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"Surgiu o boato nas redes sociais de que eu tinha morrido de covid-19"

Ricardo Bargão

Ricardo Bargão, 50 anos, artista multifacetado e proprietário de um bar dirigido ao segmento homossexual adulto em Lisboa, percebeu há umas semanas que estava infectado com covid-19. Como foi lidar com a doença no início desta pandemia em Portugal? Que receios viveu? Como se sente agora depois de ter testado negativo? Como vai dar a volta ao negócio que explora e fazer face à timidez económica que, depois da crise sanitária, pode levar ao desemprego? Fomos ouvi-lo. 

 

dezanove: Comecemos pelo início. Quando é que percebeste que podias ter covid-19? 

Ricardo Bargão: Soube que tinha covid-19 a 17 de Abril. De súbito apareceu-me, em simultâneo, tosse seca, dores no corpo e uma pontinha de febre. Como a coisa não passou após dois dias, por descargo de consciência, liguei para a linha SNS24, que, face a eu ter outras patologias associadas como insuficiência renal, diabetes, hipertensão, obesidade e apneia do sono, me encaminhou, de imediato, para o Hospital de Santa Maria.

 

Que receios imediatos tiveste? 

A ansiedade e o medo tomaram conta de mim, assim como a angústia e o desespero da espera de quase 10 horas em isolamento total, vendo apenas os profissionais de saúde através de uma janela, de tal maneira equipados para protecção pessoal, que pareciam saídos de um filme apocalíptico de Hollywood.

Quando me informaram que estava infectado com o covid-19 e iria ficar internado, senti que ia desmaiar, vieram-me as lágrimas aos olhos e um pânico enorme ao perceber que, com a pouca bateria que me restava no telemóvel, nem conseguiria avisar os meus pais, o meu companheiro e os amigos mais próximos. Enviei mensagens desesperadas para eles e obtive respostas atónitas como se o meu fim fosse inevitável.

Passado uma hora tinha dominado o meu ataque de pânico e decidido que não iria ficar internado, porque, a meu ver, os sintomas eram demasiados ligeiros e o meu mau-estar se devia a todo um condicionamento psicológico que não estava a ser tido em conta. Discuti com os médicos, que argumentavam que estavam a seguir o protocolo. Eu achava isto um exagero, excesso de zelo pode por vezes ser tão prejudicial como a incúria, há que ter em conta inúmeros factores, como o bem-estar do paciente, a distância da residência do hospital mais próximo, etc. Entramos mesmo em tom de ruptura e discussão agressiva, quando uma médica me ameaçou e me tentou coagir: que havia doentes que pioravam subitamente e tinham de ser ligados a ventiladores, que podia não haver ventiladores disponíveis, e os ventiladores e mais os ventiladores e ainda os ventiladores... A sombra negra dos ventiladores para incutir o terror nos pacientes. Só quando me insurgi veementemente é que foi chamado o chefe do serviço para que eu assinasse o termo de responsabilidade e pudesse ir para casa, porque, estando em consciência, a vontade do paciente é soberana. Assinei, ofereceram-me uma máscara e puseram-me na rua. Até estava com uma crise respiratória de falta de ar, mas acalmei no Uber a caminho de casa.

 

E depois?

Estive encerrado em casa cinco dias até que os sintomas de uma gripe desaparecessem. Como medicação tomei apenas paracetamol para a febre nos três primeiros dias. A partir do terceiro dia em casa começaram a ligar-me médicos do centro de saúde para fazerem o acompanhamento do meu estado clínico. Como a função é rotativa, houve de tudo, desde telefonemas incisivos e encorajadores de profissionais voluntariosos e com consciência dos factos, até telefonemas inenarráveis de quem não sabe fazer outra coisa que senão replicar o receituário crónico para septuagenários: «Fala a Dra.... como se sente hoje? Não está pior?» E eu retorquia que estava assintomático há uma semana, e a doutora insistia: «Ainda vai ficar pior, antes de melhorar de vez! O senhor tem esse vírus terrível, portanto tem de ter paciência...». Seria cómico se não fosse trágico em face do estado de fragilidade emocional em que me encontrava.

