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Mercado das Migalhas recriado 40 anos depois

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Depois de estar previsto e ter sido adiado no último Verão, o Mercado das Migalhas está agora anunciado para  dia 11 de Outubro, entre as 10 e as 20 horas, no Jardim do Príncipe Real, em Lisboa. A organização do evento histórico com laivos de etnografia especulativa é do Teatro Praga, João Pedro Vale e Nuno Ferreira e tem o apoio da Junta de Freguesia da Misericórdia.

 

"A pandemia desencadeou uma alteração de regimes sociais e laborais tão grande que pôs a nu a nossa falta de protecção pela ausência de enquadramento no estatuto contributivo, etc. tendo um impacto terrorífico sobretudo na vida das comunidades mais fragilizadas, a saber, as LGBTQI+. Para mais, com o cancelamento das celebrações públicas do orgulho, pareceu-nos que fazer reviver este mercado histórico, seria não só uma estratégia de sobrevivência para a comunidade LGBTQI+ como também uma forma dxs participantes fazerem uns trocos maiores do que os que a Segurança Social lhes dá, visibilizando as suas histórias e práticas no espaço público", explicou a organização ao dezanove.pt

Com raízes que remontam a 1740, este mercado popular mudou de local várias vezes até se fixar no seu local de origem: o Jardim do Príncipe Real, freguesia da Misericórdia, no lugar da antiga Lixeira do Bairro Alto. Dedicado sobretudo ao comércio inventivo e informal de sobrevivência de artistas LGBTQI+ e outras valências identitárias neste mercado vendiam-se objectos em segunda mão, artesanato original, pequenas manifestações artísticas, quinquilharia nostálgica ou comida caseira e dava-se visibilidade a práticas artísticas marginalizadas.
Até ao seu desaparecimento, por volta de 1980, ocorria sem data fixa, abrindo de manhã para fechar a qualquer hora.

O nome Migalhas tem origem nos recolectores (Catadores de Migalhas ou Migalhas, como eram conhecidas essas figuras castiças de Lisboa) que começaram a aparecer por volta de 1740. Tal actividade tornou-se tão premente na Lisboa antiga que, quem fazia o depósito do lixo, gritava, à laia da epifania de Marie Antoinette: “não há pão, deem-lhes Migalhas!”. O salto para o estabelecimento de um micronegócio informal foi rápido, segundo relata a organização que pretende recriar o Mercado das Migalhas em 2020.
"Partindo de um encontro informal de pessoas vadias, precarizadas, pobres, divergentes, invisibilizadas, carentes, etc., o Mercado das Migalhas teve sempre como principal objectivo a subsistência de quem aí vendia ou trocava. Este evento era muito procurado entre uma determinada franja da sociedade. Se, por um lado, algumas pessoas aproveitavam a miséria para fazer negócios, já outros frequentavam o mercado para ajudar os necessitados e assistir a um evento. Estes “visitantes” usavam um colar de flores mostrando assim estar familiarizados com estaa vanguardas.

Por lá passaram figuras míticas da capital, como a negra toureira Fernanda do Vale, que ali vendia roupa e corpo; o poeta Eduardo Metzner, o Thoreau português, pai da República, que decidiu viver deliberadamente como sem-abrigo; a Barbuda (Maria Gertrudes Severa, mãe de Severa), que do Mocambo foi viver para o Bairro Alto e cuja barba fazia sucesso, Albino Migalha, a aguadeira Mãe d’Água, Dona Ferroa, uma conhecida lésbica, profundamente anticlerical, e sempre acompanhada pelas suas três "protégés"
mais famosas – Migalhete, Migalhinha e Migalhona e muitas outras personagens.
Rituais como a “Marcha da Barbuda”, “Queima da Patriarcal”, o “Atira Migalhas”, o “Parlapiê dos Catadores”, o “Cordão de Plantas”, a “Corrida dos Pombos” ou o “Baile da Macaca” que surgiram neste mercado.

O "novo" Mercado das Migalhas está agora de volta no próximo Domingo 11 de Outubro. Entre os artistas convidados para mostrar e a vender a sua arte estarão: Jenny Larrue, Luís Guerra, Rafaela Jacinto, As gatas da Mona Lisa, Teatro Cão Solteiro, Colectivo Faca, Rezm Orah, João Morais, Luísa Salvador, Ana Tang e Gonçalo Merlini, Bruno Hucca e Paulo Pascoal, Fado Bicha e muitos outros. Passa por lá para ver esta nova versão do Mercado das Migalhas e contribui!

 

Informação recebida da organização: "Infelizmente o Mercado das Migalhas, após muita ponderação, e na impossibilidade de manutenção da segurança física dos participantes teve de ser cancelado. É com tristeza que o comunicamos, já que foi um projecto em que investimos muito. Estamos, no entanto, a pensar em soluções alternativas para promover o trabalho dos artistas que nele estavam envolvidos, de um modo que os proteja mais."

Notícia actualizada com o último parágrafo a 08 de Outubro.