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Dark rooms: cultura LGBTQI+ às escuras?

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Muito antes do Manhunt, do Grindr, do Scruff, ou do Tinder redefinirem as possibilidades de articulação entre homens gays, já os dark rooms – e outros espaços de cruising (saunas, bares, drag balls, discotecas) – existiam como espaços de construção de cultura, de fomento político-ideológico, e de resignificação das identidades LGBTQI+.

 

Desafiando o pensamento repressivo que tende ainda a vê-los como lugares de luxúria, de decadência e de perversão, variações de Sodoma e Gomorra, permanecem estufas eróticas em fogo. Porque são espaços onde nos unimos fisicamente através do sexo, afectivamente através do amor – dos diferentes tipos de amor: pragma, ludus, agapé… –, e mentalmente através da imaginação. Tanto que daí decorre qualquer coisa de vivo (muitas vezes, qualquer coisa de novo): um sentido de identificação positiva, de autenticidade, de orgulho e valorização identitárias, um sentido de comunidade e de pertença, um sentido de continuidade histórica. Espaços de reunião queer são, em essência, espaços de rejeição de armários e de mordaças, de rejeição de experiências de isolamento e de vidas duplas, de quem acredita estar sozinhx na sua identidade e teme aceitar a própria verdade. São espaços onde aprendemos a ser quem somos.  

Vividos como ‘bolsas de oxigénio’ e santuários de liberdade, aqui os HSH (“homens que fazem sexo com homens”) podem explorar, desenvolver e expressar as suas identidades sexuais, onde se podem transformar e se podem assumir de forma consistente com o seu verdadeiro ‘eu’, sem o castigo dos julgamentos negativos ou das condenações homofóbicas. Santuários políticos abertos às minorias, onde a cor da pele não tem mais importância do que o status social, onde os géneros se podem expressar sem máscaras, onde o sexo é liberado e sujeito a inovações, protegidos do machismo da sociedade, sem interferência de qualquer fonte e sem hipocrisia. Lugares de homenagem à história e à experiência LGBTQI+.

Espaços de reunião queer são, em essência, espaços de rejeição de armários e de mordaças, de rejeição de experiências de isolamento e de vidas duplas, de quem acredita estar sozinhx na sua identidade e teme aceitar a própria verdade. São espaços onde aprendemos a ser quem somos.

Contra as forças ameaçadoras que, durante séculos, nos vêm insultando, nos vêm negligenciando, nos vêm reprimindo e perseguindo, estes espaços são marcos de resistência contra o preconceito, o estigma, e a discriminação da sociedade heteronormativa homofóbica, de afirmação, de refúgio e de protecção, de liberdade e de esperança. É através destas experiências que muitas pessoas se permitem gerir, com aceitação e maior leveza, potenciais sentimentos de homofobia internalizada, e avançar nos seus processos de ‘coming in/out’.

Ao longo do tempo, estes pontos de cruising escurecido tornaram-se mais abertos e mais orgulhosos, resultando na promoção de um modo de vida em que a proximidade é sagrada. Pois quando se vive alienadx da família ou da comunidade, quando a realização dos desejos é estigmatizada, a procura de conexão e prazer torna-se essencial para a sobrevivência.

Na medida em que desafiam o discurso normalizador e possibilitam a assunção de novos papéis, os dark rooms são formas de territorializar a nossa necessária visibilidade no cenário social e político. Enquanto arenas políticas, são termómetros significativos de quão púdica – e mesmo hostil – uma comunidade pode mostrar-se em relação ao sexo e à importância do reconhecimento social das minorias. Endemonizá-los e suprimi-los da história é coarctar uma compreensão lúcida da própria evolução social da humanidade.

A base da censura sexual que vem interferindo com as liberdades constitucionalmente garantidas de consciência, opinião e expressão está em acreditar que os impulsos sexuais conflituam inescapavelmente com outros objectivos construtivos de carácter pessoal ou social é. Inversamente, estes espaços mostram-se a favor de que o puro reconhecimento e expressão mais livre destes impulsos são essenciais para o nosso bem-estar, saúde mental e progresso social; de que longe de perturbar o indivíduo e a sociedade, a liberdade é um valor positivo.

