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Nem na mata se encontram histórias assim

I drag myself, e tu?

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Quantos de nós não reaprendemos a existir e a viver no nosso corpo, no nosso género e na nossa sensualidade com a ajuda destas magníficas divas, as drag queens?! Quantos de nós nunca tivemos um frozen stare moment a vê-las nas suas performances contagiantes, livres de preconceito e de normas sociais?!

Nesta gender fluidness que a arte do drag invoca, afirma e proclama, nascem reivindicações que se espalham pelo mundo inteiro, despertando a nossa fierceness, e por vezes, o nosso verdadeiro eu! Sem julgamentos, sem erros e sem vergonhas…bitch, God makes no mistakes! Expressa-te ao mundo: I’m a fucking woman! Escolhe ser livre e own it girl!

Drag é, acima de tudo, uma forma de arte! É uma representação daquilo que Marta quis que fosse: a manifestação do seu alter ego Velvet Thunder!

Habituámo-nos a ver as performances das queens executadas pelo universo masculino e, o desafio proposto foi ajudar na desconstrução deste cliché que invariavelmente se enraíza nas nossas representações desta “troca” de género.

Acima de tudo, não quisemos roubar o palco a ninguém, apenas o pedir emprestado para fazer nascer uma diva! Obrigado Marta pela determinação e pela magia contagiante que nos proporcionaste. E com esta eu vou… Sashay away!

 

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dezanove: fala-nos um pouco sobre ti e como é que te enquadras neste projecto de drag for a day?

Velvet Thunder: Eu tenho 29 anos, não me identifico como mulher, identifico-me como non-binary, genderless e andrógena, o que faz isto ainda mais interessante... acho eu… pelo menos para mim.

Gosto muito da comunidade queer, adoro as drags queens, nunca fiz drag à séria, só um pouco de me maquilhar um bocadinho mais, ou do género, e é essa a minha relação com o drag.

 

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E teres a hipótese de fazeres uma experiência drag queen ou drag king, porque elegeste a queen e como te sentes enquanto te vês a transformar?

Sinto-me.... sinto-me bem! Eu ontem estava a pensar nisso e acho que para mim, pessoalmente não me identificando como mulher, acho que é uma forma interessante de eu experienciar o feminino...e se calhar ajudaria mais a aceitar este meu feminino que deve andar por aqui, (risos)... a encontrar-me quiçá. Ou seja, eu sei que não me identifico como mulher, mas não me chateia saber que biologicamente sou mulher e esta experiência é uma maneira de ser feminina que se calhar até vou gostar sem me chocar. Nunca me fez sentido o feminino. Mesmo em relações, até mesmo ao nível sexual, o meu corpo não faz sentido para mim. Ter peito para mim não faz sentido, o meu útero não me faz sentido... como vês isto tudo dá-me batalhas interiores e exteriores muito grandes. Portanto sem género ou genderfluid.... nem eu sei..., vou-me descobrindo um pouquinho a cada dia, vou-me actualizando, digamos.... Também houve uma altura...bem.... eu sei gosto de mulheres e gosto de homens, se calhar sou bissexual, ok, já percebi que não gosto pelos seus corpos, mas sim mesmo pelas pessoas, se calhar sou pansexual, apaixono-me pela personalidade, por aquilo que elas são. E às vezes importo esta lógica de pensamento para a minha identidade de género...

 

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Já equacionaste a hipótese de seres uma pessoa trans?

Já e também não sou. Eu não quero ter um corpo de homem! O masculino para mim também não faz sentido. Se eu tirasse o peito e fosse flat, também não me faria muito sentido! Eu estou no meio... é super difícil de explicar…, mas neste momento e agora identifico-me como non binary.

 

Marta, mas asseguro-te que não é difícil de compreender! Muitos leitores sentem o mesmo que tu… não estás sozinha nessa “incerteza” chamemos-lhe assim, aliás há um mundo inteiro de pessoas que partilham dessa tua existência e forma de viver!

