua identidade, no entanto ela enfrenta preconceito dentro e fora da sua comunidade. Em todo o lado.

Refletindo acerca de todas as lutas, há uma distinção no discurso entre o que vejo como diferença (isto é, diferença objetiva: a luta social de uma pessoa negra é maior do que a de uma pessoa branca; uma mulher é biologicamente diferente de um homem; a tua pele é mais escura do que a minha) e o que vejo como diferença tóxica (isto é, diferença definida por preconceito: as mulheres são diferentes dos homens e devem ficar em casa; os gays deviam morrer porque são anti-natura; costura é um trabalho de mulher, mecânica é um trabalho de homem; homem é objetivo, emoções são para a mulher). Este é o tipo de diferença que define o discurso racista, machista, homofóbico, transfóbico, xenófobo, etc. Dito isto, é contraditório que pessoas que fazem parte de algum grupo que luta por igualdade o façam numa frente e promovam diferenças tóxicas noutra.

A lição que aprendi até agora é que, sendo parte de uma minoria historicamente oprimida, ao enfrentar situações de discriminação, ao ter sido alvo de ofensas à minha integridade…não é desculpável ou aceitável que eu exerça preconceito deliberadamente contra um outro eu

Numa nota mais pessoal, pensar acerca do meu sofrimento faz-me relacionar com a luta de um outro. Não me sinto no direito de dizer, em questões de identidade, ‘tu não te podes sentir assim’, porque é o mesmo que dizer ‘tu não podes ser tu’. E porque eu sinto o ‘assim’ variadíssimas vezes e houve momentos na minha vida quando o que eu mais quis foi ter alguém que me assegurasse que eu podia colocar em prática e tranquilamente o verbo ‘ser’. A lição que aprendi até agora é que, sendo parte de uma minoria historicamente oprimida, ao enfrentar situações de discriminação, ao ter sido alvo de ofensas à minha integridade…não é desculpável ou aceitável que eu exerça preconceito deliberadamente contra um outro eu. É um paradoxo, uma contradição…um ciclo que perpetua a ausência desse valor fundamental de reconhecimento mútuo como iguais. É, em última análise, uma forma de anular a minha luta por mudança social e política.

E digo deliberadamente porque, qualquer que seja a cor da pele, crença ou identidade, como pessoas educadas num contexto religioso, patriarcal, de privilégio branco, binário, nós temos nos tornar cientes de que talvez existam formas de preconceito sobre as quais não tenhamos sido educados a compreender. E então temos de dedicar a isto um pouco do nosso pensamento e perguntar ao outro onde é o que nosso discurso está a ser danoso. E acreditem, pensar em algo tão primário como a forma como comunicamos com o outro é um passo enorme para começar a compreender tudo o resto.

Muitas das pessoas LGBTQ+ que falaram contra a comunidade cigana são as mesmas que cresceram sem encontrar um espaço saudável para si, enfrentaram violência, são sujeitadas a valores religiosos e económicos que ditam, desde os dias antigos, que o valor humano advém de um homem e de uma mulher que se reproduzem

Há um ano, ainda aceso o assunto dos refugiados de guerra migrantes da Síria para a Europa (do qual as vozes xenófobas e conservadoras se alimentaram), congratulei o Duarte e o Daniel - o casal gay agredido - por usarem a sua voz mediática de um modo muito positivo e construtivo. O casal tornou o seu apelo sobre parar com a violência e a discriminação, ao mesmo tempo que pediam às pessoas para não caírem em discursos de ódio. Disseram-no impecavelmente: o preconceito é uma questão de educação, não de raça, não de etnia (e, acrescento, de género ou de orientação sexual). Muitas das pessoas LGBTQ+ que falaram contra a comunidade cigana são as mesmas que cresceram sem encontrar um espaço saudável para si, enfrentaram violência, são sujeitadas a valores religiosos e económicos que ditam, desde os dias antigos, que o valor humano advém de um homem e de uma mulher que se reproduzem. E esqueceram-se que também são vítimas. Vítimas de um sistema que existe sobre as convenções de género. Vítimas de pessoas heterossexuais, homens e mulheres cisgénero, outros tantos que, por medo ou vergonha, passam a vida em fuga ou negação. De todos os que resolvem o seu conflito a dizer ‘vocês, gays, não deviam existir’, ‘vocês, lésbicas, são horríveis’, ’tu devias estar fechado num manicómio porque não tens um lugar neste mundo, porque não és um homem, és uma aberração’. E não falemos dos preconceitos existentes dentro da própria comunidade, pelos membros da comunidade LGBTQ+ que continuam a viver com uma construção de género binária e sexista, mas isso é um desdobramento que só por si merece outra conversa.

