Saltar para: Post [1], Comentários [2], Pesquisa e Arquivos [3]

Dezanove
A Saber

As notícias de Portugal e do Mundo

A Fazer

Boas ideias para dentro e fora de casa

A Cuidar

As melhores dicas para uma vida ‘cool’ e saudável

A Ver

As imagens e os vídeos do momento

Praia 19

Nem na mata se encontram histórias assim

“Não sou uma cantora drag, sou uma cantora bicha”

wqueer

Com roupas femininas e barba, o projeto WQueer quer mostrar o som da favela no Brasil.

Durante o dia, Wallace Terra (31 anos) trabalha como assessor de planejamento na prefeitura municipal da cidade de Niterói, município do Rio de Janeiro, a noite ele dá vida ao projeto musical WQueer. 

 

Abusando de roupas femininas, maquiagem não muito discreta e uma visível barba, a cantora conta que o projeto surgiu da necessidade artística e política de trazer a tona a vivência nao-hetero através da música, dança e a realização pessoal de fazer o que ela mais ama (cantar).

Nascido em uma comunidade carente, Wallace conta que sempre foi afeminado, em função disso, o preconceito sempre esteve presente em sua vida, e relembra um episódio envolvendo uma agressão homofóbica sofrida quando ainda era criança, sem querer se aprofundar no assunto.

wqueer brasil.jpg

Atualmente, ele continua morando em uma comunidade carente, porém outra, mas com índices elevados de violência, entretanto nem por isso Wallace ou melhor dizendo WQueer pensa em abandonar a ideia de mostrar a sua arte, a sua música para as pessoas.

Criado em 2016, na companhia dos dançarinos Maycon Pereira e Douglas Leveumouth, o WQueer surge em um momento onde despontavam no cenário musical brasileiro algumas cantoras drags de sucesso como Pabllo Vittar e Gloria Groove, contudo a vocalista “queer” deixa claro “não sou uma cantora drag, sou uma cantora bicha” (o termo bicha no Brasil, é considerado pejorativo e está relacionado a gays afeminados).

As comparações com as famosas cantoras drags também são inevitáveis mas WQueer tem uma resposta sempre pronta quando a questionam se ela quer ser a nova Pabllo Vittar.

“Na verdade, nao sou comparada a ela, mas sim com outra cantora a Gloria Groove. Mas nossas energias cruzam aos olhos dos admiradores da gay music por sermos afeminados.”

Mas qual seria a opinião partindo de alguém que almeja conquistar o que a Pablo já alcançou, “Olha, a Pablo é incrível, ícone, mas não há como ser o novo alguém que já tá aí, mas planejo ser a bicha afeminada cantora a subir nos grandes palcos como ela vem fazendo ”De fato, os estilos musicais são diferentes, o WQueer aposta no funk, um tipo de música bastante criticada por retratar o cotidiano dos moradores das favelas, muitas vezes realçando temas como violência e sensualidade. No entanto, Wallace que também é compositor, optou por uma música mais leve e descontraída ao lançar o clipe musical da música “Poc não tem mimimi”, rodado na comunidade carente conhecida como Morro do Portugal Pequeno, localizada em Niterói.

wqueer musica favela lgbt brasil.jpg

Em linhas gerais, a expressão “Poc não tem mimimi” se refere a uma “bicha” de baixa condição financeira que usa salto alto cujo o som ao caminhar parece um “poc poc”. Já o termo “mimimi” diz respeito a não fazer dramas, se vitimizar.

Apesar do pouco recurso financeiro, o videoclipe chamou atenção quando estreou no Youtube, além da música ser divertida, as imagens mostram uma WQueer bastante desinibida diante das câmeras, subindo a favela na garupa de uma moto, usando figurinos chamativos e sendo paquerada pelos locais.

Por enquanto, a projeção nacional ainda não aconteceu mas caminha a passos largos, onde os shows em paradas gays, boates e até mesmo na rua, acontecem com frequência mas sem ainda possibilitar que o Wallace viva somente de sua arte, sendo necessário fazer uma dupla jornada em um emprego formal.

musica lgbti brasil.jpgw queer.JPG

Questionada a respeito do visual andrógino, se o intuito seria chocar ao mesclar roupas femininas, maquiagem com o lado masculino (a barba), ela responde que é essa a verdadeira intenção “justamente para isso, para você perguntar, pra você se questionar, pra você pensar e corpo, a historicidade desse corpo e como é marcado”.

Antes de investir no funk e muito antes do surgimento do projeto WQueer, Wallace se arriscava a cantar samba, mas hoje prefere ampliar o seu foco musical “Funk, pop, sou louca pra fazer tudo que me construiu musicalmente, já compus reggae, pagode tudo com a temática lgbt”.

Todavia, nem tudo são flores, diante de uma cenário atual tenso para a comunidade LGBT quando assunto se refere a política, Wallace descreve o momento como caótico, desestruturado e tirano. E ele tem motivos pra isso, durante as eleições presidenciais no Brasil, o WQueer tentava ganhar projeção fazendo shows na rua, mais precisamente na saída de uma terminal de balsa, entretanto, eleitores de Direita, enxergaram aquilo como um tipo de posicionamento político e por muito pouco a vocalista e os seus dançarinos não sofreram agressões físicas, porém não escaparam das verbais, a ponto dele ter encerrado esses pockets show na rua.

E por falar em haters, Wallace afirma que é mais atacado nas redes sociais, porém ele apenas ignora sem revidar aos comentários ofensivos ou mesmo ameaças que às vezes recebe. Disposto a cravar um lugar na cena musical brasileira, o WQueer segue “chocando” por onde passa, sem dar brecha para o “mimimi” e aonde ela quer chegar? “quero estar andando nas ruas e os camelôs (vendedores ambulantes) e as loja estejam tocando o meu som”.

Canal no Youtube: WQueer 

 

André Araújo, jornalista e consultor de turismo. Colaborador do dezanove.pt a partir do Brasil

 

1 comentário

Comentar