Sim... e também quero acrescentar que parte de eu me sentir bem comigo própria, foi o facto de eu me deixar de preocupar com os que os outros pensam! E a partir do momento em que eu deixei de obrigar-me a balizar pelas normas sociais e de querer uma gaveta, mesmo que esta gaveta fosse não binary, eu não tenho que ter um label, eu não tenho que dizer a ninguém com quem me envolvo sexualmente, ou o que tenho no meio das pernas e como é que o uso, eu não devo nada a ninguém, apenas a mim mesma e para já vamos andando assim... até mesmo dentro da comunidade queer por vezes perguntam-me, então mas tu és o quê? Quais são os teus pronomes?... e eu não tenho respostas porque eu própria não sei… e vamos andando assim, mas hei-de encontrar a resposta e alternativas de existência (risos) dentro da sociedade que temos!

 

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E como achas que vai ser a reacção do público a esta experiência?

Acho que é importante as pessoas, que se encontram na mesma situação que eu, terem oportunidade de explorar os seus lados, os seus géneros e sem medos. Eu vejo o drag, independentemente de ser homem ou mulher a fazê-lo, uma forma do exagero, do artístico, do fantasista e um pouco como o role play do género. Para mim e como já referi, não me identificando como mulher, é uma maneira de eu explorar o feminino, sem sentir que devo nada a ninguém, sem obrigatoriedades do papel de género ou da expectativa social. Só porque nasci com o sexo feminino e tenho um corpo sugestivo de mulher não sou obrigada a ser mulher na construção social que isso envolve. É uma constante prisão esta coisa do tens que e deves de, é horrível e eu sou completamente contra isso!

No meu dia a dia já sou bastante alternativa aos estereótipos de género. Uso o cabelo e as sobrancelhas rapadas, visto-me com roupa de homem ou de mulher consoante a alma manda e não a sociedade, por isso, sim, é natural que estejamos um pouco fartos da ovelhices das gavetinhas da sociedade. E não, não são actos de rebelião este meu alternativo, sou eu, uma pessoa não binária que existe e vive imersa num mundo onde tudo está feito apenas e somente para duas gavetas, a masculina e a feminina, para os outros.... não há gavetas, há armários! (risos)

Quero apenas acrescentar que no dia a dia, mesmo quando me visto como mulher isso não me faz sentir feminina... não sei se para ti isto faz sentido.... mas também não sinto necessidade de me encaixar em estereótipo nenhum.

 

À medida que te vês emergir nesta nova persona.... tens em mente algum nome artístico?

Hummmm.... ainda não sei…. mas sabes que eu tenho um nome para drag king, que é Giovanni. Às vezes, em casa, drago-me de homem, mas esta mulher que está a nascer... talvez Velvet Thunder!

Para já, acho que esta experiência me vai ajudar a encontrar o empoderamento no feminino, que eu nunca encontrei.... esta parte do andrógeno é a minha zona de conforto, é um lugar que me sinto segura por não me identificar com nenhum género.... o que está por dentro conecta com o que está a por fora percebes?!

 

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Uma última pergunta… porquê uma experiência de drag e não uma de beauty make up?

Porque o beauty é o normal, digamos assim… é o vulgar, é o que eu uso se tiver que fazer para alguma ocasião. Essa Marta já eu conheço… e eu já tive o normal como o vestir-me como mulher, o maquilhar-me como mulher, o agir e pensar como mulher… e nunca funcionou, ou seja, mais vale ir ao extremo do polo onde eu vou buscar a garra e o meu alter ego e por contágio tudo aquilo que aprendi com as queens…

 

Que é?

A ter uma grande C.U.N.T. (aka: Charisma, Uniqueness, Nerve, and Talent)

 

Créditos:

Makeup Artist: Beatriz Branco @beatrizbranco.makeup

Fotografia: Beatriz Martinho @beatriz.martinho.photography

Modelo: Marta (Velvet Thunder)

Texto: Vânia Cavacas Pires, ally por vocação, defensora por missão

 

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