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Nem na mata se encontram histórias assim

True colours (Aventuras de um gay pelo Alentejo)

Ricardo Falcato

Mês de Junho. Mês do orgulho. Mês de recordar o que passou, o caminho até aqui, dificuldades, superações, empoderamento.

Nos dois anos de pandemia, por motivos que se prenderam com os confinamentos e o teletrabalho, decidi ir vive para a província, fugir da prisão em que se tornou a cidade, agarrando-me à ideia bucólica cantada por Elis Regina:

“Eu quero uma casa no campo, onde eu possa ficar do tamanho da paz e tenha somente a certeza dos limites do corpo e nada mais.”

Os primeiros tempos foram muito bons: o ar puro; a terapia diária do contacto com a terra; os dias com tempo; a ausência de ruído; as noites dormidas com vagar.

No entanto, como quase sempre, não há bela sem senão. O contacto com o mundo gay num lugarejo com 300 habitantes foi um choque para a minha maneira de ver o mundo, para a minha forma de ser e de estar na vida.

O mundo gay no interior do país vive-se na sombra, escondido, no meio duma seara ou numa casa abandonada.

No Alentejo profundo não se dizem palavras como gay ou homossexual, podem atrair coisas novas, que não serão por certo bem vindas, serão prejudiciais à norma social instituida há séculos e tão bem guardada e respeitada, desde o ancião ao menino que quer brincar com bonecas e é espancado pela mãe. Há que aprender desde cedo a respeitar a norma.

No Alentejo profundo não se dizem palavras como gay ou homossexual, podem atrair coisas novas, que não serão por certo bem vindas, serão prejudiciais à norma social instituida há séculos e tão bem guardada e respeitada.

Na aldeia não há gays, isso são coisas da cidade grande. O que há são rapazes que casam quando chegam à idade de casar e constituem família como tem de ser, como é esperado. Se numa noite bem regada, por acaso, se envolvem fisicamente com outro homem, a culpa é da bebida. Em nada pode ficar arranhada a sua imagem de heterossexual, de macho latino. Afinal eles são casados com a namorada de infância e têm a sua prole.

Na aldeia não há gays, isso são coisas da cidade grande. O que há são rapazes que casam quando chegam à idade de casar e constituem família como tem de ser, como é esperado. Se numa noite bem regada, por acaso, se envolvem fisicamente com outro homem, a culpa é da bebida.

A realidade vivida, em grande parte do interior do país, surgiu-me como um soco no estômago. No fim de contas sou homossexual e há anos muito bem resolvido com a minha orientação.

Duas opções surgiram no meu horizonte: ou voltar para Lisboa (algo que para mim, na altura, não fazia parte da equação); ou, como sugerido por alguns amigos, casar com uma rapariga e manter relações extraconjugais.

Como seria de esperar, não gostasse eu de escolher sempre o caminho mais difícil, não segui nenhuma das opções que se me apresentaram, decidindo a ser o Ricardo que sempre fui, com todos os riscos que tal decisão me poderia trazer. E não foi fácil. Se me relacionava com um homem de noite, este, de dia, já não me conhecia, nem como amigo... Passava e virava a cara ao lado. Isto já para não falar dos olhares de desdém dos vizinhos e dos comentários maldosos quando virava costas. Nunca andei com uma bandeira, mas nunca escondi quem sou, nem o orgulho que tenho de ser quem sou. E não, ao contrário dos contos de fadas, a minha história não acabou bem.

Ao fim de alguns (acho agora que demasiados) meses, a minha estabilidade mental e emocional começou a ceder. A piorar a situação (sim, porque a maldade continua a ser gratuita), uma “tia” e uma vizinha encarregaram-se de espalhar pela aldeia a minha orientação sexual, inventando um sem número de histórias acerca da minha conduta imoral (ambas se encontram com um processo por difamação e devassa da vida privada, assunto para outras núpcias).

Cedi. Voltei para Lisboa. Mas mantive sempre a cabeça erguida, o orgulho na pessoa que sou. Não posso ser definido pelo simples facto de ser gay.

Não posso ser definido pelo simples facto de ser gay.

 

Em jeito de conclusão

Mês de Junho. Mês do orgulho. Mês de recordar...

Esforço-me todos os dias, e não só no mês de Junho, por desconstruir, aceitar, respeitar, ser orgulhoso de mim e da pessoa que me tornei. Respeito e tento não julgar as escolhas de cada um. Quero acreditar que cada qual faz o melhor que pode, que consegue ou que lhe é permitido fazer.

Um pouco por todo o mundo, mas cingindo-me agora a uma realidade que me foi dada viver e conhecer, pessoas sofrem discriminação sexual constante, devido a uma mentalidade rural e tacanha.

Lembremo-nos no mês de Junho, e todos os dias do ano, das nossas verdadeiras cores, da nossa essência. Possamos ser a luz necessária para que alguém consiga libertar-se desta homofobia estrutural e internalizada e mostrar, sem medos, a sua luz e cores.

 

Juntos somos todos.

Ricardo Falcato

 

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