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Nem na mata se encontram histórias assim

"Não queremos que a Maria tenha medo, nem vergonha, nem desconforto. Faremos tudo ao nosso alcance para a protegermos e apoiarmos"

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De Manel a Maria é um perfil no Instagram que nos fala de Maria uma menina trans portuguesa ao mesmo tempo que nos traz alguns assuntos desta temática.

 

O perfil é gerido pela Mãe que partilha com os seguidores o quotidiano da filha sempre salvaguardando a sua identidade e privacidade, mas ao mesmo tempo tornando este tema parte do quotidiano para tantos pais que se deparam com situações semelhantes. Como gerir esta situação em casa? E na escola? Uma entrevista para ler de seguida e reflectir porque as crianças trans existem e os pais também precisam de apoio e para as poderem apoiar!

 

dezanove: Fale-nos um pouco da Maria, do seu processo, das suas lutas e conquistas diárias.
Pais da Maria: A Maria é uma criança contente e divertida, cheia de alegria e vivacidade, de 8 anos e que adora brincar. Tem sentido de humor e uma personalidade muito forte. É, ao mesmo tempo, infantil e muito madura. É educada e muito popular. É aquela criança que é convidada para todas as festas. A Maria é uma criança doce, morena, de cabelo comprido e é uma menina transgénero.

Os primeiros sinais começaram aos dois anos. Aos três, quando se apercebeu que havia meninos e meninas, pediu-nos para ser menina.
O processo de transição durou um ano. Talvez mais.
Entrou na primeira classe como menino e apresentou-se «Eu sou o Manel, mas quero ser uma menina».
O confinamento foi fundamental para a sua afirmação e iniciou o segundo ano como Maria.
Com alguns altos e baixos, foi sendo aceite como é, e neste momento é a Maria. Usa os balneários femininos e roupa de menina.
É uma menina como as outras!

 

Quais foram para si, enquanto mãe de uma criança trans, os maiores desafios que enfrentou? O que espera evitar que aconteça à Maria ou que conselhos dá à Maria para ser ela própria?
Não é fácil para nenhuma mãe ou pai… Ninguém quer ter um filho trans. Mas é Minha filha. Amo-a incondicionalmente e o amor não tem género… quando decidimos engravidar também não podemos escolher o sexo. É minha filha e pronto. É como é.

Ninguém quer ter um filho trans. Mas é Minha filha. Amo-a incondicionalmente e o amor não tem género…

Aprendi muito e descobri ainda mais. O tema da transexualidade, aliás todos os temas LGBTQIA+, são uma constante aprendizagem e tento estar atenta e informada.
Os maiores desafios foram a constante luta diária de integração. Que fosse tratada como as outras meninas. Nem mais, nem menos. Tratada como as outras meninas.
As longas conversas com directores, professores, educadores, auxiliares, na escola, na escola de dança, na nova escola de dança.
Ter que explicar tudo, desde o início, uma e outra vez.
Ainda há dias em que conto a nossa história entre soluços.
Mas o maior de todos os desafios foi o luto. O luto de ter perdido um filho e de todos os planos que tinha sonhado para ele! Um luto transformado em luta para enfrentar desafios e medos.
Tenho medo, muito medo do futuro. Medo do desconhecido. Talvez tenha mais medo do que ela. Mas é o medo constante que alguma mãe ou pai tem em relação ao seu filho. Tenho medo que lhe façam mal!

O maior de todos os desafios foi o luto. O luto de ter perdido um filho e de todos os planos que tinha sonhado para ele! Um luto transformado em luta para enfrentar desafios e medos.

A Maria é ela própria, com muitos tules e purpurinas (não sei a quem é que ela sai!) e nós, pais, deixamo-la ser quem ela é, e apoiamo-la. Para já, uma criança. Uma linda menina.
Não queremos que a Maria tenha medo, nem vergonha, nem desconforto. Faremos tudo ao nosso alcance para a protegermos e apoiarmos.

É o medo constante que alguma mãe ou pai tem em relação ao seu filho. Tenho medo que lhe façam mal!
 

