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António Serzedelo: 50 anos de Stonewall e o activismo em Portugal

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50 anos da Revolta de Stonewall, 28 de Junho 1969, marcam o início das lutas Gays, hoje chamadas LGBT+ pelos seus Direitos Civis e Humanos.

 

Até aquela altura as Repressões, de toda a espécie, eram Sofridas pelos Gays em Silêncio, e em Vergonha, e era assim em toda a parte, inclusive em Portugal, vivendo então  sob o Regime Fascista, pois o 25 de Abril só viria cinco anos depois  .

Naquele  - 28 de Junho - os Gays frequentadores daquele bar, resolveram revoltar-se contra a arrogância da polícia de Nova Iorque e conseguiram, ao longo de vários dias  com a ajuda da gente do bairro  vencer a polícia, e esse é  o marco que hoje recordamos.

Contudo, em Portugal, a imprensa, sob  o jugo do lápis azul da censura, nada referiu, nem a RTP, órgão oficial do Estado fascista de então. 

Nessa altura não havia internet, nem nenhum dos meios de comunicação que há hoje, portanto, não havia maneira  de  alguma pessoa,  eventualmente interessada,  saber do acontecimento. De resto, nem os poucos órgãos de informação internacionais chegavam cá, pois vivíamos num  regime fechado à informação, sendo muito complicado viajar para o estrangeiro.

Mas também diga-se, que  já depois  do 25 de Abril, o General Galvão de Melo, então membro da Junta de Salvação Nacional que nos regia, a propósito do lançamento nos jornais do 1º Manifesto da Homossexualidade a 18 de Maio de 1974, "Liberdade para as Minorias Sexuais", de que fui um dos  subscritores, disse na RTP  que o 25 de Abril" não se fizera para os homossexuais e prostitutas reivindicarem fosse que fosse!". Estamos portanto perante uma declaração de violência de Estado.

Só 10 anos depois apareceu outro grupo que discutia estes assuntos, mas não creio que tivessem alguma informação sobre o evento americano, ainda.

De resto, a Europa estava muito fechada sobre si, e creio que quem dava cartas nesta área, eram os franceses. 

Fui consultar o "Dictionaire des Cultures Gay et Lesbiennes",da Larousse, sob a direcção de Didier Eribon, 548 páginas, 2002, e nem uma linha sobre o evento.

Aquando da discussão da Lei das Uniões de Facto, que foi a primeira grande luta política travada neste campo em Portugal, e  com o  problema da sida, que apareceu repentinamente, houve protestos vários, mas nunca violentos.

Tudo foi sempre uma discussão parlamentar, ou com o Poder, ou  com os organismos de saúde, aliás impreparados para tratar o problema  da sida, sendo que Cavaco Silva, então Presidente, achava que não valia perder tempo e dinheiro com estes doentes.

Não há na nossa tradição de lutas, historial de  confrontos com a polícia.

Já outros grupos têm essa experiência de forma dolorosa, por exemplo as pessoas de etnia africana, e quiçá os ciganos. 

Recordo que o meu  programa Vidas Alternativas que era  feito em directo na rádio Voxx em Lisboa, e Porto, o primeiro programa exclusivamente gay na Península Ibérica, foi violentamente fechado, uma semana  depois de um travesti ter denunciado em directo, que um político conhecido, então ministro, e líder partidário, frequentava  regularmente um colega  da mesma rua. Um amigo do político comprou a rádio e fechou-a  logo a seguir. O programa acabou, sem haver protestos de  ninguém, nem sequer das associações da altura. Hoje prossegue já há 20 anos, e passa em duas rádios.

Entretanto, gente do partido de Extrema Direita e o seu líder têm tentado provocar a violência contra os colectivos  LGBT, mas sem grande sucesso. Inclusive, o líder deles matou um jovem militante do Bloco de Esquerda frente à sua sede. Levou 10 anos de prisão. Preparava entretanto, segundo o Expresso da época um ataque em forma, contra o Rabino judeu da Sinagoga de Lisboa, contra o líder do movimento anti-racista, e contra mim próprio. Caso que foi descoberto a tempo, pela polícia, e ele foi preso com os seus cúmplices. Eu tive de mudar de carro e  deixar de sair à noite, pois podia ser seguido, e evitar todas as rotinas, segundo me recomendaram.

 

Fui consultar o “Dictionaire des Cultures Gay et Lesbiennes”, da Larousse, com 548 páginas, e nunca se refere ao acontecimento dos EUA. Em França passou despercebido, assim como em Portugal e Espanha, também vivendo sob o regime Franquista, igualmente reaccionário.

Hoje o assunto saltou para a ribalta, quanto a mim, por duas razões principais: Trump e Bolsonaro, e a ascensão da extrema-direita na Europa, todos racistas  e com discursos discriminatórios contra as Mulheres e os LGBT. Eles na América, estão à frente de dois Estados particularmente importantes,  e encorajam a violência da população contra estes grupos.

 

As novas gerações de hoje, que têm outras formas de análise, e de informação, lidando  bem com a Internet, elegeram esse evento como exemplo. Muitos deles radicalizados já tem práticas de luta de rua  que querem levar contra as polícias, símbolo da autoridade do Estado, exemplo os coletes amarelos em França. Entre nós fracassaram rotundamente.

A nossa polícia, embora com algumas bolsas de elementos fascistas, não está industriada para a violência  gratuita.

Admito que haja algum grupo radical da nossa ária, e  de estrema esquerda, que defenda este tipo de luta, mas não reflecte a grande maioria dos LGBTI+.

Entendo ainda, que devemos prestar toda a Solidariedade aos nossos irmãos no Brasil, assim como os que vieram para Portugal, fugindo a essa violência do Estado, impulsionada por Bolsonaro, pelo seu partido, e pelos evangelistas mais reaccionários, que aliás, também já estão em Portugal.

Devemos prestar toda a Solidariedade aos nossos irmãos no Brasil, assim como os que vieram para Portugal.

Lembro ainda a 20ª Marcha do Orgulho, do próximo dia 29 de Junho, em Lisboa, celebrando esse Evento, bem preparado como foi, à exaustão, por um grupo de militantes, em geral jovens, que  vai ser mais um exemplo de Luta Política, Pacífica e Calorosa pelos Direitos Humanos de todos os excluídos .

Logo um sucesso!  

A Luta continua!

 

António Serzedelo, activista

 

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