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James Bidgood: Holofotes do anonimato

Pink Narcissus. 1.jpg

Desejamos com o pensamento. Sem uma cadeira que venha no encosto a função: director. Tal sonho é do artista, que filmava em seu apartamento em Nova Iorque, achamos que foi assim, pois sua biografia, existem inúmeras lacunas, como a vida.

Ele realizava suas tomadas, antes da revolução digital, invadir os cotidianos que dividimos, na virada dos anos sessenta e começo da década de setenta do século passado (em analogia similar com agora) onde o acesso da fotografia e vídeo, tinha apelo diferente. Logo, o cineasta, confiamos pela imaginação, pensou o muso de sua história por vídeo, vendo a cidade da Estátua da Liberdade olhando para o mar, tampouco seus moradores, enquanto ser livre levanta inúmeros questionamentos, inclusive na sétima arte, talvez dúvida eterna. Conviveu o artesão imagético, bastante com os seus personagens, nos quais trouxe para o que narrou, durante alguns anos, seleccionando por meio de quadros coloridos, degradações da cor rosa.

James Bidgood, como acreditemos, ser seu nome, fugiu dos questionamentos inerentes da obra artística. Depois do lançamento do seu filme mais conhecido, tardou décadas para declarar-se autoria, quem sabe caso o director não escondeu uma outra gravação vindoura, que ainda não ganha a posterioridade. Fita rodando, virara coqueluche de quem admira arte ao passo que pornografia gay – os cinemas adultos insistiam em suas exibições, é excitante e cult – a miragem do artista aumentou durante os anos, quem sabe porque antes de criar cada uma das tesudas imagens, atracção que mistura clichés homoeróticos, por ângulos e temáticas, recria outras versões, que exacerbam a incoerência, o masculino, o tempo, a vaidade. Conjecturemos: ele conhecia os bastidores dos meios do entretenimento e mídia, inclusive veio desses, seu aperfeiçoamento da fotografia, rompendo o 2D. Lenda, ressurgida pela internet, pessoas que admiram, iniciavam os holofotes do anonimato ao cineasta, no qual não filmou por completo mais, idem a própria utopia.

Pink Narcissus. 2.jpg

Pink Narcissus (1972), utiliza do delírio, para estabilidade do fio narrativo. Logo assistido, origina uma “viagem sonhada”, absorvendo na festa grega a taça romana; acompanhamos em cada um dos frames, o personagem que olhou tanto para o espelho, não sabendo quem poderia ser – reflexo ou realidade? Assim em suas aventuras sexuais com outros homens, aproxima da estética queer do que da gay. Evitando uma filtragem de personalidade, que vem à tona pelas cenas do director, à medida que acumulou todas as funções possíveis da produção, como escolhemos acreditar, o actor Bobby Kendall encarna a personalidade núcleo, numa procura obsessiva da juventude. Underground e capricho, são as únicas saídas pelas ruas daquele grande povoamento, inchaço urbano e depósito de gente, em Narcissus busca de comprovante por olhares alheios, que de alguma maneira repetem-se, na nossa observação cinematográfica. Teatralidade, sobretudo ilusão, influencia o filme, que de nada flerta, atreve em cada cena, até o estilhaçamento de nós.

O cineasta e fotógrafo, James Bidgood faleceu no dia 31 de Janeiro deste 2022, com 88 anos, conforme notícias dos média francesa, vivendo os anos posteriores do filme Pink Narcissus, longe da fama, não do reconhecimento. 

 

Diogo Mendes, no Brasil.

Fotos: Reprodução

 

Diogo Mendes é escritor e jornalista. Colabora para mídia brasileira e portuguesa. Tem lançado o livro de poemas, “emboloração”(2020) pela editora Chiado Books.

 

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