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Guilherme Kastrup: “A música consegue conexões lindas, é vibracional”

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O produtor, músico e compositor Guilherme Kastrup esteve em Lisboa para um conjunto de concertos e uma masterclass de produção musical. Na passagem pelo Crew Hassan contou ao dezanove que o golpe da direita fascista do Brasil o obrigou a posicionar-se e a sair do armário. Gay activista e militante de esquerda, Kastrup, considera que a música é a arte da criação de ligações que reverberam um mundo de esperança.

 

Quando entrei no estúdio antes da entrevista já se estava a ensaiar. Kastrup na bateria, Mila Dores a cantar e Netão com as mãos no ar. Avisei que estaria no bar à espera para a nossa entrevista. Kastrup veio e a simpatia contagiou a conversa. Para Kastrup estamos numa fase de mudança e o tempo de transição será agarrado pelos paradigmas femininos. Mas afinal quem é o Kastrup?

 

Baterista prodigioso estudou no Conservatório de Música Vila Lobos, em Santos, São Paulo e desde cedo entendeu que não podia ficar confinado aos ditames da música erudita de tradição europeia. Led Zappelin, Black Sabath entre outras bandas influenciam Kastrup. Dessa influência até ao Jazz e ao Samba foi um saltinho. “Quando eu já fiz 18 anos eu já gostava muito, fui descobrir a música brasileira por aí, através do Nana Vasconcelos e do Hermeto Pascoal é que eu fui parar ao jazz assim mais é que eu fui redescobrir, Milton, Caetano, Gil, pessoas que eu não tinha ouvido mais do que na primeira infância”. É nesta fase que Kastrup começa a estudar as influências negras no samba, frequenta terreiros e rodas de samba. Essa trajectória é essencial para chegar a mexer no samba do ponto de vista da sua estética. “Para você descobrir isso e estudar essas coisas eu precisei de sair da escola, acabando a minha faculdade talvez nos primeiros carnavais de Recife. Aí disse, preciso de parar um pouco com a academia e montar a minha academia própria, na rua, na música de terreiro e na música de bloco de sambista”. A música popular brasileira e a música de folguedo carnavalesco foram aqui decisivos. As heranças de Kastrup vão constituir a base para caminhos diversos. “Como músico urbano, seja do Rio seja de São Paulo, recebe essas influências múltiplas. Não tem exactamente um género que seja. O Rio até tem uma ligação realmente muito mais forte com o samba, São Paulo já é uma cidade mais metropolitana, multi-versa. Então a gente recebe muitas inflências de todos os lados e eu tenho, gosto disso, né. Eu como ouvinte eu gosto de às vezes estar numa festa de música electrónica, às vezes estar numa festa de música popular, de ouvir pimba (risos) de ouvir fado, eu gosto mesmo”.  Depois trabalhou com inúmeros projectos músicais que deram outras matizes ao samba contemporâneo brasileiro. Kastrup está nessa primeira linha de cumplicidades que o fará chegar a Elza Soares e ser responsável pelos dois últimos álbuns da cantora de samba.

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Mas, voltemos ao Crew Hassan. Kastrup trabalha com as suas cumplicidades. O ambiente político dos últimos anos deixou-o um pouco desesperado. Mas subitamente um livro ajuda-o a pensar e reflectir em alternativas. Ponto de Mutação é o nome do álbum do último disco de Kastrup, mas é também o título de um livro do físico americano chamado Fritjof Capra. “É um livro que trata a matéria do ponto de vista sistémico. No fundo, é a ideia de que todos nós como indivíduos somos sistemas e que temos uma certa estabilidade para nos chamarmos de indivíduos que estão em troca com outros sistemas vivos que nos rodeiam. A atmosfera, a terra, né, que também é um sistema vivo. Na compreensão deste, a humanidade como um todo também é um sistema que é transformação de um estado para outro. A gente está num final de um período, no final de uma era e de entrada numa nova era. Entre muitas coisas que se falam da entrada numa nova era é que a gente está sendo dominado por certos paradigmas Yang, da competitividade, da agressividade, da guerra, do patriarcado a dominação por paradigmas masculinos para a entrada numa nova era que seria no seu contraponto uma era mais movida pelos paradigmas Yin, mais nesse caso femininos, da sensibilidade da intuição, do amor. O tempo é das mulheres”.

 

A gente está num final de um período, no final de uma era e de entrada numa nova era. Entre muitas coisas que se falam da entrada numa nova era é que a gente está sendo dominado por certos paradigmas Yang, da competitividade, da agressividade, da guerra, do patriarcado a dominação por paradigmas masculinos para a entrada numa nova era que seria no seu contraponto uma era mais movida pelos paradigmas Yin, mais nesse caso femininos, da sensibilidade da intuição, do amor. O tempo é das mulheres”.

 

Ponto de Mutação

A música é a ferramenta das culplicidades. Kastrup fomenta-as. No Crew Hassan estava com a cantora portuguesa Mila Dores e com Netão o roady que tem acompanhado Elza Soares e muitos músicos brasileiros ao longo de décadas. “É uma coisa assim sensorial para mim. Eu adoro trasitar entre universos. A gente começou a tocar, por exemplo, vamos montar esse show e vamos estar aqui, vamos montar uma coisa juntos e de facto quado a gente botou as músicas junto, eram universos muito diferentes, mas aí quando a gente começou a tocar, achamos nossos pontos de contacto, as nossas ligações, a matéria flui, porque a relação humana é muito intensa, então a gente esquece as diferenças acha as particularidades em comum e aí pronto, encaixa e vai”, refere Katrup já com Mila e Netão à mesa da nossa conversa.

Mila Dores corrobora esse contágio da música nos corações das pessoas, “é uma experiência espectacular e é entrar noutro universo e depois eu sinto-me muito grata porque o Kastrup passa, toca e a energia eleva”.

Guilherme Kastrup vai continuar a aprofundar o ponto de mutação da sua música para o pensamento anti-capitalista, feminista, LGBTQI e pelas ancestralidades negras que tem o Brasil como expoente máximo. Mas Portugal também leva um alerta. “Cuidado que essa acção do fascismo é internacional e movida por associações internacionais. Eles vão chegar a Portugal, não tenha dúvida e quando eles estão calados é quando eles são mais perigosos. Eles articulam a base do que é associação de media com sistema jurídico como eles estão a fazer em todos os países. Vocês são dos últimos redutos de esquerda da Europa e do mundo, então é importante para todos nós como refúgio, como apoio, como força de manutenção”.

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A música e os seus poderes transformadores. Kastrup já tinha percebido quando fez a produção dos álbuns de Elza Soares, “Mulher do Fim do  Mundo” e “Deus é Mulher”. A música pode transformar corações, “conexões musicais e pessoas que vão-nos ligando e a música tem isso de muito bonito porque ela é vibracional. A gente toca e às vezes essa vibração que a gente emite encosta numa pessoa lá do outro lado do mundo”. Sempre que passa por uma cidade gosta de promover oficinas de produção musical. Em Lisboa, será no estúdio Haus e decorrem por estes dias de calor de finais de Julho. Uma oportunidade para Kastrup criar ligações e reforçar o ponto de mutação com a música como ferramenta.

 

André Soares