Como foi a aceitação na família e na escola? Já toda a gente trata por Maria?
Na família foi… como um senhor disse uma vez numa reunião da AMPLOS, «primeiro estranha-se, depois entranha-se!»
Obviamente que inicialmente não é fácil. «Tens a certeza? É por ter uma irmã mais velha! São influências da TV. Vais ver que é uma fase!»
Mas depois do impacto «boom»… e da poeira assentar, foi bem aceite e todos a reconhecem como uma menina.

Na escola fomos por partes. Em reuniões constantes, pondo-os a par da evolução. Nunca escondemos nada e estivemos sempre prontos para esclarecer dúvidas e respondermos às perguntas.
Íamos às reuniões sempre com a legislação na carteira. Às vezes tivemos que a mostrar. Outras não. Mas correu tudo bastante bem.

Na escola íamos às reuniões sempre com a legislação na carteira. Às vezes tivemos que a mostrar. Outras não.

Ao início havia a questão dos pronomes, e do «Manel, desculpa, Maria!», mas nesta fase (acho que) ninguém a trata pelo nome masculino.
Os que precisavam de saber, sabem e tratam-na com respeito e por Maria. Nem nós deixávamos que fosse de outra maneira.
Houve algumas pessoas que não reagiram bem (muito poucas). Estes,  «apagámo-los» e seguimos em frente.  
Pessoas com quem estou poucas vezes e me perguntam pelo meu filho, digo que está bem e continuo a conversa circunstancial.

Houve algumas pessoas que não reagiram bem (muito poucas). Estes,  «apagámo-los» e seguimos em frente.  

 

Na sua opinião, como olha a sociedade portuguesa para as crianças trans?
Ui!! Pergunta difícil!!! Mas há crianças trans?! (piada!)
Acho que, no geral, não sabem que existem. Talvez tenham ouvido falar, mas…
Nós, espécie humana, temos medo do desconhecido e somos preconceituosos face ao que não conhecemos. Temos receio de mostrar o nosso lado tolerante e é mais fácil apontar o dedo e seguir com o esteriótipo cis-heteronormativo.
A sociedade portuguesa ainda tem muito que aprender, mas acho que está no bom caminho. E é graças a associações como a AMPLOS  e sites de notícias como o «dezanove» que Portugal está a mudar e há espaço para as famílias coloridas.
(Obviamente que, felizmente, há muito mais associações que podia nomear!)

Nós, espécie humana, temos medo do desconhecido e somos preconceituosos face ao que não conhecemos.
 

Que conselhos diria a quem tem uma criança trans?
Ui! Tantos, mas aqui vão os principais: Não é uma fase; Não tenham vergonha; Apoiem-na; Procurem ajuda; Não estão sós!
Para começar, é preciso aceitar que as expectativas que imaginamos nunca correspondem à criança real. 
Temos que nos mentalizar que vai ser um caminho longo e difícil. E umas das nossa principais tarefas como pais, é tentar simplificar a dificuldade desse caminho.
O bem estar físico e mental de qualquer criança está alicerçado no bem estar do núcleo familiar.
Dentro deste núcleo (que deve ser forte),  as crianças precisam de ter um porto de abrigo onde tenham a certeza de ser aceites, compreendidas e ajudadas em tudo o que precisam. 
Um dos primeiros ensinamentos a transmitir é que nem tudo é perfeito. Umas pessoas vão aceitar. Outras não. Mas que nós, pais, vamos estar sempre do seu lado. Com a nossa ajuda incondicional, cada criança vai interiorizar, no seu tempo, que uns dias vai ganhar e outros dias vai perder, mas o importante é seguir em frente e nunca desistir.

 O bem estar físico e mental de qualquer criança está alicerçado no bem estar do núcleo familiar.
Dentro deste núcleo (que deve ser forte),  as crianças precisam de ter um porto de abrigo onde tenham a certeza de ser aceites, compreendidas e ajudadas em tudo o que precisam. 

 

Para terminar, gostaria de agradecer a oportunidade e todo o bom trabalho que têm feito e relembrar a todos que «crianças trans existem!»

 

Marta Pimentel Santos