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Feminismo: “Homens de qualidade não temem igualdade”

Diogo Melo Ferreira

A importância do feminismo para os homens e o seu papel no movimento.

 

O feminismo existe como movimento de combate ao machismo, e o machismo existe porque existe quem acredite na superioridade do sexo masculino em relação ao sexo feminino. Se queremos atacar o problema da desigualdade de género na sua raiz, não podemos esquecer o papel do sexo masculino no movimento feminista, assim como a importância e benefícios do movimento para os próprios homens.
Como pessoa do sexo masculino, e como homem cisgénero, cresci a ouvir “Faz-te homem!”, “Pareces uma menina a chorar, homem não chora!”, “Não podes vestir cor de rosa porque é cor de menina!”, “Não sejas coninhas!” (até o órgão genital feminino é utilizado como forma de insulto e fraqueza), tudo isto tem um nome: masculinidade tóxica. Além do discurso ser extremamente machista e denegrir a Mulher, incute-nos, aos rapazes, valores de masculinidade completamente estereotipados e tóxicos que não só nos afectarão a nós como a quem nos rodeia, para o resto das nossas vidas — a não ser que sejamos capazes de os desconstruir.

Não é por acaso que a taxa de suicídio é significativamente maior no sexo masculino do que no sexo feminino, como nos mostra o relatório da Organização Mundial de Saúde (2019) sobre o suicídio. A inibição das emoções, o medo de ser rotulado de “fraco” ao mostrar sentimentos, receios, dúvidas e anseios e a ideia de que a transparência e a vulnerabilidade são características femininas, são narrativas perpetuadas pela masculinidade tóxica em sociedades machistas e patriarcais que explicam a grande taxa de suicídio do sexo masculino e que nos mostram os perigos deste tipo de educação tóxica.

Mas afinal, o que é que os rapazes e homens podem fazer para se livrarem destes estereótipos enquanto, simultaneamente, lutam contra as desigualdades entre géneros? Bem, um grande passo seria abraçarem o feminismo. Os homens (nomeadamente os homens cisgénero) são os maiores perpetradores de comportamentos machistas e de violência contra mulheres. Ao abraçar o feminismo, ao educarmos rapazes para crescerem como homens feministas, estamos a educar as futuras gerações na base do amor, da igualdade e do respeito perante a diferença. Para que isto aconteça, é fulcral reconhecer o privilégio masculino — tal como temos de reconhecer o privilégio branco para lutar contra o racismo. O Homem precisa reconhecer o seu privilégio masculino, desmantelá-lo e, finalmente, reconstruir-se como ser humano.

O Homem precisa reconhecer o seu privilégio masculino, desmantelá-lo e, finalmente, reconstruir-se como ser humano.

No livro de Jens van Tricht intitulado “Feminismo é bom para os homens”, o autor afirma que o feminismo não se resume a melhorar a qualidade de vida das mulheres, mas também a libertar os homens (e todxs, no fundo), dos estereótipos opressivos que nos incutem desde o nascimento. Para os homens, o feminismo pode servir de inspiração para melhorar relacionamentos — sejam amorosos ou de qualquer outra natureza —, tornando-os mais justos, igualitários e cooperativos, assim como ajuda a criar uma maior partilha de responsabilidades e tarefas, muitas vezes estereotipadas como “femininas”. Finalmente, o feminismo contribui também para a redução dos vários tipos de violência contra as mulheres.

A participação e apoio dos homens no movimento feminista ajuda no fortalecimento do mesmo. Isto não significa que os homens assumam uma voz mais importante do que a das mulheres dentro do movimento, muito pelo contrário: é ajudar à luta e ajudar a dar voz a um sexo que tem sido, década após década, silenciado: o sexo feminino. Além dos vários tipos de activismo feminista possíveis, deve-se destacar o importante papel dos homens ao desafiarem comportamentos machistas de outros homens, sejam familiares, colegas ou amigos, seja chamando a atenção para um piropo, seja denunciando um crime de violência de género levada a cabo por outro homem, apoiando a vítima (ou sobrevivente).

Deve-se destacar o importante papel dos homens ao desafiarem comportamentos machistas de outros homens, sejam familiares, colegas ou amigos, seja chamando a atenção para um piropo, seja denunciando um crime de violência de género levada a cabo por outro homem, apoiando a vítima (ou sobrevivente).

No livro “Sejamos todos feministas”, a autora feminista nigeriana Chimamanda Ngozi Adichie afirma que os homens precisam de entender o feminismo para poderem intervir em situações de micro-machismos, em que acontecem várias diferenciações baseadas no género. A autora também afirma acreditar numa mudança da cultura de subordinação feminina em que vivemos há séculos para uma cultura e sociedades mais igualitárias, visto que a cultura está em constante transformação. Chimamanda termina a sua obra com a frase “A meu ver, feminista é o homem ou a mulher que diz ‘Sim, ainda existe um problema de género hoje em dia e temos de resolvê-lo, temos de melhorar’. Todos nós, homens e mulheres, temos de melhorar”.

O papel do Homem é lutar contra a objectificação da Mulher; é reivindicar a liberdade de expressão e lutar pela igualdade salarial e de oportunidades; é impor-se perante o seu privilégio injusto baseado no seu sexo e género; é ajudar a dar voz a milhões de mulheres silenciadas todos os dias; é desafiar comportamentos abusivos, mesmo que não sejam a vítima direta; é falar perante situações e comentários machistas; é, no fundo, entender que o feminismo não é um movimento contra os homens, mas a favor da igualdade.

O feminismo não é um movimento contra os homens, mas a favor da igualdade.

É importante entender que o feminismo não é uma luta entre sexos. Os homens e as mulheres têm de entender que o feminismo é uma ideologia inclusiva, humana e interseccional. O Homem tem de compreender que o seu papel na sociedade tem de ser muito mais do que existir num ambiente tóxico e ignorar essa toxicidade. Defender os direitos das mulheres é uma questão de defender os direitos humanos, cujo interesse é de todxs.
Dito isto, é importante rematar com o básico: o lugar de fala no feminismo vai ser sempre da Mulher. A Mulher é a principal vítima do machismo e das sociedades patriarcais, é o sujeito que sofre, diariamente — directa ou indirectamente —, vários tipos de violência de género. A voz deve, e tem, de ser da Mulher, mas isso não significa que o Homem não desempenhe um papel crucial no desmantelamento dos vários tipos de ódio de género, ajudando a combater um problema cultural e estrutural de forma mais eficiente. Juntxs somos mais fortes.

 

Diogo Melo Ferreira, feminista interseccional, anti-fascista e anti-racista