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Goucha: "Não sou, não quero ser nem nunca serei bandeira de coisíssima nenhuma. Eu não me guetizo. Sou contra os guetos"

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A nit.pt esteve à conversa com Manuel Luís Goucha, actual apresentador do Big Brother, que faz dupla com Cláudio Ramos. Um dos temas falados foi precisamente o programa, as declarações de Quintino Aires e a importância de haver representatividade num programa televisivo com a dimensão do Big Brother.

 

Relativamente às afirmações de Quintino Aires, que o levaram à expulsão como comentador do reality show, Goucha referiu que “o perigo das nossas opiniões torna-se maior quando procuramos generalizar. Não podemos generalizar. E penso que muitas vezes o Quintino é mal interpretado quando as suas afirmações nos levam à generalização. Eu penso que as afirmações dele terão sido a gota de água para uma série de casos anteriores. Eu sinceramente não sei se o teria cancelado do programa, mas não é a mim que me cabe esse tipo de decisões.”

Quando questionado sobre a importância de haver representatividade LGBTQI num programa com esta dimensão, Manuel Luís Goucha afirmou que “é um trabalho importante mas temos cada vez mais de trabalhar para que não seja um assunto”. Neste sentido, referiu que “o facto de eu ser homossexual não me faz nem mais nem menos do que qualquer outra pessoa. Estou integrado numa sociedade que é a sociedade portuguesa. Não sou, não quero ser nem nunca serei bandeira de coisíssima nenhuma. Eu não me guetizo. Sou contra os guetos. Nunca na minha vida me guetizei pelo facto de ter uma orientação sexual. A orientação sexual não me define e portanto eu não sou bandeira de uma comunidade, seja ela qual for.” Goucha disse concordar com Quintino Aires: "eu sou homossexual, integrado numa sociedade. E é para isso que temos de caminhar. Com certeza que a comunidade LGBTQI+ — mais não sei quantas letras a seguir, porque vão sempre acrescentando letras consoante a comunidade vai sendo enriquecida —, com certeza que tem feito um grande trabalho". O apresentador quis ainda deixar claro que “ eu sei que não sou bem visto pela comunidade e estou-me absolutamente nas tintas.” Adiantou ainda que “(…) tenho a certeza de que com a minha postura, terei sido o primeiro apresentador a assumir uma relação homossexual em público, e de certeza que a minha postura diária, mesmo quando estou ao lado do Rui num programa de televisão, faz mais pela comunidade LGBT do que muitas pessoas da comunidade LGBT que têm posições de radicalismo”. Ainda relativamente a este assunto, Manuel Luís Goucha referiu que compreende a luta mas não tem que pertencer a uma comunidade. Para terminar, o apresentador afirmou que tem “a certeza absoluta” de que a sua “prática diária que é de absoluta normalidade faz mais por essa comunidade do que muitos elementos com discursos radicais.”

De facto, a posição de Manuel Luís Goucha face a este tema não é nova. Em 2016 afirmou: “Entendo as paradas gay, mas não participaria” (vídeo)

Cinco anos depois parece continuar a haver uma falta de consciência das dificuldades e das múltiplas discriminações pelas quais muitas pessoas LGBTQI passam diariamente. Acreditar que a sua prática diária, de “absoluta normalidade” faz muito pela comunidade poderá traduzir-se em ter a sorte de viver numa bolha de privilégio. É preciso bem mais do que isso bem como deixar de associar a comunidade LGBTQI a discursos radicais, o que serve apenas para perpetuar estereótipos.

Recorde-se que em 2014 Manuel Luís Goucha ganhou o Prémio dezanove.pt para Personalidade do Ano e em 2013 o Prémio Arco-Íris da Associação ILGA Portugal.

 

Sara Lemos

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