 

Quais foram as parte mais fáceis e mais difíceis de lidar com esta situação? Retiras alguma experiência marcante?

O mais difícil de toda esta situação foi a solidão, a total ausência de contacto humano e o massacre mediático de opiniões idiotas e fake news nas redes sociais, desinformação nos órgãos de comunicação social especuladores e sensacionalistas e, mesmo nos órgãos ditos sérios, só havia notícias dramáticas e negativas. Eu sei que a tragédia vende, mas eu precisava de sinais positivos e de esperança e estes não vinham de lado nenhum. Isso tudo e a música da Marisa no anúncio da NOS. Foi muito difícil. Estava muito sensibilizado e tinha vontade de chorar por tudo e por nada.

Eu sei que a tragédia vende, mas eu precisava de sinais positivos e de esperança e estes não vinham de lado nenhum. Isso tudo e a música da Marisa no anúncio da NOS. Foi muito difícil. Estava muito sensibilizado e tinha vontade de chorar por tudo e por nada.

Comecei a ter ataques de pânico e alucinações. Estava a perder a minha sanidade mental habitual. O meu namorado também estava infectado e eu sentia-me culpado por isso, apesar de não haver qualquer evidência de que a culpa fosse minha. Depois surgiu o boato nas redes sociais de que eu tinha morrido de covid-19.

Surgiu o boato na redes sociais de que eu tinha morrido de covid-19.

Aprendi que a natureza humana não muda e as pessoas nestas crises fazem o papel de solidárias e boas, mas acabam por revelar o pior de si; as frustrações, as invejas, os ressabiamentos, o egoísmo... enfim, um lodo que nem me quero lembrar.

O que me salvou foram as conversas pueris com a minha mãe, as sessões de psicoterapia por vídeochamada como o meu ex-marido e os encontros fortuitos com o meu namorado, que em face de também estar infectado, não havia perigo de piorar a situação.

 

Aprendi que a natureza humana não muda e as pessoas nestas crises fazem o papel de solidárias e boas, mas acabam por revelar o pior de si; as frustrações, as invejas, os ressabiamentos, o egoísmo... enfim, um lodo que nem me quero lembrar.

 

Tens um bar e uma loja dirigida ao público gay adulto em Lisboa que já tinhas fechado antes da declaração do estado de emergência. Como foi, e está a ser, viver sem falta de rendimentos? 

Foi difícil, muito difícil. Fechamos ao primeiro sinal de confinamento no dia 13 de Março. Até a data estou sem qualquer apoio.

 

Que respostas aguardas das autoridades relativamente aos negócios da noite, como bares, discotecas e eventos?

Há um total desrespeito das autoridades por este sector de actividade. É pequeno no contexto global do país, é pouco coeso e está mal representado a nível associativo e não tem força política. A atitude do governo é: não há previsões, não há calendário de desconfinamento, quando fechar, fechou. Também já não há dinheiro para qualquer apoio suplementar antes que as bazucas europeias comecem a disparar para cá os previstos milhares de milhões. Além do mais é um sector que não é nem social, nem politicamento correcto. Ninguém vai admitir que vai para o Elefante Branco procurar uma Técnica de Entretenimento Nocturno, para Lux aditivar-se e dançar até cair ou ir ao Finalmente ver a Tia Dabby ou ir depois agasalhar um croquete no final de uma noite. O melhor é fazer o que sempre fez o poder político: ostracizar o divertimento nocturno.

 

Há um total desrespeito das autoridades por este sector de actividade; é pequeno no contexto global do país, é pouco coeso e está  mal representado a nível associativo e não tem força política. A atitude do governo é: não há previsões, não há calendário de desconfinamento, quando fechar, fechou. [...] O poder político ostraciza o divertimento nocturno.

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Como achas que vai passar a ser a convivência nos lugares de diversão nocturna, a partir do momento em que estes abrirem?

