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confissões gay trintão

Não. A sério. 

Quer dizer… Eu podia dar-vos a data exacta em que isso aconteceu, mas isso é um bocado irrelevante. Na verdade, não sei exactamente do que é que estava à espera mas aparentemente o meu excesso de confiança em que ‘Vai ficar tudo bem’ relativamente à minha nova vida de solteiro será o grande culpado. Isso e o facto de ter ignorado o detalhe de ser um gay trintão a entrar no mercado dos solteiros… ‘Eh pah, até estou com bom aspecto e sou inteligente o suficiente para manter uma conversa acerca de vários tópicos.  Não tem sido problemático arranjar parceiros ocasionais… Acho que isto é capaz de não correr mal, certo?’

Errado.

Nem consigo muito bem encontrar os adjectivos adequados para descrever os que estes meses têm sido, mas algo como ‘selvagens, insanos, surreais, borderline traumáticos’, seria provavelmente aplicável a todas as interacções que tenho tido com pessoas. Pessoas que antes de criar um perfil no Tinder deviam fazer psicoterapia.

Pessoas que antes de criar um perfil no Tinder deviam fazer psicoterapia.

No entanto, acho que a palavra que melhor descreve aquilo que sinto é mesmo ‘desilusão’. Não uma desilusão com o facto de não ter um batalhão de clones do Henry Cavill a fazer fila para namorar comigo (por muito agradável que isso fosse), mas desilusão com o facto aparente de as pessoas se terem tornado completamente incapazes de lidar com as emoções e sentimentos que brotam quando se trata de tentar formar laços e relacionamentos. Não falo sequer dum contexto romântico, duma ‘curte’, etc. Chamem-lhe o que quiserem porque cada um destes cenários requer que as pessoas sejam capazes de ser funcionais em certos aspectos básicos de interacção social e humana. Aspectos que, pela minha experiência, parecem ter caído completamente em desuso nestes últimos anos em que estive numa relação e fora do mundo solteiro.

Falo de fenómenos como o ‘ghosting, soft-ghosting, zombieing’, etc. (E para quem não souber do que estou a falar, vão lá ao Google que eu espero um bocadinho… já está? Ok. Continuemos.)

Que raio aconteceu a essa maravilhosa resposta de tão parcas palavras que dá pelo nome de ‘Olha, afinal acho que não estou interessado em que isto evolua, mas foi bom falarmos na mesma. Fica bem!’?

Agora vão-me chamar velho (não há problema, já estou habituado a ser chamado de ‘daddy’ por qualquer gajo abaixo dos 30, o que à beira dos 40 não me faz mesmo sentir nada nada velho…), mas eu acho que os grandes culpados nesta situação toda são os smartphones e as apps.

Entremos em modo José Hermano Saraiva (Google outra vez? Ok… eu espero), e pensemos acerca dos telemóveis. Aquilo que era suposto ser uma ferramenta que funcionaria como uma extensão da forma como comunicamos uns com os outros tornou-se na forma principal e omnipresente como falamos hoje em dia. Não me entendam mal: nesse aspecto foram um elemento de sobrevivência para muita gente (incluindo eu) durante esta pandemia, só que o problema é que interagir com alguém através de um dispositivo significa que não temos que lidar ao vivo com a reacção da outra pessoa às nossas palavras e isso destreina-nos naquilo que devia ser o aspecto fundamental de todas as interacções entre pessoas: a empatia. Parece mesmo que as pessoas se esqueceram de como é que se fala com os outros na vida real.

Acrescentemos a isto o acesso fácil a artigos de Psicologia (e faço a ressalva de louvar toda a gente que todos os dias publica esses artigos pra trazer o tópico da Saúde Mental para a ribalta), e de repente temos um exército de filhos da mãe que encontraram na internet a linguagem técnica que precisavam para racionalizar o facto de serem uns filhos da mãe! ‘Oh pah, é inconsciente… está relacionado com coisas que são um bocado triggering para mim… não tenho ainda a neuro-plasticidade para lidar com o meu trauma…’.

Bitch, please!

A verdade é que estás em negação acerca do facto de seres incapaz de te relacionar com pessoas duma forma genuína e que te causa aquela sensação que odeias e que se chama vulnerabilidade e, enquanto escolhes não lidar com isso, vais enrolando as outras pessoas e mantendo uma cartilha de rapazes no bolso ‘só para o caso de não aparecer ninguém melhor’.

