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Queer Lisboa: Três documentários sobre os quais temos de falar

Queer Lisboa

Madalena – a ausência que permanece viva

Madalena (2021) é a primeira longa-metragem do brasileiro Madiano Marcheti e deixou a sua marca no Queer Lisboa no passado dia 19 de Setembro. Esta é uma história de violência e de omnipresença na ausência, uma obra que retrata a realidade do Brasil rural, uma realidade de violência, seja ela de violência contra a paisagem na forma da desflorestação em prol da agricultura intensiva, mais concretamente da criação de plantações de soja; e a violência contra o indivíduo que é, neste caso, dizer contra as pessoas trans e que culmina no avistamento do corpo de Madalena num campo de soja.

Este é um mistério que nos transporta para uma cidade rural no interior do Brasil, em Mato Grosso, e para as vidas de Luziane, Cristiano e Bianca que são afectadas pelo desaparecimento de Madalena. Apesar de não se conhecerem e de pertencerem a realidades socioculturais distintas, os três jovens debatem-se para superar a violência e encarar a brutalidade com a qual convivem, cada qual à sua maneira. Por outro lado, passo a passo com a narrativa, outra realidade torna-se gritante: o silêncio, a resignação e a luta contra a memória, a pouco e pouco, nesta comunidade, Madalena vai caindo no esquecimento.

Ainda que ausente, Madalena é omnipresente e a sua história reflecte a realidade de violência, transfobia e transmisoginia que assola o país. É um grito urgente perante o facto de que o Brasil é o país que mais mata pessoas trans e transformistas no mundo.

É de lembrar que este filme encontra-se na competição para melhor longa-metragem, sendo que podes acompanhar os resultados aqui no dezanove.pt.

 

 

Uferfrauen – Lesbian Life and Love in the GDR – o que podemos aprender com elas?

Uferfrauen (2019) de Barbara Wallbraun narra as histórias íntimas e pessoais, de amor, luta e superação de seis mulheres lésbicas que viveram na antiga República Democrática Alemã, ao mesmo tempo que relembra como ainda temos muito para aprender com elas. 

Aqui, conhecemos Pat, Christiane, Carola, Elke, Sabine e Gisela e a sua viagem desde o despertar da sua sexualidade até à descoberta do amor, passando por desventuras e desembocando nas formas nada convencionais como planearam as suas vidas e famílias. Ademais, conhecemos o seu papel no movimento associativo, na formação das suas próprias comunidades e o seu contributo para o movimento LGBTQI+ não só naquele tempo e na antiga RDA, como também na actualidade.

Nas suas histórias de vida relatam a sua luta pela autodeterminação, onde a realização pessoal e a luta pelos direitos LGBTQI+, assim como os de outras minorias, eram, e são, indissociáveis. Lutas estas que foram pautadas por conflitos com a lei e com o partido socialista no poder.

Destarte, este documentário é um lembrete do valor que é devido a testemunhos como estes com os quais podemos aprender muito.

Acrescenta-se que esta obra encontra-se na competição para melhor documentário.

 

Silent Voice – identidades e trauma, porque não posso ser eu inteiro?

O silêncio é, paradoxalmente, uma voz poderosa. E Silent Voice (2020) é o exemplo desse mesmo paradoxo. Sublimemente realizado por Reka Valerik, este documentário acompanha a tormenta de Khavaj, um jovem de 26 anos que foge da Chechénia quando a sua homossexualidade é descoberta pelo irmão que, por sua vez, promete matá-lo.

Refugiado em Bruxelas e forçado a viver em total anonimato para sua própria protecção, Khavaj é perseguido pelo trauma no seu próprio corpo ao sofrer de mutismo causado pelo sucedido. Simultaneamente, é confrontado com a necessidade de recuperar a sua voz para adquirir o estatuto de refugiado, o que implica contar, ou seja, reviver o que sofreu. 

Khavaj é atormentado por querer pertencer, ao mesmo tempo que precisa de viver na plenitude do seu Eu. Pertencer à sua comunidade significaria renegar uma parte de si e da sua identidade. Este conflito materializa-se em já não poder praticar MMA, desporto associado à diáspora chechena, nem poder comunicar com a sua família, sobretudo com a sua mãe que insiste que ele pode ser “curado” e regressar ao seu país, já que se se mantiver no Ocidente continuará “doente”.

Este documentário transpira trauma e conflito interno, já que as identidades de Khavaj enquanto checheno e homem gay encontram-se em conflito. Sendo homossexual é obrigado a abdicar da sua identidade enquanto checheno.

Mais uma vez a violência e o silêncio interligam-se nesta história comovente e trágica, que não deveria ser uma inevitabilidade, e que entra em choque com o dito que ouvimos a mãe de Khavaj proferir numa das suas mensagens de voz para o filho: “Tudo é belo na Chechénia”.

Este filme encontra-se, igualmente, na competição para melhor documentário.

 

Mariana Vilhena Henriques