Temos de aprender a viver com o vírus. Com as devidas cautelas e contenções medidas entre o bom senso e o cuidado individual... será quase o mesmo que na praia lotada, ou na Festa do Avante, ou no São João no Porto. Com alguns hábitos extra, temos de nos proteger protegendo os outros, mas não desistir de viver... é preciso muita música, festa e dançar até de madrugada. Haja alegria e boa onda.

 

Já passou uma semana após teres tido dois testes negativos à covid-19. Como te sentes?

Estive quatro semanas maravilhoso e sem qualquer sintoma, fazendo um teste semanal à espera que viesse o resultado negativo. Agora, segundo o novo protocolo da DGS, basta um teste negativo para que sejas considerado curado. Agora sinto-me óptimo, livre e cheio de energia, de tal maneira que vim passar uns dias de férias ao Algarve para tirar o bafio da pandemia e recomeçar. Depois de 84 dias de isolamento precisava de sol, muito sol.

 

Que indicações tiveste dos profissionais de saúde em relação a cuidados a ter ou a eventuais sequelas?

Não há ainda evidências científicas suficientes para que haja uma grande certeza do que quer que seja. Ninguém sabe bem quais as sequelas do vírus. Por agora, e segundo os mais proeminentes virologistas, não infecto ninguém e estou imune. Mas ninguém sabe muito bem quanto tempo dura este estado de graça. Espero que seja para sempre. Mas se vier aí o covid-20 ou 21, eu estarei pronto a enfrentar mais uma gripe ligeira.

Mas por favor, parem de incutir medo nas pessoas, de espalhar notícias de reinfectados... Não é verdade! Nem há nenhuma evidência de que venha a ser! Parem de ameaçar as pessoas com uma segunda e uma terceira vaga. Não virá! Mas se vier, estaremos cá para a debelar e enfrentar. Agora sofrer por antecipação: não!

 

Que mensagem queres deixar aos profissionais de saúde que te cuidaram?

Muito voluntariosos, mas pejados de medos e incertezas. Apesar de, no meu caso e sei lá em quantos mais, o tempo vir a provar que estavam errados, o meu grande aplauso pela dedicação, profissionalismo e coragem.

 

E que mensagem queres deixar a quem te lê aqui no dezanove?

Políticas desnorteadas requerem uma gestão criativa. Decidimos ajustar um pouco o conceito do Drako Club. Estamos em obras de adaptação e reabriremos dia 10 de Junho, Dia de Portugal. DRAKO – Naturist Lounge & Coffeshop, de quinta a domingo das 15h às 23h.

Não se deixem contagiar pelo medo! Tomem as devidas precauções sem deixar de viver. Lembrem-se que segundo a DGS, 96% dos infectados com covid-19 cura-se em casa sem qualquer intervenção hospitalar. Um terço dos municípios não teve um único infectado e a possibilidade de morrerem deste vírus se tiverem menos de 60 anos e nenhuma doença crónica complementar é praticamente nula: é mais fácil morrer engasgado com um croquetão fundo na garganta.

 

Mas também há pessoas que morreram e famílias que ficaram enlutadas. Até agora são 1410 mortes em Portugal, de um total de 32.500 casos (e 19.409 recuperados). No mundo o número de mortes ascende a 371.700, de um total de mais de 6 milhões de casos confirmados (e cerca de 2,6 milhões de recuperados). E a pandemia continua activa - também é preciso ter isto em conta...

Segundo o INE e o jornal Público, morreram de gripe normal cerca de 4500 pessoas em Portugal em 2017, sem que fosse pedido o uso de máscaras, o distanciamento social ou qualquer outra medida semelhante. Ora nesta óptica e, em comparação, 1410 é um número bastante contido. Se fizermos a proporção aritmética tendo em consideração a taxa de mortalidade do vírus da gripe comum, o número de infectados em 2017 ascendeu a mais de 400 mil.

 

Entrevista de Paulo Monteiro