Registo com a mesma positividade todas as pessoas que ergueram a voz para denunciar o caso da Iyanna Dior e se manifestaram contra os agressores cisgénero. E eu não sei se as pessoas daquela multidão estão ativamente envolvidas nalgum movimento anti racista, portanto, avanço com duas hipóteses: ou não estão alerta para o assunto ou então esqueceram-se de que são vítimas de um sistema que opera a partir do privilégio branco e suprime o seu direito à igualdade. E, nisto, mudaram para o papel de agressores ao serem confrontados com uma identidade que questionou o que herdaram da sua educação patriarcal e binária, recusando àquela mulher o exato e mesmo princípio pelo qual todos lutamos.

Precisamos de massificar um discurso mais transversal ou interseccional sobre as diferentes lutas, porque elas têm narrativas históricas distintas

Black Lives Matter (Vidas Negras Importam) é uma causa social legítima e relevante, tal como o é a causa Feminista, tal como o é a causa LGBTQ+. (Para aqueles que ainda não entenderam, elas não são sobre tirar direitos aos brancos, aos homens, ou às pessoas cisgénero e heterossexuais). Estes são movimentos que lutam por respeito, direitos, educação e um sistema que reconheça uma pessoa de forma igual a uma outra. Contudo, é da minha opinião que precisamos de massificar um discurso mais transversal ou interseccional sobre as diferentes lutas, porque elas têm narrativas históricas distintas, porém, aquele valor em falta continua, e assim persiste o dito vazio que define as fundações de cada luta histórica.

A Mulher Trans Negra é a pessoa - o símbolo - que representa e materializa como é que todos estes movimentos se intersetam. Para todos nós: não há como ser agressor, ponto. Para os que não entendem: se alguma vez na vida te sentiste excluído, incompreendido, julgado, perseguido, violentado, oprimido…encontra o teu espaço seguro onde esse assunto possa emergir, por mais pequeno que seja, e pensa nele, pois essa dor é importante para que empatizes com a luta de um outro eu. Para alguns de nós: não podemos ser vítimas de um lado e agressores do outro. Temos de alcançar um ponto em que não haverá forma de ser gay e xenófobo, negro e transfóbico, mulher e racista, parte de uma minoria (étnica ou outra) que procura inclusão e pratica agressão. Isto são tudo contradições e precisamos de nos educar a nós e às nossas comunidades acerca disto. Tu podes não compreender o outro, mas tu tens de o respeitar e, se conseguires, recomendo que te tentes relacionar com a sua vivência. Porque se lutamos por mudança num lado e promovemos diferenças tóxicas num outro, o ciclo perpetua-se: mantemos o ódio e a raiva a circular, ao mesmo tempo que seguimos sem ter presente esse valor de humanidade, essencial ao nosso discurso comum.

Como educadores - porque eu acredito que a nossa missão mais primária é educar as pessoas à nossa volta e além de nós - temos de perceber que uma vez que tenhamos presente esse valor de forma generalizada, estaremos a abalar a base do sistema. E é, por isso, que acredito que é desse espaço de diálogo comum que devemos partir para cada uma das nossas batalhas e para cada um dos nossos dias.

 

Eduardo Pedreiro é artista plástico e designer, natural de Coimbra, enraizado no Porto. Mestre em Arte e Design para o Espaço Público, os seus projetos cruzam os domínios da arte pública, arte política e media art. Como artista queer, dirige-se fortemente à cultura de massas e incide sobre a representação de género e expressão da masculinidade