O aparecimento das dating apps, o aumento das rendas e, mais recentemente, o ‘apagão’ económico decorrente da pandemia, tem levado ao gradual desaparecimento dos darkrooms e de outros espaços semelhantes, perigando a nossa história e identidades. A segurança que estes pontos de contacto tangível permitem à comunidade LGBTQI+ não é suplantável pela emergência e massificação das tecnologias. É inegável que os recursos tecnológicos aproximam pessoas, geram reencontros, diminuem distâncias, pontuam referências, firmam networks e abrem oportunidades de crescimento pessoal e profissional. É também inegável que levam a novas formas de identificação, de construção da individualidade, e de reforço ao reconhecimento e pertença; também a troca rápida de informações e actualização do estado do mundo em tempo real facilita a decisão de participação em campanhas e actividades de interesse, conferindo-nos uma agradável sensação de controlo, e a diversificação de opções de lazer e entretenimento oferece-nos um recreio mais vasto e apelativo à celebração da liberdade individualista.

É inegável que os recursos tecnológicos aproximam pessoas, geram reencontros, diminuem distâncias, pontuam referências, firmam networks e abrem oportunidades de crescimento pessoal e profissional.

Mas paradoxalmente, é do ovo destas novas oportunidades de aproximação que nasce um dos problemas mais sérios que a actualidade oferece à formação de cada cidadão/cidadã: o adoecimento do afecto – manifesto no défice do desenvolvimento de competências sócio-emocionais, na dificuldade de procurar, iniciar e manter um diálogo, na estranheza diante do Outro, no isolamento, na solidão, no tédio, no perfeccionismo, na desestruturação da unidade psicológica, na debilitação da capacidade de valorização pessoal, e na perda do sentido da vida. Deslocadas para o domínio digital, muitas são as pessoas que nele se refugiam, chegando até à dependência patológica, agravando o défice na socialização face-a-face, sobretudo quando há incapacidade de busca de relações no mundo real, provocando um vazio intersubjetivo de estar-com.

Paradoxalmente, é do ovo destas novas oportunidades de aproximação que nasce um dos problemas mais sérios que a actualidade oferece à formação de cada cidadão/cidadã: o adoecimento do afecto.

Nesta linha, a concentração exclusiva num Grindr ou num Tinder tende a gerar uma dissociação cada vez maior entre as pessoas e o momento presente, ao mesmo tempo que as encaminha para o preferencial interesse de um estar-a-par sobre a compreensão profunda e significativa da realidade – nomeadamente a realidade sócio-política. Além disso, há pessoas que não têm acesso à internet, que não possuem computador ou telemóvel, e que não sabem ler – persistir na publicitação destes recursos é boicotar o movimento colectivista dos públicos LGBTQI+ numa lógica selectiva, não-inclusiva, à semelhança do que faz a sociedade mainstream.

Se a aventura do afecto pressupõe não só uma abertura ao Outro mas também uma (re)descoberta dx próprix através do Outro, o desafio que o défice de socialização nos apresenta parece exigir toda uma ética voltada para a alteridade, numa experiência de contacto real e mais humano. Daí a importância de apoiar e celebrar estes espaços. Espaços, em Portugal, como o Drako Club, o bar CRU, o Zero Tabus, a Sauna Thermas 205, a Sauna Camões, a Sauna Prime Bath, o Bar TR3S, o Lusitano, o Zoom, e muitos outros. O futuro dos espaços LGBTQI+ está na força empreendedora dxs que se encarregam de subverter a vergonha homofóbica para recriá-los – seja através de festivais de cinema, de cerimónias, de festas, de mensagens discursivas, e claro, da arte.

Reclamar este poder é o objectivo do meu último projecto ‘MALLORCA HEATWAVE’, ainda no prelo. Trata-se de um projecto selfietográfico encomendado pela Tale of Men Magazine, a partir da descrição de uma experiência sexual num dark room, que será divulgado no perfil de Instagram ‘Eroticarium’ (@kinky_lharias). Mais do que uma homenagem, um alerta e um apelo à determinação de não deixar morrer os espaços que têm definido as nossas identidades, os nossos percursos, e a nossa história.

 

Carlos Marinho

Psicólogo clínico, criador artístico freelancer e activista

 

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