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"A primeira Marcha do Orgulho no Porto só se fez por causa da Gisberta"

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O telefone tocou a meio da tarde. Era o Sérgio [Vitorino]. Estava muito frio, não queríamos sair da cama. A única coisa que entendi foi que teriam encontrado um “travesti” morto, com sinais de tortura no corpo, numa construção abandonada no centro do Porto.

Estava com o António e pusemo-nos “à caça” de mais informação. Malograda caça. Tudo o que viríamos a descobrir era mau de mais para ser verdade. Acabámos essa semana numa cerimónia fúnebre no Instituto de Medicina Legal do Porto. Com um padre que proclamava Gisberto do princípio ao fim. Mas o mais importante estava para chegar nos meses seguintes. Descobrimos a Gisberta. Ou talvez, as “Gisbertas” – trans, trabalhadora sexual, a viver com VIH, com tuberculose, imigrante com papéis desactualizados, sem abrigo, pobre. O jackpot das exclusões, como gracejava um amigo infeliz. Até hoje ainda não descobri se era uma Gisberta ou várias. Se a soma das partes dá um todo ou se o todo é muito mais do que a soma das partes. Era a Gisberta, para mim chega-me.

Descobrimos depois o bando de rapazes. Rapazes do Porto como eu tinha sido há tão pouco tempo. Para eles, a Gisberta era o “paneleiro”. Não era bem gente. Não merecia viver. Podiam brincar com ela à vontade. E o pior de tudo é que o bando de rapazes não estava sequer a perceber o que tinha feito de mal. Foram julgados, tal e qual como queríamos todos que acontecesse. Mas ainda hoje temo que hajam por aí bandos de rapazes que não saibam que as Gisbertas são gente como eles. Porque ainda hoje sei que quem educa os bandos de rapazes, nós os adultos, também não o sabemos.

Seis meses depois da Gisberta fizemos a primeira Marcha LGBT no Porto. Contra a vontade de muita gente e muitas organizações. Foi difícil e desgastante. Mas apesar de todas as oposições e dificuldades, tínhamos aprendido com a Gisberta que o “momento certo” não existe. Que a urgência do combate não se compadece com estratégia. Que as Gisbertas eram muitas e existiam naquele momento e não no futuro. Que diabo, que nós éramos todos Gisbertas, com mais ou menos partes. Desfilámos nas ruas do Porto com orgulho mas também com raiva, com vontade de mudar o Mundo naquele momento, com a certeza de que depois da Gisberta nenhum de nós voltaria a ser o mesmo.

A primeira Marcha do Orgulho no Porto só se fez por causa da Gisberta. E todas as outras só aconteceram porque foi feita a primeira. Que se fez por causa da Gisberta. Talvez seja essa a memória que realmente interessa. Aquela que permanece activa, todos os anos, nas ruas do Porto, com tantos e tantas jovens a chegarem pela primeira vez. Mesmo que eles não saibam, nem queiram saber que só estão ali por causa dela, da Gisberta.

 

Bruno Maia

Médico, Activista do GAT

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