A verdade é que estás em negação acerca do facto de seres incapaz de te relacionar com pessoas duma forma genuína e que te causa aquela sensação que odeias e que se chama vulnerabilidade e, enquanto escolhes não lidar com isso, vais enrolando as outras pessoas e mantendo uma cartilha de rapazes no bolso ‘só para o caso de não aparecer ninguém melhor’.

No entanto, eu considero-me tão culpado como qualquer outra pessoa de cair na esparrela… ‘Bem, a conversa é boa, temos química fisicamente… isto vale a pena investir algum tempo para perceber onde é que vai dar.’

Invariavelmente, e aparentemente inevitavelmente, onde isto vai dar é a um sítio lindo que é o destino mais popular de quem anda a tentar arranjar namorado e que se chama ‘lugar nenhum’. Quer dizer, para ser completamente verdadeiro, levou a alguma coisa: ser ghosted antes do Natal, ser ghosted no fim do Verão e ter uma pausa do ghosting para ser bullied online por ter a audácia de dizer ‘Obrigado, mas não estou interessado.’

Pelo menos (ainda) não foi ter à marquesa do CheckpointLX e à caminhada embaraçosa para casa com o rabo combalido depois de levar uma injecção de penicilina ou ceftriaxona… (obrigado preservativos), mas também não foi dar a uma ligação mutuamente satisfatória com ninguém. E digo mutuamente porque no que dependesse de mim, já passaram pelo menos duas pessoas na minha vida nos últimos meses com quem eu pensei que as coisas estavam encaminhadas para estabilizar mas o problema é esse: eu pensei.

Eu pensei em algo que não dependia só de mim e não dá mesmo para adivinhar aquilo que a outra pessoa está a pensar e tampouco esperá-la capaz de dar uma resposta honesta quando tu tentas fazer uma pergunta objectiva.

É algo me transcende. Eu penso ‘eh pah, este pessoal anda todo a ver o RuPaul’s Drag Race por isso de certeza que repararam que aquilo que o júri mais pede às queens é que precisam de ver mais versatilidade e mais vulnerabilidade’. Em relação à versatilidade, os gays nao têm quaisquer problemas, mas com a vulnerabilidade… bem… vão ali aparar o Carmo e a Trindade que estão a cair.

Honestamente, eu tento não ter um problema com a vulnerabilidade. Uma parte grande daquilo que tem sido a minha caminhada com a minha saúde mental (não se preocupem que a mana está a fazer terapia, está medicada e ela medicada é um amor), tem sido precisamente aceitar a minha vulnerabilidade e o facto de que não sou o Super-Homem. Assim como aceitar que eu nem sempre vou ser capaz de ser perfeito o que, deixem que vos diga, para alguém que sempre quis ser o aluno favorito, não é fácil. Não é fácil aceitar todas as formas em que, tal como toda a gente, eu sou extremamente imperfeito enquanto pessoa, mas o esforço em aceitar essas imperfeições em mim mesmo faz de mim mais tolerante a aceitar a imperfeição nos outros. Não estou a dizer que é sempre uma tarefa fácil ou na qual eu seja bem sucedido, mas honestamente tento e tenho plena consciência que uma parte grande desse tentar, é aceitar que é preciso perder o medo de me magoar e perder o medo da incerteza que inevitavelmente acompanha o processo de se conhecer alguém novo. É só que a maior parte das vezes parece que estou completamente sozinho nesta forma de pensar e isto não sou eu de forma alguma a achar que sou iluminado porque, honestamente, eu saio todos os dias da cama sem fazer uma puta duma ideia do que ando a fazer e a fazer figas para o dia não dar merda…

Acho que é nisto que a minha desilusão se concentra. Não na imperfeição humana, mas na incapacidade das pessoas de aceitarem de forma honesta a sua imperfeição. Na falta de capacidade de abraçar e amar as nossas imperfeições e assim sermos capazes de, aos poucos, as ir melhorando. Na crença de que para ser aceites temos que erguer esta barreira de sermos o homem perfeito.

Acho que é nisto que a minha desilusão se concentra. Não na imperfeição humana, mas na incapacidade das pessoas de aceitarem de forma honesta a sua imperfeição.

Deixem-me ver-vos no esplendor da vossa humanidade com o que isso tem de bom e de mau e deixem-me mostrar-vos o mesmo. E se depois disso não formos compatíveis, não há nada de errado com isso porque de certeza que seguiríamos em frente tendo crescido, aprendido e com a certeza de que tentámos perceber a pessoa à nossa frente com empatia e compaixão em vez de a julgarmos.

Isto já vai longo e tudo o que eu queria dizer era ‘por favor, deixem de fazer-me querer ouvir o Too Good At Goodbyes’.

 

R. J. Ripley

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