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Reparações LGBTI+ nas paisagens e nos saberes

gustavo borges mariano

Desde Maio, vemos marchas pelos direitos negados a pessoas LGBTI+ sendo feitas pelo país: Coimbra e Vila Real começaram. E este ano traz novidades com as primeiras marchas em diversas cidades. Ademais, em alusão ao dia internacional com a LGBTIfobia, 17 de Maio, bandeiras arco-íris foram hasteadas em locais públicos.

 

A ILGA Portugal participou na exposição colectiva de rua «Tronos de Santo António 2022». Infelizmente, tal manifestação artística foi vandalizada. A montra foi pichada com linhas ondulares que enquadraram o escrito, meio apagado, “pedem respeito mas não respeitam”.

trono ilga vandalizado.jpg

Não se trata de uma frase isolada, mas de uma repetição persistente. E é nessa repetição que ela encontra a sua violência, porque é na repetição que se legitima e se naturaliza.

Além disso, semana passada passamos a encontrar em diversos pontos do país cartazes da Fox, na campanha ABCLGBTQIA+em colaboração com a Associação ILGA Portugal. Trata-se de breves definições de um vocabulário que tem sido construído entre movimentos sociais e academia nas últimas décadas.

A mudança na paisagem incomoda. Muda-se a visualidade dos territórios. Os significados passam a ser reinventados e habitam em corpos e em palavras na esfera pública. Tínhamos a dificuldade de sermos relegados ao espaço privado, íntimo e doméstico. O problema não é só nossa existência, mas a nossa insistência em sobreviver.

Não se trata apenas de respeitar pessoas LGBTI+. É necessário reparar as violências a nível de justiça social, epistémica, racial e económica. Parte dessa reparação é justamente a possibilidade de nossa habitação nos diversos espaços, seja por meio dos nossos corpos, das artes ou de nossos saberes. 

Não se trata apenas de respeitar pessoas LGBTI+. É necessário reparar as violências a nível de justiça social, epistémica, racial e económica. Parte dessa reparação é justamente a possibilidade de nossa habitação nos diversos espaços, seja por meio dos nossos corpos, das artes ou de nossos saberes. 

A inscrição “pedem respeito” tem um fundo de verdade: pedimos respeito. Contudo pedimos também justiça. “Mas não respeitam”: não respeitamos quem e como?

Além de eu deixar essa pergunta, passo a reler esse texto da montra de uma outra forma. Principalmente com a foto da ILGA. Primeiro, a falta de sujeito na frase “pedem respeito” oculta justamente o sujeito que a escreveu. Quem se sentiu “desrespeitado” na verdade é o próprio sujeito também “pedindo respeito”, mas que “não respeita”. A violência do texto inscreve no vidro a própria falta de respeito. Tal frase, em qualquer situação, acaba por encarnar a contradição de pedir respeito e ser violenta, por mais subtil e “tolerante” que ela pareça.

Quem se sentiu “desrespeitado” na verdade é o próprio sujeito também “pedindo respeito” e que “não respeita”

Para além disso, na foto há uma inércia resistente das bandeiras, das cadeiras, das mesas, das velas, dos santos. A nossa persistência continua, mesmo depois de séculos de colonização que dizimaram organizações sociais que não se fechavam no binarismo de gênero, as perseguições criminalizantes de travestis e homossexuais em Portugal e a epidemia da SIDA que, até ter políticas de saúde e educação adequadas, matou muitas de nós. A mon(s)tra mostra as camadas de violências e resistência, em sua transparência inscrita, que também inscreve a paisagem urbana com sua (r)existência.

Não se trata apenas de respeitar pessoas LGBTI+. É necessário reparar as violências a nível de justiça social, epistémica, racial e económica. Parte dessa reparação é justamente a possibilidade de nossa habitação nos diversos espaços, seja por meio dos nossos corpos, das artes ou de nossos saberes. 

Neste sábado marcharemos em Lisboa, e em seguida continuamos marchando pelo país. Nós continuaremos a mudar as paisagens, com nossos saberes, afetos, corpos, identidades, que só perturbam aqueles/as que, como nos lembra Pê Feijó, se sentem violentados/as porque percebem que sua forma de ser, cheia de regras de gênero, poderia ser muito mais livre. Lutemos por reparações às injustiças históricas para que nossos corpos e desejos não sejam administrados, por mais vocabulários libertadores e por mais modos de viver livres e sem ceder nossas alegrias para a cis-heteronormatividade.

 

Gustavo Borges Mariano, Doutorando no Programa Human Rights in Contemporary Societies do Centro de Estudos Sociais da Universidade de Coimbra Formador com CCP. Áreas de Direitos Humanos, Género e Sexualidade.